Todos os anos, no dia 22 de abril, celebramos o Dia Mundial da Terra. Nesta data somos convidados a olhar para os problemas ambientais pelos quais o planeta tem passado. Dentre eles podemos citar o degelo das calotas polares, as manchas de óleo e o lixo plástico acumulados nos oceanos e a fumaça cinzenta que encobre as nossas grandes cidades.
São situações que podemos ver e tocar com nossas próprias mãos e que demandam uma resposta imediata de todas as pessoas. No entanto, existe uma dimensão dessa crise ambiental que raramente ocupa as manchetes e, apesar disso, é quase impossível de ser ignorada por nós. Trata-se da degradação do nosso ambiente sonoro.
As bases dessa ideia foram elaboradas pelo compositor e educador canadense R. Murray Schafer. Em seu livro A Afinação do Mundo, Schafer trata muito mais do que de música, ele introduz o conceito de “ecologia acústica”. Nesta obra somos introduzidos à ideia de que o mundo é uma composição musical ininterrupta da qual somos audiência e compositores. O problema é que, como civilização, estamos compondo um ruído insuportável que abafa a voz da própria vida.
Há alguns conceitos que Schafer introduz e com os quais deveríamos nos familiarizar para entender o seu pensamento de ecologia acústica. Refiro-me à paisagem sonora e às suas características de Alta Fidelidade, Hi-Fi, e baixa fidelidade, Lo-Fi.
De modo bem simplificado, podemos afirmar que a paisagem sonora é o conjunto dos sons que nos cercam. Se estivermos em um ambiente urbano sua paisagem sonora é composta por sons de automóveis, atividades de construção, sons de sirene de ambulâncias, viaturas de bombeiros etc.
Murray Schafer – Listen (Legendado)
Nesse sentido, uma paisagem Hi-Fi é aquela na qual a relação sinal-ruído é equilibrada. Em uma floresta preservada ou em uma aldeia rural, o canto de um pássaro distante, o farfalhar das folhas ou o correr de um riacho podem ser ouvidos com clareza. Há espaço para o silêncio e, portanto, há espaço para a comunicação entre as espécies.
Em contraste, vivemos em uma era Lo-Fi. Nas cidades, o som forma uma massa densa e indistinta. Como mencionado anteriormente, ouvimos motores, aparelhos de ar-condicionados e ruídos de construção que criam um “muro de som” que aniquila a perspectiva sonora. Não ouvimos mais o horizonte; ouvimos apenas o ruído imediato.
As paisagens sonoras versão final.wmv
Outro conceito muito importante trazido por Schafer é a “esquizofonia”, ou seja, a separação entre um som e sua fonte. No mundo moderno, vivemos cercados por sons reproduzidos eletronicamente. Caminhamos pela natureza com fones de ouvido e nos isolamos em nossas bolhas acústicas particulares.
Essa desconexão nos faz perder a capacidade de ouvir o ambiente real. Assim, perdemos a empatia com o ecossistema. O som é o sentido que nos liga ao “agora”. Quando paramos de ouvir o que a Terra nos diz, seja o som de uma tempestade que muda de padrão ou o silêncio onde antes havia pássaros e outros animais, tornamo-nos indiferentes à sua destruição. A ecologia acústica de Schafer nos ensina que a preservação ambiental começa pela reeducação do ouvido.
Celebrar o Dia da Terra pode se reduzir apenas a um exercício de lamentação, mas de design. Schafer propunha que fossemos “compositores do ambiente”. Em outras palavras, fazer com que a sustentabilidade urbana inclua o planejamento sonoro. Precisamos de cidades que, além de emitir menos carbono, emitam menos decibéis desnecessários.
Uma sociedade sustentável é, por definição, uma sociedade mais silenciosa. O silêncio, para Schafer, não é a ausência de som, mas um estado de receptividade. É o “negativo” da fotografia sonora que permite que a beleza do mundo natural se revele.
No Dia da Terra, celebramos a biodiversidade, mas esquecemos que essa biodiversidade depende de “nichos acústicos”. Se o ruído de uma rodovia ou de uma turbina invade uma reserva natural, as frequências usadas por aves ou anfíbios para o acasalamento são “mascaradas”. A extinção, muitas vezes, começa pelo silenciamento forçado.
Para terminar proponho um pequeno exercício. Pare por cinco minutos, feche os olhos e tente identificar o som mais distante que consegue ouvir. Se você só conseguir ouvir o zumbido da tecnologia ou o rugido do trânsito, é porque seu ambiente é Lo-Fi e precisa passar por uma restauração.
Restaurar a “Afinação do Mundo” não significa apenas realizar uma mudança estética no ambiente ao seu redor. Significa atender a um imperativo de sobrevivência no qual voltamos a ouvir a Terra para, assim, despertar em nós o desejo de salvá-la.







