Crítica: Espetáculo 155

No último 17 de abril, aportei no Centro de Vila Velha para conferir o espetáculo “155”. O cenário? Uma galeria de arte charmosa em uma avenida que, àquela hora, parecia o cenário de um filme de faroeste urbano: deserta, silenciosa e levemente melancólica. Para mim, ver a arte brotar entre pincéis e telas de uma galeria é como encontrar um bom boteco aberto em plena segunda-feira: uma surpresa necessária.

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Em geral, quero parabenizar a Cia Motriz pela coragem de pôr a cara a tapa, correr atrás e experimentar, mostrar o diferente, sem medo. E, isso alguns grupos precisam para se atualizar e mostrar mudanças no âmbito teatral.

Um cenário improvável, será que o teatro precisa ser feito no palco italiano e ter um perfil de pessoas de frente assistindo? Eu sei que existe o teatro de rua, mas, é raro, pelo menos para mim, dentro de uma galeria de arte. Na verdade, a outra vez recente que vi “Se as paredes derretem é porque derretem” na Casa Porto, no Centro de Vitória. Expor uma arte (teatro), onde se expõe outras artes, quase uma metalinguagem artística. Meio dentro da galeria, mas estava sentada num banco de madeira, um pouco fora da calçada da rua. Para esses tipos de espetáculos (assim como o Teatro de Rua), a narrativa vem como espaço e com público. O espaço cênico fica visível e se concretiza na encenação. Ai o espaço pertence ao texto dramático e só é visualizável quando o espectador constrói imaginariamente esse espaço dramático. A exemplo, do grande Zé Celso Martinez Corrêa, que dirigiu montagens do Teatro Oficina em fábricas, fazendas, rios e outros locais “alternativos” a partir dos anos 1970.

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A proposta do “Espetáculo 155”, diz abertamente que funciona todo o com o  Hiperrealismo.

Daquilo que eu sei sobre o hiper-realismo, é sobre as suas raízes no fotorrealismo, que visava reproduzir imagens com precisão, carga emocional, detalhes minuciosos, para desafiar a percepção, onde coisas que aparentam ser banais se transformam em experiências quase reais. Mas, esse conceito voltado para o teatro, eu não estava muito familiarizado, pesquisei e fui atrás, para saber mais antes de escrever aqui. Pelo que eu encontrei, não fugiu muito do conceito que eu sabia sobre. Então continuei a escrita do texto me baseando nisso. Entendi que no teatro, as “atuações” seriam tão imperceptíveis que eu ia esquecer que estava em um espetáculo teatral (ou que está numa galeria).

A questão, a meu ver, é que, na prática, o espetáculo foi em direção ao Surrealismo. Enquanto o Hiperrealismo é métrico, cirúrgico e técnico, o que vimos foi uma exploração do inconsciente, do onírico e do desconexo. Lacan adoraria: o “Eu” das atrizes e o “Eu” das personagens se fundiram em uma confusão que nem sempre parecia proposital. Uma amiga me perguntou sobre isso no final do espetáculo, e, foi exatamente o que respondi para ela, meu sentimento foi bem diferente. As personagens e as histórias foram sim trabalhados no Realismo, mas, as suas conduções não. Então, me parece que as ideias iniciais eram pautadas do Hiperrealismo, mas, a partir do momento das experimentações, isso foi caindo por terra, e, não é um problema, desde que não se promova e venda como, para o público não se decepcionar.

A atriz que inicia o chamado para adentrarmos o espaço não convenceu. Sabe aquele convite de festa que você só aceita porque vê a câmera e o diretor indo junto? Foi assim. Falta aquele carisma que Amir Haddad domina: a capacidade de transformar o pedestre em cúmplice. Em um momento os atores chamam o público para dançar, mas, precisam ter carisma para isso, da mesma forma em que tentam “chamar” o público para as transições. Se o público não compra, não tem cena, pelo menos nesse tipo de espetáculo.

A atriz disse que é a primeira vez que faz, na segunda sessão? Ou talvez a personagem e não a atriz, para mim não ficou claro quem era quem em certos momentos, e, isso pode ser um ponto bem positivo ao olhar pelo lado hiper-realista, pois deixa o público com o desafio de ter uma boa percepção do todo se questionando o que é real e o que é representação, muitas vezes imagina com um conceito político ou social por trás do que é representado. Mas, é algo difícil de executar, e, na minha opinião a atrizes não se saíram muito bem nisso. Apesar de puxar um elemento que me voltou a lembrança das aulas de teatro, com os jogos iniciais de espelho e andar pelo espaço, onde era uma tentativa de conectar com o público para que comprem o que estava acontecendo, mas, isso não ficou muito claro, era uma aula de que? A atriz faz uma quebra entre a “professora tentando ser profissional” e a “vida pessoal que surge”, mas, a quebra não é certa, e me confunde quando ela está ou não fazendo o que, e isso (se foi proposital) me dá mais intenção de ser algo de vertente do Surrealismo e não do Hiperrealismo.

A personagem da Produtora tentou uma entrada disruptiva para “interromper” a aula-performance. Entretanto, faltou o entusiasmo, a energia, por parte da atriz. A personagem alegou nervosismo, mas parecia apenas estar lendo um roteiro mental sem o fervor da urgência. Ainda mais quando sabemos futuramente toda a motivação da personagem que é revelada depois.

Vestígios da Pintura da Produtora | Foto: Daniel Bones

Em um outro momento, ela inicia uma performance pintando, era bonito ver ela se unindo em meio as obras de arte da galeria, se posicionando como uma “obra mal-acabada” que estava em “construção”, o visual foi potente. A contada história por trás da artista tentando sobreviver é boa, fala com a maioria do público que talvez estivesse ali presente (músicos, atores, poetas, pintores) mas, o drama exacerbado não me comoveu. E quando tentou um choro… Choro forçado? Forçar demais um sentimento já não entra no teatro (método Stanislavski), ainda para uma história que está sendo muito falada como Hiperrealista. Se a lágrima não vem da alma, ela vira apenas água com sal que não tempera o drama.

Por outro lado, a personagem Poeta Bel foi o grande plot twist da noite. Ela entrou como quem não quer nada, quase sendo confundida com o público — uma manobra que o mestre Augusto Boal assinaria embaixo no seu Teatro do Oprimido. O início com o clichê “Batatinha quando nasce…” gerou risos contidos, mas a reviravolta para um texto denso, maravilhoso e bem declamado (como se estivesse num sarau), foi o ponto alto, como se estivesse no domínio da situação, com confiança! Talvez no começo, as outras personagens podiam tratar ela como uma pessoa espectadora (público) aí sim, sua motivação ia chegar com mais impacto. Mas, mesmo assim, foi uma boa entrada.

Uma coisa que diria ser um ponto bem positivo (apesar de quase ter dado ruim) são as Quebras de Expectativas, no cinema são conhecidos como os “Plot Twists”, aqui nesse espetáculo, o Diretor Alberto explica como “Quebra de Pacto”.

O diretor pega o microfone e sobe no palco (ou melhor, na calçada da galeria) para nos dar flanelas laranjas. Disse que eram vitais. Nós, obedientes e ansiosos, guardamos os panos como se fossem relíquias sagradas. No final? Não serviam para nada. Genial, simplesmente amei! Uma quebra de pacto digna de quem quer brincar com os limites da representação.

Porém, como diz o ditado, (ou talvez eu tenha inventado heheh), “quem muito explica, o erro complica“. O diretor sentiu necessidade de explicar que o pano surgiu por acaso. Ai não precisava! Se você explica o truque, a mágica vira apenas um pano sujo de poeira. Eu iria para casa com essa pulga atrás da orelha do porquê disso, com um ar de genialidade da produção, mas, vi que não era.

A outra quebra positiva que gostaria de citar, não é bem uma de expectativa, mas, se encaixa. Assim como o local que estava sendo apresentado, numa galeria de arte, tínhamos uma apresentação em cada sala simultaneamente, onde em cada ponto que eu andasse, veria algo acontecendo. Nesse contexto, eu poderia simplesmente andar pela galeria que veria alguma performance acontecendo. A abertura cênica pelo espaço alternativo é interessante. Você não sabe onde está a cena, você está imerso em uma e existe uma outra cena acontecendo em outro lugar. Vai do público decidir onde vai acompanhar. Nessa estrutura, que na minha opinião seria fiel ao hiperrealismo, quando as ações ocorressem fixas em cada espaço, como se fosse mesmo uma exposição, mas, como as personagens se movem entre os espaços, mas uma vez a não-linearidade me remete ao surrealismo.

Duas cenas ocorrendo ao mesmo tempo | Foto: Daniel Bones

E nisso, me leva a questão das transições cênicas, a meu ver não foram bem executadas para “levar o público de um espaço para outro”. A peça não tem final definido, não tem meio e não tem começo, o que pode até ser positivo se mantivesse um padrão de elevação de momentos. Mas, eu não sabia quando ela ia acabar, em outros momentos, achei que tinha acabado. Poderia ser, mas, não era positivo, pois deixavam muitos hiatos de silencio. Hiatos Grandes, que eu me lembro do meu professor de teatro dizendo: “A peteca caiu“. Eram muitos momentos assim.

Em um momento, eu achei que ia engrenar aonde as personagens vão para a rua mesmo e iniciam uma certa discussão acalorada, onde achei que viraria uma “briga cênica acalorada”, mas, virou apenas algo de cada uma falar uma parte do texto de cada lado da rua. Faltou ali uma intensidade e um fervor entre as duas, numa discussão real, onde uma queria colocar a sua opinião a frente, mas, virou apenas uma picos de energia seguidos de minutos de silêncios contínuos. E, se uma pessoa do público não entrasse para falar algo, as, ações não iam continuar, pois, pareciam que as atrizes sentaram e estavam esperando a próxima cena que ocorreria, mas, ficou outro vazio. Senti falta de algo mais real, impactante, de soltar a voz e de uma discussão raiz.

Cena da discussão na Rua | Foto: Daniel Bones

Esses momentos ocorreram em alguns momentos, e que faziam o público dispersar e não prestar atenção de fato. Fazer arte num mundo desconectado de sua essência é o desafio do teatro hoje. Fazer com que um jovem tire o olhar do telefone por alguns minutos e fique imerso naquele universo, é algo complexo mesmo. O teatro está envolvido num leque enorme de opções de diversão, informação e lazer. Para ele se fazer presente é preciso criatividade, textos bem elaborados e boa qualidade dos profissionais envolvidos no processo.

Pois bem, “o Espetáculo 155” é um experimento corajoso que tenta tirar o jovem do celular e jogá-lo no olho do furacão artístico. No entanto, as transições lentas e os hiatos de silêncio (os momentos em que a “peteca cai”) deixaram o espetáculo com um ritmo de internet discada em tempos de fibra. A discussão das atrizes na rua, que deveria ser o ápice da tensão, virou apenas uma troca de frases sem o fervor da carne e do osso. Acredito que o intuito, era de transformar os atores em público e o público em atores. Esse conceito bem executado, entrega muito, mas, não foi o caso.

Fazer arte hoje é resistir. O espetáculo tem sementes de genialidade que acredito que pode evoluir para muito além, mas precisa decidir se quer ser o espelho fiel do real (Hiperrealismo) ou o caótico funcional. É entre gestos, expressões, estudos, e palavras que se constroem pontes necessárias para transportar as transformações sociais que se deseja. Um espaço utópico de resistência.

Entre erros e acertos, fica a reflexão sobre o espaço: o teatro não precisa de palco italiano, ele precisa de pulso, criatividade e vontade. E, isso o grupo entregou com firmeza.

Assim como Bertolt Brecht e Vladimir Maiakóvski nos ensinam: “O teatro não é um espelho para refletir o mundo, mas um martelo para moldá-lo”. Isso funciona, desde que o martelo não pare para descansar no meio da obra.

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Daniel Bones
Daniel Bones
Sou o "Severino do Audiovisual Capixaba", já atuei em diversas áreas como fotografia, edição, sou ator, compositor, produtor e diretor de filmes e TV. Gosto de contar histórias. Ponto Final. (...) Aqui, minha coluna é cultural, mas vive com uma dor postural. Eventos, Arte, Cultura, Cinema e Teatro são comigo aqui! Se quiser, siga essa doideira ai!

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