Dores que não vêm de você

O trauma que vem de longe

Você já experimentou um medo sem razão aparente? Uma tristeza que pareceu surgir antes mesmo de seu nascimento? Ou repetiu, inconscientemente, um comportamento que sempre condenou em seus pais? A ciência oferece uma explicação, e a resposta está gravada no corpo.

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A psicanalista Ana Lisboa, fundadora do Movimento Feminino Moderno e colunista da Vida Simples, acaba de publicar “O direito de ser eu” (Editora Gente). A obra, que chega pelas mãos de uma das principais vozes da saúde mental no país, apresenta 12 leis projetadas para ajudar o leitor a retomar o controle de sua própria história e se reconectar com sua essência.

O livro fundamenta-se na Integração Sistêmica, um método desenvolvido por Ana que integra psicanálise, terapia sistêmica, neurociência e estudo do trauma. A proposta central é demonstrar como o corpo armazena memórias, revelando como dores emocionais podem ser transmitidas através das gerações.

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Não herdamos apenas características físicas como a cor dos olhos ou o formato do rosto. Herdamos também, gravadas em nosso DNA, marcas de vivências de nossos antepassados. Ana explica que esse fenômeno já foi amplamente comprovado pela epigenética.

A autora cita estudos emblemáticos, como o conduzido pela doutora Rachel Yehuda com vítimas do Holocausto. “Descendentes – netos e bisnetos de pessoas que vivenciaram o Holocausto e que nem sequer conheceram os avós – apresentavam maior predisposição à ansiedade e já nasciam com níveis elevados de cortisol.”

Investigações similares foram realizadas na Holanda com gestantes que enfrentaram períodos de fome. “Os filhos, netos e bisnetos exibiam comportamentos de transtornos alimentares, diabetes e já nasciam com essas condições.”

Em outras palavras, sempre que nossos ancestrais foram expostos a traumas ou a intensos impactos emocionais, isso desencadeou uma desmetilação do gene – uma marca química que pode ser herdada. “O gene fica marcado com essa experiência e é transmitido para a geração seguinte.”

O trauma como um movimento interrompido

Mas, afinal, o que define o trauma? Ana propõe uma definição que foge do senso comum. “Todo trauma reside no ‘não poder’. A pessoa não se traumatiza pelo evento em si, mas pelo que foi impedida de realizar.”

“Não se trata de um trauma relacionado a dinheiro – é o trauma de não ter podido auxiliar os pais. Não é o trauma do acidente – é o de não ter conseguido salvar alguém. O trauma é um movimento interrompido, um congelamento da psique.”

Esse congelamento não se limita à mente. Ele se instala no corpo. Para Ana Lisboa, o trauma é invariavelmente somatizado no corpo, manifestando-se em um órgão ou em um sintoma. É como se o corpo retivesse a memória mais profunda do que não pôde ser vivenciado.

O perigo de pensar sem sentir

Quantas vezes tentamos compreender racionalmente o que sentimos, elaboramos explicações perfeitas, mas o desconforto no peito, a tensão nos ombros ou o nó na garganta persistem?

Ana alerta para um desvio comum na jornada de autoconhecimento: a intelectualização. “Muitas pessoas mergulham na intelectualização – querem entender tudo de forma racional –, mas isso pode ser apenas uma forma de fugir da dor.”

Ela é enfática: “Não existe alma leve em corpo inflamado. Se a pessoa não direciona o olhar para o corpo, não vivencia o processo terapêutico e permanece apenas na racionalização, ela não está verdadeiramente se autoconhecendo.”

Na terapia de integração sistêmica, a abordagem é inversa: acessar o trauma no corpo, em nível químico, e liberar novos hormônios, ressignificando aquele movimento. “Por meio de um movimento catártico, fazer o corpo sentir-se seguro.”

Capa do livro da psicanalista Ana Lisboa

O direito de habitar a si mesmo

Para quem está iniciando esse processo, Ana oferece uma orientação simples e profunda: acesse o corpo. “Antes de buscar diagnósticos e justificativas racionais, é crucial entender que o trauma é individual. Duas pessoas podem vivenciar a mesma experiência e interpretá-la de maneiras completamente distintas.”

Ela compara o corpo a um palácio: “Com várias salas, algumas iluminadas, outras trancadas, outras repletas de memórias. Só conseguimos acessar esse lugar quando realmente passamos a habitar dentro de nós mesmos.”

O método da Integração Sistêmica, que alicerça o livro, não surgiu apenas da teoria. “Ele é a expressão da minha trajetória pessoal”, revela Ana. “Tudo o que incorporo no meu atendimento hoje veio da minha própria experiência. A cada paciente, evento ou experimento, fui testando e validando essa integração de abordagens.”

As 12 leis para reconquistar a própria vida

Cada uma das 12 leis apresentadas no livro é um convite para destravar medos, liberar culpas e eliminar os excessos que obstruem o equilíbrio emocional. A escrita de Ana une sensibilidade e técnica para guiar o leitor em um processo de reconciliação consigo mesmo.

“O livro é um retorno para casa. Um lembrete de que a liberdade emocional começa quando deixamos de tentar nos encaixar em moldes que não foram criados por nós.”

Em “O direito de ser eu”, Ana compartilha aprendizados de mais de uma década de prática clínica e formação em psicanálise, neurociência e terapia sistêmica. A leitura oferece caminhos para compreender as leis familiares invisíveis que moldam comportamentos, reconhecer padrões herdados e transformar dor em consciência. “Mulheres são feitas de multidões, mas precisam ter cuidado para não se perderem dentro delas”, escreve.

O direito de ser eu, em essência, pode ser isso: o direito de habitar o próprio corpo. De sentir o que se sente, sem a necessidade de justificar tudo. De concluir movimentos que ficaram suspensos no tempo. De interromper a repetição de histórias que não lhe pertenciam.

Como Ana Lisboa aponta, a cura não está em esquecer o passado. Está em integrá-lo – no corpo, na memória, na vida – e, por fim, seguir adiante. Com leveza e com a verdade de quem se reconhece.

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