Ah, o amor! Aquele sentimento sublime que nos faz escrever nomes em troncos de árvores, tatuar iniciais na pele e… sentir a dor no coração quando estamos longe.
Não há como começar esta crítica sem antes celebrar o óbvio, mas necessário: que orgulho ver o Teatro Carlos Gomes lotado, com as galerias ocupadas e o burburinho da plateia ansiosa preenchendo cada fresta daquele templo histórico. É difícil isso ocorrer com um grupo capixaba, mas conseguiram… Agora é ver se esse exemplo atinge também os grupos da grande Vitória para conseguir lotar também a casa.
Pois bem, Domingo, fui assistir ao espetáculo “Capitu e Bentinho”, do Grupo Teatral Caparaó. O espetáculo, estrelado pela paulista Bruna Frari e pelo diretor capixaba Danyel Sueth, é uma releitura do colosso Dom Casmurro, mas, como dito por eles no início: “Isso não é sobre Dom Casmurro, é sobre o relacionamento entre Bentinho e Capitu”.
Se você parar para pesquisar sobre “Capitu e Bentinho” na internet, você encontra vários títulos sobre a pergunta: “Capitu traiu Bentinho?“. Eu fico intrigado com isso, por que raios essa foi a grande pergunta do povo? A minha questão é: Faz diferença saber se Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Um espetáculo que para mim foi vendido para os casais, o Teatro estava cheio deles, para quem conhece a história de “Dom Casmurro”, foi para relembrar outros tempos, para quem não conhecia, quis ir para ver uma história de romance, portanto os inúmeros casais que estavam presentes, tomaram “um soco no estômago”, pois, as menções a violência contra a mulher e feminicídio foram óbvias e escancaradas, e ao meu ver, jogou na cara de vários casais heteronormativos presentes que são sabiam onde enfiar a cara, e as sempre que viam algo assim, se viravam para dar um “beijinho” em suas companheiras, o que era, ou meu ver, cômico e irônico, pois se identificaram com o personagem de Bentinho, mas, não podia revelar que era o caso, mas o corpo falava…
Então, no geral, acredito que espetáculo funciona como uma pequena armadilha de simpatia. A montagem começa como um doce sonho romântico. O público é seduzido pela inteligência do estilo, pelas coreografias bem executadas, as intenções românticas, pelo burlesco e belos figurinos. Mas esse jogo de charme tem função estratégica: É uma armadilha de simpatia. Você entra rindo do burlesco e das confidências íntimas, da comédia envolvente, mas, de repente, o palco vira um espelho desconfortável, que vemos quando chegam às cenas decisivas, como supostos olhares entre Capitu e Escobar, e ainda ataques violentos de Bento, já não sobra mais espaço para duvidar. O público, ainda que relutante é conduzido até ali por uma narrativa que tornou o ciúme, o controle, a toxicidade, e a obsessão escancaradas esconde um problema ainda maior que a suposta traição de Capitu. Bento, de tanto mergulhar (não igual a Escobar) de insegurança que parece perder o fio condutor de sua própria história. Então, me volta a questão não ser o suposto adultério o problema, mas a narrativa.
Bentinho era tóxico e devagar dava esses sinais. Quando ele foi intenso, foi quando ele ficou por meses exposto a uma religião regrada e degradante que te conduz a dizer coisas (nesse caso a religião intensificou o que já estava ali). Capitu, Escobar, José Dias, Dona Glória, todos os personagens existem apenas dentro da versão apresentada por Bento, e essa versão, desde o começo da peça, é construída com um propósito claro: se justificar. E se há algo de religioso nisso, não é o perdão, e sim o julgamento. Bento mostrava-se como um homem simples, covarde, mas “um santo”, após passar alguns meses no seminário, já se torna um homem agressivo e abusador. Culpa da Religião? Bem, o nome Bento tem a ver com o São Bento que é amplamente venerado no catolicismo como protetor contra o mal, influências negativas, feitiçarias, inveja e perigos físicos: Um expulsador de Demônios. A contraponto disso, Capitu, uma mulher forte, ousada dona de si, tem ideias avançadas então é tratada como demônio, que era alegre e se “atracaria em qualquer homem que passasse por perto” (mas, que tipo de descrição é essa?) perante a sociedade em questão.

A montagem traz uma releitura contemporânea sobre relações, pertencimentos, política, feminicídio e questões de gênero. No livro, pelos olhos de Bentinho, Capitu é vista como uma mulher dissimulada, enganadora, infiel e manipuladora, ou seja, “Capitu era Capitu, isto é, uma criatura mui particular, mais mulher do que eu era homem” (ASSIS, 2012, p. 68). Os conflitos interiores que estiveram presentes na sociedade capitalista do século XIX, agora, estão mais sólidos, pertinentes e presentes na sociedade moderna. No livro e no espetáculo, vemos a criação de um namoro infantil a um desfecho apodrecido, com incertezas, envenenado, ciúmes doentios, dentro de um casamento dissoluto representando reflexos de problemas que podem ser vistos na sociedade atual.
Fazendo uma breve análise sobre o teatro moderno e a obra em questão, há algo de trágico e, ao mesmo tempo, irônico nessa relação. O teatro contemporâneo encena, em certos momentos, um drama fora do palco e nem sempre percebe que se tornou protagonista de uma narrativa tragicômica, digna do próprio Bentinho, que não joga na cara seu lado tóxico: ele constrói. E aqui começa a analogia. Boa parte do teatro moderno não enfrenta uma conspiração real contra si, mas uma sensação difusa de perda de centralidade. Antes, era o altar da experiência coletiva. Hoje, divide atenção com telas, algoritmos e timelines que não pedem silêncio antes de começar. E daí nasce o ciúme que não é romântico, mas institucional. O teatro passa a encarar o digital como Bentinho encarava Capitu: com desconfiança crescente e provas frágeis. O streaming vira “olhos de ressaca”. O celular na mão do público vira indício. E a conclusão já chega pronta: fomos traídos. Só que… e se não houve traição?
Vivemos, numa cultura da convergência, parece que as linguagens não competem, mas se misturam. O problema não é o digital ocupar espaço é a cultura, às vezes, recusar novas gramáticas. O público não deixou de amar histórias. Apenas passou a consumi-las em múltiplos formatos. O mesmo espectador que maratona uma série ainda se arrepia diante de uma cena ao vivo, só temos que saber como usar. O teatro sempre se entendeu como mediador cultural, um lugar quase sagrado de tradução da vida. Quando surgem influenciadores, criadores independentes e plataformas digitais, esse papel parece diluir-se. O teatro que se fecha vira Bentinho no final do espetáculo, sozinho. O que se abre, vira Capitu (e sua intérprete): múltiplo, enigmático, empoderado, impossível de reduzir a uma única interpretação. A tela luminosa não é rival, é cenário.
Aí nesse espetáculo, o recurso da projeção (com tela luminosa) foi utilizado de formas positivas e negativas. No lado positivo: as limitações físicas do teatro dificultariam que o público percebesse os olhares de Capitu, aqueles “olhos de cigana oblíqua e dissimulada“. Com a projeção, tornou-se mais fácil imaginar e sentir o peso desse detalhe, tão central na obra. No lado negativo: a volta do recurso, especialmente durante o texto sobre feminicídio, provocou uma ruptura muito grande, talvez intencional, mas não suficientemente bem construída em termos cênicos. O texto em si é importante e potente para a produção. No entanto, inserir projeções com manchetes e reportagens reais me tirou completamente da experiência, pois o recurso foi utilizado de forma excessiva. Uma alternativa mais eficaz poderia ser a atriz avançar a frente da cena e, como narradora, ler ou recitar as matérias de jornal. Se houvesse intenção de mostrar imagens, poderiam ser exibidas em jornais impressos (fisicamente em papel), criando uma cena mais orgânica e teatral. É o mesmo princípio que funcionou muito bem em outro momento do espetáculo: quando o ator segurou a Constituição e discorreu (de forma excelente, a meu ver) sobre o crime de golpe de estado. Ali, o objeto físico e concreto potencializou a fala; aqui, a projeção a dispersou.
Mas, encerrando esta reflexão, ficam no ar duas perguntas: “o teatro foi traído?” ou será que “o teatro está disposto a amar um mundo que já não gira só ao redor dele?”.
Acredito que o maior erro seria transformar o público em “amante traidor”. O público não deve fidelidade, ele só busca a experiência. Se o teatro entrega presença, risco e respiração compartilhada, não há algoritmo que substitua isso. Mas se continuarmos enxergando inimigos onde há possibilidades, vai acabar como Bentinho: cheio de certezas e vazio de encontros. E aí, meu caro, aplauso nenhum resolve. Nesse espetáculo, no entanto, uma aula! Foram duas sessões com casa cheia e ingressos esgotados. Sinal de que o encontro ainda acontece (quando o teatro se permite ser Capitu).
Tecnicamente, a peça está dentro do Teatro Épico de Bertolt Brecht (alguns elementos me fizeram definir isso) mas, em alguns momentos fazem o exagero que na minha opinião é presente para nos confundir. Talvez as cenas da escada não eram necessárias, mas, talvez fizeram parte de uma construção grandiosa para dizer que o relacionamento estava sendo construído, degrau por degrau. As trocas de roupa à vista do público e a exposição das engrenagens (e tapumes) cênicas servem para nos lembrar: isso é uma construção. Assim como a personalidade de Bento é uma construção.
A maioria dos figurinos eram muito bem representados e bonitos de se ver (um primoooor), combinando com seus personagens e inserindo caracterizações visuais a eles. A exceção da regra é o figurino de Bentinho, aquela transparência inicial não o favoreceu. Se a intenção era mostrar que ele ia “revelando” sua natureza aos poucos, deixá-lo “às claras” logo de cara matou o mistério. Bento deveria ser um enigma envolto em linho, não um livro aberto de tule revelando seu corpo.
Uma das características do teatro épico sobre mostrar a realidade e os bastidores é a banda musical estar em cena, no palco, aqui como seres fantasmagóricos, que ora fazem presença, ora eram um mistério. Um bom ponto por sinal é a parte musical, a banda aparece e atua dentro do espetáculo, muitas das vezes o som acompanha as ações dos personagens (como na máquina de escrever) e nas Transições musicais, coisa que eu exploraria ainda mais, visto que algumas transições de cenas ficaram silenciosas, e com certeza caberia uma música ou um solo como teve no início da apresentação. Os Momentos dramáticos combinados com música dão a sensação de “pensamento” e não de fala comum, como aquilo que o coração fala. O pensamento que não pode ser dito, e a música combina muito bem com isso.

Os Personagens secundários vem caricatos, talvez para dar um foco no casal principal. Machado de Assis, mestre do realismo, usava o cômico não apenas para divertir, mas para criticar profundamente a sociedade carioca do Segundo Reinado. Ai no espetáculo, esses personagens secundários (mas, que são importantes, separam a história) servem como alívio cômico, mas também como contraponto à visão torturada de Bentinho. José Dias, o agregado da família é o mais “Caricato” e cunha por um ar militarizado e sem jeito, que quer por vontade se meter em tramas e causar confusão de uma forma singela. Dona Glória, a mãe de Bento, uma beata rigorosa, fiel a seus princípios e promessas.
No geral, os dois atores seguram muito bem todos os personagens. A atuação de Bruna Frari é um evento à parte: Uma presença de cena maravilhosa, e suas ações, mesmo mínimas, se tornam gigantescas, ela impunha uma grande imposição cênica, principalmente nas Persona de Capitu e da Morte que o palco parece pequeno para ela. Já a escolha de dividir o personagem Escobar entre os dois protagonistas foi um risco (eu entendo a dificuldade de ter características comuns para os dois dividirem a mesma persona). Mas, senti falta de um terceiro elemento no elenco para dar o respiro necessário e evitar que o peso da performance sobrecarregasse a dupla, que já estava em alta voltagem. Ainda com as atuações, e falando da morte (a personagem), mesmo que a personagem seja boa executada, senti que a cena da Morte ficou perdida no roteiro, na minha opinião não era necessário a inclusão de uma personagem listada como Morte, se a personagem associada, não iria morrer, fiquei me perguntando muito o porquê daquela cena, e não cheguei a nenhuma conclusão, só simplesmente poderia ser retirada.
Meu objetivo aqui não é dar spoiler sobre a peça, mas, dizer minha opinião em momentos pontuais e da produção. Então, não falarei muito sobre a história da montagem. Mas fiquei intrigado com uma frase dita por Bentinho: “Por que a gente não pode ser quem a gente é?” Essa ideia reflete as muitas limitações impostas pela realidade, medos e pressões sociais. As pessoas criam “personas” para se adequarem a grupos, buscando aceitação e evitando julgamentos, o que impede a autenticidade. Às vezes a impossibilidade de ser quem somos vem de nosso país que projetam aquilo que eles querem em nós, aí surgem medos, ansiedades, e inseguranças que resultam em falta de autonomia, baixa autoestima, dependência emocional e alta autocobrança. Inicialmente (tentando fingir desconhecer da história em que se baseia a produção) me compadeci do frágil Bentinho, mas, aos poucos, vemos revelada a sua real questão. E isso foi revelado de diferentes formas, desde a música (sempre eram músicas agressivas, nas atuações e formas que o personagem “pegava” em Capitu (desde o primeiro beijo, ele não tocou nela com timidez, mas, com ousadia e fervor) até num recurso das palavras escritas nos biombos.

Então para concluir, meu último assunto é a existência de uma cultura que pode parecer clichê, mas, é considerada na cultura popular, de escrever o seu nome e de seu amor seguidos por um coração. Muito é se tratado por romance, muitas das vezes é feito em muros ou em árvores para deixar registrado. isso é uma característica de que um amor vai durar, assim como numa árvore, quando você voltar anos depois provavelmente ele vai estar lá. Gravar o próprio nome com imagens de coração, flechas, flores, ninfas e Cupido em tronco de árvore já foi tão comum quanto igualmente é hoje à tatuagem, a gravação na casca da árvore tem o poder de expor o tanto de “pertencimento” que existe na relação a dois. Há relatos de pessoas que voltam ao local onde deixaram os escritos apaixonados, reencontrando a inscrição no mesmo lugar. Corte tão sem vida quanto o amor gravado no tronco. Pois bem, o espetáculo se abre com esse recurso, onde Capitu escreve o seu nome como o amor de Bento (no biombo cênico). Mas, no decorrer, esse simbolismo vai mudando, pois, no mesmo lugar, outras palavras vão sendo escritas, tornando uma marca estranha de acontecimentos que vão rodeando o casal, e, que no final é exposto para todos nós. “Pecado”, “Casamento”, “medo”, “Filhos”, são algumas palavras que aparecem nessa escrita, e que para a cena que foram escritas, até fazem sentido, mas, se olharmos a fundo, elas são um “presságio” de elementos que fazem a diferença para a trama. Para a família de Bento, tudo era pecado, e para Bento, tudo o que Capitu fazia era errado. O casamento era um sonho de Capitu, mas, ele foi um simples sonho que virou pesadelo. O medo, que inicialmente foi retrato que era de Bento, mas, se tornou o medo que Capitu sentia dentro de casa por causa dos ciúmes de Bento.
A peça termina e a pergunta que fica não é sobre a traição de Capitu, mas sobre a traição que temos com nós mesmos. Se você sair do teatro sem questionar um pouco da sua própria “auto identidade”, você assistiu errado. Afinal, não é quem traiu quem, mas sobre o quanto as pessoas podem se perder tentando provar o contrário que o óbvio já diz.
O espetáculo “Capitu e Bentinho“, do Grupo Teatral Caparaó, entregou um trabalho necessário, pedagógico e artisticamente inquietante. Lotou o Teatro Carlos Gomes com uma releitura contemporânea de Dom Casmurro que vai muito além da questão da traição: usando elementos do teatro épico brechtiano, a montagem constrói uma armadilha de simpatia, seduzindo o público com romance e burlesco antes de revelar o ciúme doentio, o controle e a toxicidade de Bentinho como reflexo de problemas ainda presentes na sociedade atual, enquanto questiona, ao mesmo tempo, o próprio teatro moderno e sua relação com o mundo digital, entregando um trabalho artisticamente inquietante que incomoda justamente por ser real, mesmo sendo ficção.






