Robôs x robôs: o que operação na Ucrânia revela sobre guerra do futuro

O que a operação na Ucrânia revela sobre a guerra do futuro pode ser resumido em um cenário onde robôs enfrentam robôs. A previsão de que esses equipamentos poderão superar o número de soldados humanos nos campos de batalha foi feita por uma fabricante de armamentos de origem britânica e ucraniana em entrevista à BBC.

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A declaração vem na esteira da afirmação do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, que em abril disse que o país havia retomado territórios ocupados por forças russas pela primeira vez em uma operação conduzida exclusivamente com robôs e drones. Os dois lados do conflito passaram a utilizar amplamente sistemas aéreos e terrestres não tripulados, o que, na visão de analistas, impulsionou de maneira expressiva o desenvolvimento de tecnologias militares.

Esse avanço tecnológico também intensificou o debate sobre o futuro dos conflitos armados e as implicações para os combatentes. Em um vídeo divulgado em abril para apresentar os novos armamentos robóticos da Ucrânia, Zelensky afirmou que uma posição inimiga foi tomada “exclusivamente por plataformas não tripuladas: robôs terrestres e drones”. As Forças Armadas ucranianas não revelaram detalhes da operação, mas a declaração de Zelensky veio após outra, feita em fevereiro, de que um único robô terrestre teria sido usado para conter um avanço russo por 45 dias.

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Parte desses armamentos é atribuída à UFORCE, uma startup militar fundada por ucranianos e britânicos que cresceu rapidamente, atingindo o status de “unicórnio” — termo usado para startups avaliadas em mais de US$ 1 bilhão (cerca de R$ 5,6 bilhões). A BBC News visitou a sede da empresa em Londres, que não possui identificação externa e opera de forma discreta. De acordo com a empresa, essa medida busca reduzir os riscos de possíveis ações de sabotagem por parte da Rússia.

Um representante da companhia se recusou a comentar a batalha envolvendo robôs mencionada pelo presidente ucraniano, mas afirmou que drones aéreos, terrestres e marítimos desenvolvidos pela UFORCE já estão sendo empregados em operações de combate. “Não posso entrar em detalhes sobre a operação nem sobre como a UFORCE esteve envolvida, mas já realizamos mais de 150 mil missões de combate bem-sucedidas desde a invasão russa em larga escala, em 2022”, afirmou Rhiannon Padley, diretora de parcerias estratégicas da UFORCE no Reino Unido.

Ela acrescentou que confrontos entre robôs devem se tornar cada vez mais frequentes, com sistemas não tripulados podendo até superar o número de soldados humanos no campo de batalha. A Rússia também vem utilizando robôs projetados para transportar explosivos até posições ucranianas. Analistas avaliam que os avanços nessa tecnologia tendem a transformar a forma como as guerras serão travadas no futuro.

“Vejo a Ucrânia como uma grande referência para o futuro da defesa nacional e da indústria armamentista”, afirmou Melanie Sisson, pesquisadora do centro de estudos Brookings Institution, nos Estados Unidos. “É um exemplo impressionante de como a necessidade impulsiona a inovação.”

A UFORCE faz parte de um grupo crescente das chamadas empresas de defesa “Neo-Prime”, que desafiam gigantes tradicionais do setor, como BAE Systems, Boeing e Lockheed Martin. Outra empresa do grupo é a Anduril, companhia americana de tecnologia militar que realizou, em fevereiro, o primeiro voo de teste de um caça sem piloto.

Embora a maioria dos drones ainda seja operada remotamente por humanos, empresas como a Anduril vêm incorporando cada vez mais inteligência artificial (IA) a sistemas de armamentos. Os drones terrestres da UFORCE usam softwares desenvolvidos para auxiliar na definição de alvos, enquanto a Anduril afirma que alguns de seus sistemas conseguem executar de forma autônoma a etapa final de um ataque.

O governo dos EUA também vem defendendo publicamente a adoção acelerada de IA pelas Forças Armadas. Em janeiro, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, afirmou que o país precisa se tornar “uma força militar que tenha a IA como prioridade”. A China também vem ampliando o uso de sistemas militares com IA, segundo uma avaliação publicada no ano passado pelo Departamento de Defesa dos EUA.

Analistas afirmam que um cenário em que robôs enfrentam diretamente outros robôs no campo de batalha pode ser difícil de evitar. “Drones ucranianos e russos já combatem entre si”, afirmou Jacob Parakilas, do centro de estudos RAND Europe. “Ver isso se expandir para guerras terrestres e marítimas parece extremamente provável — talvez inevitável.”

Grupos de direitos humanos, porém, alertam que o aumento da autonomia em sistemas de armamentos levanta sérias preocupações sobre responsabilização. “Os militares adotam IA para acelerar processos como a identificação de alvos. Mas delegar decisões de vida ou morte a máquinas traz riscos profundos do ponto de vista ético e dos direitos humanos”, afirmou Patrick Wilcken, da Anistia Internacional.

Os fabricantes de armamentos argumentam que manter “um humano no comando” responde a esse tipo de preocupação, insistindo que a decisão de usar força continua sendo responsabilidade de militares. “Seres humanos precisam de descanso e comida, e em situações de combate essas necessidades nem sempre são atendidas”, afirmou Rich Drake, diretor-geral da Anduril Industries no Reino Unido. “Os sistemas computacionais permitem reduzir erros ao longo do que chamamos de cadeia de ataque.”

Embates sobre uso militar de IA

O uso de IA em operações militares teve um caso emblemático em 2026. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, justificou isso em um texto publicado em janeiro de 2026. Ele escreveu que a Anthropic apoiava as forças militares e de inteligência dos EUA porque “a única maneira de responder a ameaças autocráticas é igualá-las e superá-las militarmente”. Amodei acrescentou: “A formulação a que cheguei é que devemos usar IA para a defesa nacional em todas as suas formas, exceto aquelas que nos tornariam mais parecidos com nossos adversários autocráticos”.

Consequentemente, o contrato da Anthropic com o Pentágono estabeleceu duas “linhas vermelhas”: o Claude não poderia ser usado para vigilância doméstica em massa ou para armas totalmente autônomas. Esses limites invioláveis não são arbitrários; eles se baseiam em um documento da empresa que serve como sua “alma”. Seu objetivo declarado é “prevenir catástrofes em larga escala”, incluindo a possibilidade de a IA ser usada por um grupo humano para “tomar o poder de forma ilegítima e não colaborativa”.

Amodei também argumentou perante o Pentágono que “os sistemas de IA de última geração simplesmente não são confiáveis o suficiente para alimentar armas totalmente autônomas”. As restrições impostas pela Anthropic levaram a um embate com o Pentágono, que tratou a empresa como se fosse inimiga do Estado. Mesmo assim, sua tecnologia de IA continuou sendo usada porque as Forças Armadas dos EUA não podiam se dar ao luxo de ficar sem ela.

O Pentágono exigia que a Anthropic concedesse acesso irrestrito à sua tecnologia para “todos os usos legais”. Mas em resposta, Amodei declarou, referindo-se a essas exigências: “Não podemos, em sã consciência, atender ao pedido deles”. A Anthropic acabou perdendo contratos com o Pentágono. Mas horas depois do anúncio de encerramento do contrato, a concorrente OpenAI (conhecida pelo ChatGPT) chegou a um acordo com o Pentágono.

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