Vida profissional sob efeito do algoritmo

Após uma jornada exaustiva, você acessa o feed quase no piloto automático. Em meio às publicações, surge um conteúdo que parece espelhar exatamente seu estado de espírito. Você reage, salva e assiste até o final.

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Quase de imediato, o sistema recomenda outras postagens semelhantes. Histórias de cansaço, duras críticas ao ambiente corporativo, promessas de dinheiro fácil na internet, pregações sobre transformação de vida e receitas de êxito. Gradualmente, um mero desconforto passageiro pode adquirir uma nova dimensão: talvez o contratempo não fosse apenas um dia ruim.

Segundo uma pesquisa divulgada pela Universidade de Liubliana, uma das mais tradicionais e de maior porte da Eslovênia, as plataformas sociais empregam os chamados sistemas afetivos de recomendação. A proposta parte de uma alteração significativa: além do que um usuário costuma consumir, o algoritmo passa a levar em conta o estado de espírito da pessoa naquele exato instante.

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A psicóloga Geovana Durat esclarece que, diante do contato constante com materiais que intensificam um sentimento de descontentamento, é natural que essas emoções, com o tempo, se tornem mais intensas. “Você passa a interpretar a vida por meio dessa perspectiva. Só que essa perspectiva não é a sua.”

No cotidiano, isso se manifesta essencialmente em duas situações, observa a profissional. A primeira ocorre ao acessar as redes e se deparar com uma vitrine de trajetórias supostamente impecáveis, felizes e plenas no âmbito profissional. A comparação surge quase instantaneamente, junto com a impressão de que a situação do outro é sempre mais favorável.

“No entanto, mesmo quando parece interessante, inovador ou distinto, o trabalho continua sendo trabalho”, aponta Geovana. Isso implica que também existem rotina, exigências, imprevistos, dias produtivos e dias complicados. A idealização geralmente oculta exatamente o lado mais comum da vida profissional: obstáculos a vencer, metas a alcançar e interações que nem sempre são harmoniosas.

Já a segunda situação ocorre precisamente quando o feed começa a exibir, com regularidade, depoimentos de indivíduos frustrados, descrevendo a jornada como árdua, desgastante ou quase insustentável. Com o tempo, essa recorrência também pode distorcer a percepção que alguém tem da própria realidade.

“O algoritmo raramente ensina como consertar a relação com o ofício. Ele foca em mostrar o quanto é necessário abandonar tudo, porque a reconstrução não gera engajamento.”

Promessas de solução rápida

Em média, a ocupação profissional consome de oito a dez horas diárias, ao longo de cinco ou seis dias por semana. “É a maior parcela do nosso tempo acordado”, destaca. Por estar tão integrada à rotina, ela também influencia a maneira como cada indivíduo constrói sua identidade e se enxerga no mundo. Em diversas situações, parte da contentamento pessoal, da sensação de conquista e do orgulho pessoal deriva da vida profissional, ainda que ela não seja a única origem desses sentimentos.

Por ocupar uma posição tão central na formação da subjetividade, a insatisfação com o emprego pode tornar alguém mais suscetível ao que é sugerido pelo mecanismo de recomendação, especialmente quando aparecem promessas de resolução imediata. É nesse cenário que discursos sobre trabalhar pouco e obter altos ganhos, fazer a internet “servir a você” ou encontrar uma receita fácil para mudar a situação se fortalecem, analisa a especialista.

A mesma lógica também pode esclarecer a popularidade dos “tigrinhos”, como são chamadas as plataformas de jogos de aposta. A oferta é simples e tentadora: com sorte, é possível ganhar dinheiro de maneira ágil. “Todo trabalho demanda esforço, dedicação e tempo. Não é algo simples.”

Nesse quadro, forma-se uma equação desconfortável. Quanto mais desejamos resultados rápidos, maior é nossa frustração com a demora. Uma pessoa à procura de uma colocação, por exemplo, pode não obter retornos imediatos ou não conseguir agendar entrevistas no prazo desejado.

Diante disso, Geovana nota que é frequente a frustração aumentar e dar espaço a autoavaliações severas, como a sensação de fracasso, a ideia de que nenhuma chance surgirá ou de que o problema é com ela.

“É claro que buscar trabalho e não encontrar é uma vivência muito complicada. Mas percebo que, se as coisas não acontecem rápido, parece que não aconteceram de forma alguma.”

A promessa da alta performance

Também costumam aparecer na tela publicações que ligam sucesso profissional a uma rotina quase impecável: despertar às 4h da manhã, repetir afirmações positivas, manter uma dieta rigorosa e produzir mais. “O problema desses conteúdos é que eles colocam a pessoa em um estado mental onde parece que tudo depende exclusivamente dela.”

A vida profissional também é influenciada por um cotidiano que não depende unicamente da motivação. Mesmo que alguém acorde bem e disposto, pode chegar ao emprego e se deparar com uma demanda inesperada, uma cobrança urgente, uma queixa ou um desentendimento com colegas. “Estamos expostos a inúmeras situações que não controlamos”, afirma.

Isso não significa que pensamento positivo e esperança não tenham espaço na rotina. Pelo contrário, acreditar que as coisas podem dar certo também pode ser uma maneira de autocuidado. “Acho que ter esperança na vida e nas situações é algo que protege nossa saúde mental.”

Um caminho possível

Ainda que não exista um trabalho ideal, é fundamental que cada pessoa consiga identificar algum grau de satisfação na vida profissional, dentro daquilo que isso representa para ela, sem a interferência das redes sociais. Na prática, essa reflexão pode se manifestar de diversas maneiras.

Seja por receber uma remuneração justa pelas funções desempenhadas, sentir-se reconhecido no local de trabalho, dispor de condições adequadas para realizar as atividades e perceber que aquela ocupação está alinhada com seus valores pessoais, ou ao menos não os contradiz, esclarece. No entanto, quando esse cenário não se concretiza, Geovana indica algumas perguntas que auxiliam a compreender o desconforto e traçar estratégias para novas direções:

  • Quanto eu gostaria de ganhar? Não pensando em algo distante da realidade, como R$ 100 mil mensais, mas em um valor viável: com qual salário eu me sentiria mais realizado?
  • Que tipo de rotina de trabalho me faria mais feliz? Seria iniciar mais tarde? Ter mais flexibilidade? Trabalhar de casa alguns dias? Fazer menos reuniões? Dessa forma, é possível entender quais alterações no dia a dia contribuiriam para seu bem-estar;
  • Quais aspectos profissionais, se mudassem, me deixariam mais satisfeito? Pode ser salário, reconhecimento, autonomia, ou até mesmo a falta de propósito. Ao nomear esses pontos, a insatisfação deixa de ser apenas um “não aguento mais” e começa a ganhar contornos mais definidos;
  • O que, se fosse diferente no meu trabalho, me faria realizar minhas tarefas com mais prazer? Seja receber instruções mais claras, ter prazos mais viáveis, sentir que suas ideias são ouvidas, fazer atividades mais alinhadas aos seus interesses ou ter mais tempo para executar as demandas com cuidado. As respostas podem ajudar a perceber quais ajustes poderiam devolver algum ânimo à rotina profissional.

Às vezes, o problema parece demasiado grande e complexo de resolver, como se uma situação profissional mais gratificante dependesse de muito dinheiro, inúmeras especializações ou anos de vivência, observa a psicóloga. No entanto, ao realizar esse exercício, é possível notar que o desejo costuma ser mais simples. Um trabalho digno, uma relação onde a pessoa se sinta valorizada e uma ocupação que permita viver com mais serenidade.

“Ao refletir sobre objetivos concretos, como ter mais tempo livre ou atuar em home office, fica mais fácil se organizar, dentro das próprias possibilidades, para se aproximar desse lugar.”

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