Da tradição ao pop: culinária asiática vira febre e apresenta novos sabores
Ficou para trás o período em que a culinária asiática se resumia a yakisoba e sushi. Embora esses pratos ainda liderem os pedidos em restaurantes e deliveries, o termo hoje abrange um movimento muito mais amplo, que experimenta forte crescimento no Brasil, inserindo nomes exóticos no cardápio e nas prateleiras dos supermercados.
Mesmo com origens milenares, a cozinha oriental ganhou ares contemporâneos, com preparações instagramáveis e dicas que chegam diretamente do TikTok.
Parte dessa efervescência está ligada a um fenômeno mundial chamado Hallyu, que significa “onda coreana” e se refere à expansão cultural desse país. “Ele começou no final dos anos 1990 na Ásia, mas, com o passar das décadas, se espalhou por outros continentes”, conta Ester Bae, doutora em ciências sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e pesquisadora de cultura alimentar e imigração coreana.
Esse movimento ajudou a difundir, por exemplo, o cinema e os k-dramas — séries e novelas sul-coreanas —, assim como o k-pop, com toda a sua sonoridade e coreografias marcantes.
E há mais um “k” nessa lista: a k-food. “Inclusive, o interesse pelos pratos muitas vezes surge do que se vê na TV”, comenta Bae. As receitas integram o enredo, com personagens devorando bolinhos picantes em barracas de rua ou famílias saboreando refeições em casa. “Esses conteúdos despertam a curiosidade e aproximam as pessoas da comida, criando uma conexão que vai além do paladar”, observa a nutricionista Adriana Sakurai, especialista em comportamento alimentar de São Paulo.
Já o fascínio pelos pratos japoneses é mais antigo. Suas raízes remontam ao início do século passado, quando os primeiros imigrantes nipônicos chegaram ao Brasil. Hoje, o país abriga a segunda maior população de japoneses e descendentes fora do Japão.
Os rodízios se espalharam nas últimas décadas e continuam fazendo sucesso. Recentemente, ganharam ainda mais força com um movimento conhecido como “geração sushi”, que aponta crianças e adolescentes como os novos frequentadores assíduos desses restaurantes.
Outra tendência são os estabelecimentos especializados em ramen ou lámen — uma sopa fumegante feita a partir do dashi, um caldo encorpado clássico, com macarrão, ovos e outros ingredientes. Os animes que chegam aos cinemas e serviços de streaming também contribuem para a popularidade, apresentando ainda mais receitas aos brasileiros.
O entusiasmo crescente pela gastronomia chinesa, por sua vez, pode ser explicado pela expansão cultural que acompanha a força das relações comerciais. “A globalização também estimula a vontade de experimentar novos pratos”, nota a nutricionista Andrea Maciel Arantes, com formação em dietoterapia pela Academia Chinesa de Ciências Médicas, em Pequim.
Muito além do rolinho primavera, entram em cena opções como o bao, um pão macio, cozido no vapor e recheado com carne de porco.
Vantagens em comum
“Embora compartilhem alguns elementos, as culinárias asiáticas expressam identidades distintas, refletindo tanto suas origens quanto seus contextos locais”, explica Reginaldo Filho, fisioterapeuta e fundador da Escola Brasileira de Medicina Chinesa (Ebramec).
O arroz, por exemplo, está presente nas três cozinhas. Naquele continente, os arrozais moldam paisagens e sustentam a economia. Inclusive, o grão é um dos “Doze Símbolos de Soberania da China”, representando prosperidade.
Trata-se de uma excelente fonte de carboidrato que, junto com a soja — ingrediente amplamente utilizado e rico em proteína — e a mistura colorida de hortaliças e especiarias presente na maioria das receitas dos três países, faz da cozinha oriental quase sinônimo de alimentação equilibrada e variada.
“Ela atrai quem busca um cardápio saudável”, afirma Sakurai. Enfim, muitos argumentos justificam o sucesso dessas iguarias. A seguir, mergulhe nesse saboroso universo e descubra o motivo de tanta popularidade.
Japão: interesse renovado
Hara hachi bu significa “comer até ficar 80% satisfeito” e é um dos princípios da dieta de Okinawa, um arquipélago japonês que possui um dos cardápios mais renomados do planeta. “Ele ajuda a não sobrecarregar o organismo, a evitar o desperdício de alimentos e ainda envolve questões ligadas a traumas de escassez”, revela a nutricionista Denise Maki, de São Paulo, que passou uma temporada de estudos no Japão.
Não por acaso, o conjunto de ilhas é uma das blue zones, ou seja, está entre as regiões com os mais altos índices de longevidade do mundo. Entre os ingredientes de DNA local, destacam-se o melão-de-são-caetano, os frutos do mar, a carne de porco, o broto de bambu e o chá de jasmim. A batata-doce aparece como uma das principais fontes de carboidrato. Rica em fibras, contribui para o controle glicêmico.
No chamado Japão continental, há algumas diferenças em relação a Okinawa. “A alimentação cotidiana inclui arroz branco japonês, o gohan, peixes, soja e seus derivados, como o missô e o tofu, algas e muitos vegetais”, enumera a nutricionista Juliana Watanabe, estudiosa de padrões alimentares de ascendência nipônica.
Acrescente-se o consumo moderado de gordura e carnes. “Isso resulta em uma dieta de baixa densidade energética, rica em fibras, vitaminas e sais minerais importantes para a redução do risco de doenças cardiovasculares e metabólicas”, diz.
Outro ponto positivo para Watanabe, que também é chef de cozinha e hoje vive na Espanha, é o modo de preparo das receitas, sendo muito comum grelhar, saltear, ensopar e usar caldos leves. “Assim, preservam-se os nutrientes e o sabor.”
Na culinária japonesa, valoriza-se também o gosto umami. “Considerado o quinto sabor básico, ele vem das algas, cogumelos e peixes”, traduz Maki. Independentemente da região, em todo o país há rituais de agradecimento à mesa. Expressões como itadakimasu, dita antes de comer, e gochisousama deshita, ao final, costumam ser recitadas pela família. “Eles valorizam o alimento e todos os envolvidos no processo, desde o produtor até quem preparou a refeição”, comenta Sakurai.
Watanabe acredita que essa prática favorece uma relação mais consciente com a comida. O uso dos palitinhos é outro aliado da tranquilidade diante do prato. “O hashi ajuda a prestar atenção à comida, promovendo maior sensação de saciedade”, observa Maki.
Ingredientes básicos da culinária japonesa
Receitas japonesas para fazer em casa: missoshiro
Esta sopa clássica servida como acompanhamento é preparada com dashi — caldo de algas ou de peixe — e missô, a pasta de soja fermentada. Costuma levar wakame, que são algas desidratadas, e, na finalização, tofu cortado em cubinhos e cebolinha verde em rodelas finas.
A nutricionista Juliana Watanabe traz os ensinamentos da batian, sua avó. “Ela incluía cenoura raladinha, tofu, e acrescentava um ovo inteiro para cozinhar como pochet”, lembra. Ou seja, use a criatividade!
Receitas japonesas para fazer em casa: dashi

Caldo essencial que serve como base para diversas preparações, inclusive o missoshiro. As receitas mais tradicionais usam a alga kombu e o katsuobushi, que são flocos de peixe seco. “O caldo não deve ferver por muito tempo, senão fica amargo”, ensina Denise Maki.
Coreia do Sul: o novo fenômeno de popularidade
Bab meog’od’ni? ou “Você já comeu?” Essa é uma frase comum quando os coreanos se encontram. “Não se trata de uma simples pergunta, mas de uma referência à preocupação com o bem-estar geral”, explica Ester Bae, que, além de pesquisadora, é descendente de coreanos e passou parte da infância nas cidades de Pohang e Busan.
Em sua tese de doutorado, ela afirma que a mensagem essencial por trás da prática alimentar na Coreia é a de reverenciar a vida. A nutricionista Jaqueline Kang, especialista em alimentação asiática, que também é filha de coreanos, comenta que a comida exerce um papel coletivo e social. “As refeições são, em geral, compartilhadas, com os pratos dispostos no centro da mesa”, descreve.
Um dos exemplos de coletividade chama-se Kimjang. Trata-se de uma prática tradicional em que as pessoas se reúnem para preparar grandes quantidades de kimchi, uma receita de vegetais fermentados que é a tradução da cozinha coreana e está presente em praticamente todas as refeições. Surgiu há milhares de anos como uma estratégia para garantir o sustento durante o inverno e se tornou Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade declarado pela Unesco.
Nascida em Seul, a chef de cozinha Regina Hwang, do restaurante paulistano Portal da Coreia, lembra que, quando chegou a São Paulo, nos anos 1970, o Kimjang acontecia em sua casa. “Toda a vizinhança se juntava, comprávamos muitos quilos de acelga, era uma verdadeira festa”, recorda-se.
Além da memória afetiva de boa parte dos coreanos, o kimchi também tem se destacado por ser aliado da saúde intestinal. “O consumo regular de alimentos fermentados está associado a uma maior diversidade na microbiota intestinal”, diz Kang.
E não faltam indícios, vindos de pesquisas mundo afora, de que manter equilibrado o ecossistema do intestino, com maior população de bactérias benéficas, é uma estratégia com potencial para combater processos inflamatórios, modular o sistema imunológico e até melhorar o humor.
Outro destaque no cardápio são o churrasco coreano, preparado na mesa na hora de comer, e as sopas. “Um exemplo é a miyeokguk, feita de algas e consumida nos aniversários como uma forma de honrar e agradecer à mãe pelo sacrifício no parto”, ilustra Kang. Sem dúvida, uma deliciosa e nutritiva homenagem.
Ingredientes básicos da culinária coreana

Receitas coreanas para fazer em casa: bibimbap

O PF sul-coreano, cujo nome significa arroz (bap) misturado (bibim). “A versão tradicional leva arroz, vegetais, carne, ovo e gochujang, a pasta de pimenta fermentada”, lista Hwang. Todos os ingredientes são misturados imediatamente antes de comer. “Assim ocorre uma explosão de sabores.”
Receitas coreanas para fazer em casa: kimchi

Há quem diga que é o equivalente coreano do arroz com feijão. A chef Regina Hwang explica que, embora existam variedades, o mais comum é o baechu kimchi, de acelga.
“Há os feitos de nabo, repolho, berinjela, entre outros”, exemplifica. Pimenta em flocos (gochugaru), farinha de arroz, maçã, pera asiática, gengibre, alho e cebola estão entre os ingredientes. Ao final do preparo, a receita é colocada em recipientes de cerâmica para fermentar por cerca de 24 horas e depois vai para a geladeira.
China: tradição e diversidade
A chef chinesa Jiang Pu, que ficou conhecida pela passagem no programa MasterChef, revela que, nos anos 2000, era complicado encontrar ingredientes para a preparação das receitas típicas de seu país. “Até mesmo o broto de bambu não se achava fácil”, lembra. Hoje, em estabelecimentos especiais, dá até para escolher entre a versão grossa e a fina, de acordo com a finalidade. “O interesse pela comida asiática fez aumentar a demanda, e, assim, diversos produtos ficaram acessíveis”, conta a VEJA SAÚDE.
Essa busca se dá principalmente entre as novas gerações, que, além de tentar ter hábitos mais saudáveis, querem experimentar sabores exóticos e diferentes. “O gosto por pratos doces e picantes é uma tendência”, comenta a nutricionista Andrea Arantes. E a culinária chinesa junta essas características, até porque diversos condimentos têm o continente asiático como berço.
Devido à extensão do país, um dos maiores do globo, sua cozinha é muito diversificada. “Existe uma grande variedade de técnicas, sabores e estilos regionais”, diz Denise Maki. Um exemplo é o consumo de pescados. “Na região sul, eles comem mais peixes e frutos do mar, em comparação com o norte”, comenta Jiang.
A matéria-prima do macarrão também é marcada pela variedade. “Há locais em que é feito de trigo, mas o arroz e o milho também são utilizados na produção”, observa a chef. Inclusive, os chineses estão entre os grandes consumidores de massa, e relatos dão conta de que ela teria surgido lá.
Cientistas encontraram, no sítio arqueológico de Lajia, que fica às margens do Rio Amarelo, vestígios de um tipo de macarrão de formato cilíndrico com cerca de 50 centímetros de comprimento, preparado há 4 mil anos. Pelas características, seria um ancestral do espaguete.
Outro ingrediente com sotaque mandarim é o chá-verde. Bules com a Camellia sinensis aparecem de manhã, de tarde e de noite, ofertando compostos fenólicos, substâncias que protegem o coração, ao dia a dia. E, neste caso, também reina a mistura de tradição e modernidade, como ilustra o bubble tea — bebida instagramável feita com a erva, mais bolinhas de amido de mandioca (tapioca) e leite. “Só que algumas versões podem conter excesso de açúcar”, sinaliza Arantes. Pedem, portanto, moderação.
Bebidas do tipo, frituras populares e ultraprocessados asiáticos mostram que nem tudo que vem de longe é mais saudável. Mas, se tem algo que chineses, coreanos e japoneses nos ensinam, é o equilíbrio à mesa.
Ingredientes básicos da culinária chinesa

Receitas chinesas para fazer em casa: chowmein

O nome vem de chau, que significa frito, e meing, que é macarrão. Na receita de Jiang Pu, vai frango marinado no gengibre, molho de soja, pimenta-do-reino e demais temperos. Entre os legumes, estão acelga chinesa, cenoura, broto de feijão e cebola.
Ela também usa molho de ostra e óleo de gergelim. Os ingredientes são refogados por etapas, separadamente, e ao final são misturados. “A panela tem que estar muito, muito quente”, indica a chef. Isso garante o sabor defumado.
Receitas chinesas para fazer em casa: ovo de chá

Neste clássico, ovos cozidos ficam imersos em uma marinada para ganhar sabor e aparência marmorizada. Na versão de Jiang Pu, utiliza-se o chá-preto com pau de canela, anis-estrelado, pimenta-de-sichuan, molho de soja, açúcar e sal. “Uma sugestão é deixar curtindo na geladeira.”
Dados sobre o boom da culinária asiática
- 21 milhões de reais em importações de itens culinários coreanos em 2025
- 8 milhões de pedidos de comida chinesa foram feitos no iFood em 2025
- 58 milhões de pedidos de comida japonesa feitos no mesmo período
- 10 bilhões de reais é quanto a Coreia exportou em alimentos para o mundo em um ano







