Por que duvidamos do que sentimos

“Isso é coisa da minha cabeça?” Essa pergunta provavelmente já surgiu em seu pensamento em alguma situação do dia a dia, especialmente nas relações com outras pessoas. A resposta correta? Pode ser que sim, pode ser que não. Cada situação é única. Entretanto, existe um fenômeno que, por vezes, vai além de uma simples hesitação: com o passar do tempo, aprendemos a desconfiar do que sentimos.

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Em certas ocasiões, passamos a acreditar que nossa própria experiência interna não é confiável. Que aquilo que sentimos é suspeito. E que, antes de experimentar uma emoção, é preciso julgar se ela é permitida, justificável ou legítima. Para compreender melhor esse processo, vale a pena revisitar o passado.

Aos cinco anos de idade, o choro é recebido com um “para com isso, não é nada”. Aos doze, a tristeza é interpretada como “frescura”. Aos vinte, a angústia encontra como resposta um “você não tem motivos para estar assim”. A invalidação de sentimentos e emoções ao longo da vida traz consequências significativas.

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A ferida invisível da invalidação

Crescer em um ambiente onde as emoções são minimizadas, ignoradas ou ridicularizadas deixa marcas que não são visíveis a olho nu. Mas elas existem e têm peso. De acordo com a psicóloga Andréia Batista, isso prejudica a maneira como a pessoa aprende a se relacionar consigo mesma.

“Ao longo do tempo, ela pode desenvolver dificuldade para identificar o que sente, insegurança nas próprias decisões, baixa autoestima e uma tendência a buscar validação constante no outro.”

A psicóloga alerta ainda para o aumento da vulnerabilidade a quadros de ansiedade e depressão. “Nessas situações, não há um repertório interno estruturado para lidar com experiências emocionais mais intensas”, destaca.

Além disso, há um impacto direto na construção da identidade. “Quando sentimentos não são reconhecidos, a pessoa perde uma referência interna importante e passa a se orientar mais pelo externo – pelo desempenho, pela aprovação ou pela expectativa do outro. Isso fragiliza a autonomia emocional.”

Andréia observa esse fenômeno com frequência na clínica, especialmente em contextos de alta exigência emocional.

“Sentir é muitas vezes interpretado como fragilidade. O resultado é uma quebra silenciosa de confiança interna.”

O que significa, afinal, validar um sentimento?

Há um mal-entendido comum em torno da palavra “validação”. Muitos acreditam que validar uma emoção é concordar com ela – ou pior, com os comportamentos que a acompanham. Definitivamente, não é isso.

Andréia explica que validar um sentimento é reconhecer que ele existe e que faz sentido dentro da história daquela pessoa.

“Isso tem base científica: estudos sobre regulação emocional mostram que nomear e reconhecer emoções reduz a ativação do sistema límbico, facilitando o processamento emocional.”

No entanto, ela faz questão de frisar uma distinção importante. “Validar não é concordar com o comportamento. Uma pessoa pode sentir raiva, e isso é válido. Mas agir de forma agressiva não necessariamente é. Emoção é informação, comportamento é escolha.”

Quando entendemos essa diferença, deixamos de lutar contra o que sentimos e passamos a usar a emoção como um sinal – algo que precisa ser compreendido, não negado, e nem automaticamente seguido.

A ansiedade e a armadilha da autovigilância

A dúvida constante sobre os próprios sentimentos não é inofensiva. Ela se alimenta de si mesma e, com o tempo, pode se transformar em sofrimento psíquico consistente.

A psicóloga aponta a relação direta com quadros de ansiedade: “A dúvida constante sobre o que se sente gera um estado de hipervigilância interna, que é um dos mecanismos centrais da ansiedade. A pessoa começa a monitorar excessivamente pensamentos e emoções, tentando ‘ver se são reais’.”

Ao mesmo tempo, a autoestima fica fragilizada. “Quando não se confia na própria experiência emocional, a autoestima – que depende de validação interna – fica fragilizada”, ressalta. Na prática clínica, ela escuta com frequência frases como “eu sinto, mas não sei se posso confiar no que sinto”.

“Esse é um dos núcleos da baixa autoestima: a desconexão entre experiência interna e validação pessoal.”

Três movimentos para reconstruir a confiança

Se a invalidação foi aprendida, a validação também pode ser – ainda que leve tempo e, muitas vezes, acompanhamento profissional.

Andréia sugere um caminho em três movimentos, ancorado na prática clínica:

  1. Nomear a emoção: “O que exatamente estou sentindo?”
  2. Contextualizar: “O que aconteceu que pode ter gerado isso?”
  3. Validar: “Dado esse contexto, faz sentido eu me sentir assim?”

“Esse processo ativa áreas do cérebro ligadas à regulação emocional e reduz a reatividade”, aponta.

Ela também faz uma ressalva necessária: nem tudo que sentimos representa fielmente a realidade. Por isso, estratégias como a checagem de evidências (“o que sustenta esse pensamento?”), o distanciamento cognitivo (“estou reagindo ao fato ou à interpretação?”) e a regulação fisiológica ajudam a diferenciar uma percepção legítima de uma distorção.

“No entanto, o fato de uma percepção estar distorcida não invalida a emoção. A emoção continua sendo válida. O que precisa ser ajustado é a interpretação.”

Pequenas pausas, grandes mudanças

No dia a dia, como colocar isso em prática sem cair na armadilha da autocrítica? A especialista sugere um gesto simples: substituir o julgamento pela curiosidade.

“Em vez de ‘eu não deveria estar me sentindo assim’, passar para ‘por que isso está me afetando?’ Essa mudança ativa um processo mais reflexivo e menos punitivo.”

Ela recomenda fazer pequenas pausas ao longo do dia para se perguntar:

  • O que eu estou sentindo agora?
  • O que pode ter gerado isso?
  • O que isso pede de mim?

“Isso não é autoindulgência, é regulação emocional.”

Por fim, a psicóloga convida a ampliar o olhar sobre o cuidado com a saúde mental. Para ela, o acompanhamento psicológico não deve ser visto apenas como um recurso para momentos de crise, mas como parte do cuidado contínuo com a vida.

“Assim como fazemos com o corpo quando praticamos exercício físico ou com a saúde quando realizamos check-ups médicos. Cuidar da mente também é prevenção, é organização interna e é potencialização da forma como pensamos, sentimos e decidimos ao longo da vida.”

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