O Brasil, desde os tempos da colonização, trata o saneamento como bobagem. Ignora as mortes, doenças e os impactos nefastos na qualidade de vida do povo e ainda cunhou um termo vergonhoso para categorizar o mais vital serviço público: saneamento básico. Básico? O que seria o básico? Enterrar rios? Transformar canais em valões retilinizados? Esconder cursos d’água transformados em esgoto, ao invés de tratá-los?
Enquanto nações como a Índia aceleram a passos largos para universalizar o acesso à dignidade sanitária, nós, aqui no Espírito Santo e em boa parte do território nacional, assistimos a um espetáculo de inércia.
Vemos, do governador aos prefeitos, a celebração de obras de canalização de valões que outrora foram rios. Chamam isso de “requalificação”. Ora! Quanta desonestidade dizer uma bobagem dessas!
Sabemos que a legislação ambiental é clara ao exigir a preservação das matas ciliares.
Sabemos também o desastre que esses canais se tornam quando, nas cheias, sua podridão ganha as ruas, inundando as cidades de doenças.
Segundo o DATASUS, em 2024, aproximadamente 340 mil pessoas foram hospitalizadas por doenças causadas pela falta de saneamento — sim, o tal “básico”. Em 2023, quase 12 mil brasileiros perderam suas vidas em consequência dessa estrutura sanitária vergonhosa. São 30 brasileiros morrendo por dia devido à falta de água tratada e de acesso a rios e praias minimamente balneáveis.
Um exemplo histórico de como lidar com o esgoto de forma ineficiente foi, há mais de 110 anos, o aterro que deu origem ao Parque Moscoso. Na época, o Estado achou mais interessante aniquilar a biodiversidade marinha ali existente do que despoluí-la e integrá-la ao Parque. Até aí, a gente ainda “passa pano”, afinal, o parque foi entregue em 1912.
Mas, atualmente, ver gestores celebrando a canalização de rios que viraram esgotos sem sequer mencionar a intenção de tratar esses efluentes é de um descaramento sem limites.
Temos visto um foco governamental excessivo na canalização de córregos. É a solução da engenharia que “esconde” o problema, jogando a sujeira para debaixo do tapete. Depois, ninguém sabe explicar o porquê de Vitória ter praias tão imundas.
A Baía de Vitória recebe a carga podre do Canal de Itanguá, Rio Aribiri, Rio Marinho, Rio Bubu, Canal do Guaraná, canais de Flexal e Porto de Santana, Rio Santa Maria da Vitória, Valão de Carapina, Canais do Complexo de Tubarão e Canal da Costa. Isso sem falar nas centenas de ligações clandestinas na capital que, mesmo com rede separativa, enfrenta a “canalhice” de quem não se conecta corretamente e a incompetência da prefeitura que não fiscaliza.
São toneladas diárias de resíduos sólidos – que poderiam ser interceptados por ecobarreiras de baixo custo – e toneladas de esgoto doméstico e industrial que chegam à baía de Vitória e ÀS nossas praias sem tratamento e as prefeituras, CESAN e governo do estado seguem omissos.
Em 2024, o Espírito Santo registrou 5.421 internações por doenças relacionadas ao saneamento inadequado. Dessas, cerca de 1.700 foram infecções feco-orais, ligadas diretamente ao contato com água contaminada.
Enquanto o mundo desenterra rios e os transforma em parques lineares, o Brasil segue matando seus cursos d’água e sua população.
Nas últimas semanas, “manchas misteriosas” no mar adoeceram dezenas de banhistas em Vitória e o assunto é tratado como briga política de quinta série. Cadê a maturidade dos nossos representantes?
Estamos em ano eleitoral. Quem vamos eleger? Os políticos que escondem o esgoto ou os que possuem projetos concretos de consciência ambiental?
Cerca de 70% das praias brasileiras monitoradas estão impróprias. Isso não é apenas um problema ambiental; é uma crise de saúde pública e um golpe no nosso potencial turístico.
Como falar em “cidade inteligente” se não garantimos o elementar?
Lembrem-se: se a Índia saltou de 6% de saneamento no ano 2000 para os atuais 56%, por que o Brasil estagnou nos 52%?
Cabe aqui o resgate histórico dos dados que, como geógrafo, faço questão de pontuar: de 2003 a 2016, o Brasil deu um salto expressivo, saindo de 24% para 42% de esgoto tratado — um crescimento de 18 pontos percentuais em 13 anos. Já no período seguinte, de 2017 a 2026, esse ritmo minguou para cerca de apenas 1% ao ano. Em resumo: em um intervalo de dez anos, conseguimos aumentar a cobertura em quase 20%; nos dez anos seguintes, avançamos apenas metade disso.
Estagnamos! Passamos a aceitar o “básico”, ficamos satisfeitos com metade do serviço, e o resultado é o que vemos hoje. Agora é hora de acordar, botar o assunto em pauta e fazer essa tropa de políticos que custa caro aos cofres públicos trabalhar e fazer o salário que recebem valer alguma coisa!
Tratar rios urbanos e recuperar a balneabilidade das nossas costas deve ser o centro do debate sobre urbanismo e dignidade humana.
Acabou o tempo da complacência. Como geógrafo, trago esses dados para criar o “burburinho” necessário.
Tratar rios urbanos e recuperar a balneabilidade deve ser o centro do debate sobre urbanismo e dignidade humana.
Enterrar canos e tratar o que sai deles não rende fotos de inauguração tão coloridas quanto uma nova praça, mas é o que separa uma civilização de um aglomerado urbano em decadência. Até quando vamos aceitar que o esgoto dite o ritmo do nosso crescimento e a cor do nosso mar?
E você, prefere concreto e asfalto, ou uma praia limpa e rios recuperados para ter tempo de qualidade com sua família e amigos?







