Relação com dinheiro pode causar doenças

Por muito tempo, a discussão sobre dinheiro foi encarada como uma questão de disciplina ou habilidade técnica. O diálogo dificilmente migrava do campo moral para o âmbito clínico.

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No entanto, uma nova geração de estudos começa a evidenciar algo que médicos e psicólogos já intuíam: a relação com o dinheiro é igualmente uma questão de saúde. Não apenas de saúde econômica, mas de saúde integral.

Quando um indivíduo vive sob pressão financeira constante, os efeitos não se limitam ao extrato bancário. Eles se manifestam no corpo, no sono, na mente, nos relacionamentos e na capacidade de tomar decisões, afetando, de forma paradoxal, as próprias escolhas financeiras.

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Estresse financeiro e saúde mental no Brasil

De acordo com a sétima edição do Raio-X do Investidor Brasileiro, mais de 52% dos cidadãos relatam alto nível de estresse financeiro. Nas classes D e E, esse percentual alcança 62%.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta o Brasil como o país mais ansioso do mundo e o que concentra o maior número de casos de depressão na América Latina.

A convergência entre esses dados não é acidental. Uma pesquisa da Serasa revelou que cinco em cada dez brasileiros que enfrentaram problemas de saúde mental também vivenciaram dificuldades econômicas.

A relação é bidirecional: o desequilíbrio financeiro gera sofrimento psicológico, o que prejudica ainda mais a capacidade de organizar as finanças, criando um ciclo complexo de romper.

Quando o organismo identifica uma ameaça, o cérebro libera cortisol, o hormônio do estresse.

Em situações isoladas, essa reação é adaptativa. A complicação surge quando ela se torna crônica — e isso pode estar ligado às finanças. Pesquisas associam o estresse financeiro prolongado a insônia, ansiedade, depressão e maior risco cardiovascular.

O Money and Mental Health Policy Institute demonstrou que, entre pessoas com saúde emocional fragilizada, 93% gastam mais do que o habitual e 92% encontram maior dificuldade para tomar decisões financeiras. Uma mente debilitada faz escolhas prejudiciais, que, por sua vez, agravam o estado mental.

O papel das empresas e o ambiente de trabalho

O dinheiro, evidentemente, está relacionado ao trabalho. Desde o ano passado, a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) passou a exigir que as empresas identifiquem e gerenciem os riscos psicossociais em seu ambiente.

Essa análise deve incluir fatores como pressão excessiva, sobrecarga, conflitos organizacionais e assédio.

Trata-se de um avanço concreto. As organizações têm a obrigação legal de mapear problemas e comprovar ações preventivas, sob risco de autuação e responsabilização civil.

Contudo, há uma dimensão que a norma, por sua própria natureza, ainda não abrange: aquilo que o trabalhador carrega consigo ao adentrar a empresa. O endividamento. A conta atrasada. A prestação que vence no dia seguinte. A dívida que já não cabe no salário.

Essa dimensão pertence à esfera privada, portanto, está fora do escopo formal da NR-1.

É justamente por isso que ela age como um cavalo de Troia dentro das organizações: entra despercebida, não consta nos formulários de risco, mas seus efeitos se fazem presentes diariamente, em cada reunião, em cada linha de produção, em cada atendimento ao cliente.

Nesse cenário, uma pesquisa da PwC aponta que trabalhadores com estresse financeiro elevado perdem até três horas diárias de produtividade efetiva.

A esse fenômeno dá-se o nome de presenteísmo, quando o corpo está presente, mas a mente está em outro lugar. Acrescente-se a isso um maior absenteísmo, alta rotatividade e risco de esgotamento mental.

Em um momento em que as empresas destinam recursos crescentes a programas de saúde mental, negligenciar o componente financeiro significa deixar uma das principais fontes do problema fora da equação.

É um fato: a maioria das organizações ainda não percebeu que o adoecimento financeiro dos colaboradores é, também, um problema delas.

Educação financeira como solução corporativa

Algumas empresas, porém, identificaram essa lacuna e estão tomando providências. Em 2021, foi fundada uma consultoria, a Papai Financeiro, para atuar precisamente nesse vazio.

É necessário desenvolver programas estruturados de educação financeira corporativa, com foco na promoção da saúde financeira dentro do ambiente de trabalho.

A proposta integra treinamentos comportamentais, diagnósticos individuais e ferramentas de acompanhamento adaptadas à realidade de cada trabalhador, sem invadir a esfera privada, mas oferecendo conhecimento e autonomia para que cada um construa uma relação mais consciente com o dinheiro.

Nos últimos anos, foram realizados trabalhos nas cinco regiões do país, em setores tão diversos quanto fábricas e hospitais. A educação financeira também foi levada aos canteiros de obras de grandes empreendimentos em São Paulo, protegendo uma das populações mais vulneráveis ao endividamento no Brasil.

Como resultado, os participantes relatam maior clareza nas decisões que afetam o bolso, redução da ansiedade e aumento da sensação de controle sobre o próprio orçamento.

Gestores de Recursos Humanos também observam melhora no clima organizacional, queda nos índices de absenteísmo e maior engajamento nas equipes.

O dinheiro, quando deixa de ser um tabu e passa a ser tratado com objetividade e sem julgamento, perde seu poder de adoecer.

Por essa razão, as empresas precisam reconhecer a responsabilidade sobre a saúde financeira. E a NR-1 abre uma janela para essa oportunidade.

Se desejamos discutir saúde de maneira verdadeiramente integral, não podemos excluir esse pilar. Assim como a alimentação, a atividade física e o bem-estar mental ingressaram na pauta, inclusive corporativa, a educação financeira deve ocupar seu lugar como um componente dessa jornada.

Pessoas financeiramente mais equilibradas são pessoas mais saudáveis, mais presentes e mais completas. Empresas e setores que investem nisso estarão construindo uma cultura na qual o ser humano é genuinamente tratado como o ativo mais valioso que existe.

O dinheiro pode não comprar felicidade. Mas a desordem financeira cobra um alto preço da saúde. Já é hora de incluir essa conta no debate.

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