Ludwig van Beethoven perdeu a audição de forma gradual a partir dos 26 anos, e suas composições mais célebres foram criadas décadas mais tarde, quando já estava quase completamente surdo. Com uma memória musical excepcional, ele apoiava a cabeça ou uma haste no piano para captar as vibrações e perceber o ritmo e a intensidade das notas. Anos depois, é com uma técnica parecida que a cantora e musicista Giovanna Andreo permanece no universo musical, mesmo após um diagnóstico de surdez progressiva.
Antes da descoberta, a mãe da artista acreditava que ela estava sempre desatenta.
“Eu nunca entendia de primeira e pedia para repetir. Na verdade, não era que eu prestava mais atenção na segunda vez, eu estava fazendo leitura labial.”
Foi durante uma viagem aos Estados Unidos, em 2014, que um detalhe mudou tudo. Lá, o chão e as paredes costumam ser cobertos por carpete, o que altera a forma como o som reverbera no ambiente.
“Eu não ouvia quase nada, e foi depois de muita insistência que veio o ultimato: ao voltar ao Brasil, eu deveria procurar um otorrinolaringologista para ‘desentupir’ meu ouvido, lavar, o que fosse necessário.”
A descoberta do diagnóstico
O médico sugeriu, antes de qualquer procedimento, a realização de uma audiometria. Quando os resultados chegaram, o susto foi imediato: “É muito raro ver uma pessoa com esse nível de perda auditiva se virar tão bem e não usar um aparelho”, comentou o especialista. Aos 22 anos, ela apresentava uma alteração significativa nos sons médios e graves.
O temor inicial era de que os anos no palco fossem a causa da perda. Mas após uma série de exames, o médico constatou tratar-se de uma surdez neurossensorial bilateral progressiva.
“Ou seja, por mais que, na teoria, meu sistema auditivo funcione, a conexão com o cérebro vai deixando de funcionar e, assim, ele passa a não reconhecer os sons, que desaparecem aos poucos.”
Quando relembra aquele momento, Giovanna percebe que a maior dor não foi pela perda auditiva em si, mas por não ter nenhum controle sobre a situação.
“Eu tinha meu planejamento completo, perfeito, quase como aquele calendário colado atrás da porta que a gente vai riscando dia após dia, sabe? E aprendi que é muito dolorido quando a vida pega algo seu e tira o controle da sua mão. Porque você percebe que, na verdade, o que realmente controla é uma parcela muito mínima de toda essa existência.”
Com o passar do tempo, ela passou a enxergar a vida em três camadas: uma mais central, onde de fato existe controle. Outra intermediária, em que é possível influenciar, mas não totalmente. E uma mais externa, que já escapa das mãos – sem controle, nem influência. Ainda assim, sofremos por todas elas.
“Pegue a parte em que você pode agir, aquilo que está nas suas mãos, e faça o seu melhor com isso. É tudo o que dá para fazer e já é suficiente. É aquele velho ditado: o que não tem remédio, remediado está.”
Redesenhar o caminho
Apaixonada por música, a cantora afirma que nunca pensou em abandonar a profissão. E, antes mesmo de entender o que acontecia, ela já encontrava, sem perceber, outras formas de se orientar.
“Eu falo que o nosso corpo é uma máquina incrível de adaptação. Anos antes de receber o diagnóstico oficial, percebi que eu terminava os shows com muita dor no corpo. Dor nas costas, no braço, às vezes estava todo mundo pleno tocando, e eu estava suando muito, exausta.”
Isso acontecia porque, segurando o instrumento com firmeza contra o próprio corpo, ela se guiava pela vibração emitida por cada nota.
“Sem saber, eu já estava buscando uma outra fonte de referência. E quando notei, foi uma questão de refinar esse processo.”
Giovanna comprou fones com isolamento de ruído e, sem ouvir nada, dedicou tempo e atenção à guitarra e à própria voz. “Estudava como a voz vibrava de dentro para fora no meu corpo de forma certa ou errada com a vibração que vinha do externo. E quando eu tirava meus fones, sentia que tinha mais do que eu precisava para continuar cantando.”
Com o tempo, ela encontrou uma maneira criativa de subir aos palcos. O retorno – uma caixa posicionada à frente do artista para que ele ouça a própria voz e os instrumentos da banda – passaria a emitir apenas os sons graves e médios e, assim, ela passou a apoiar o pé sobre ele e sentir as vibrações pelo contato físico.
“Os agudos, que têm uma frequência mais alta, eu ainda consigo ouvir. Então, meu corpo junta essas duas coisas e cria uma referência para que eu consiga cantar no momento certo.”
Além disso, a memória muscular construída desde a infância também sustenta esse processo. “Comecei cedo, por volta dos seis, sete anos, minha avó me colocou no piano clássico. Depois vieram o canto lírico e, alguns anos mais tarde, o canto popular”, relata.
Ela conta que atualmente sabe exatamente como se guiar durante as músicas e chegou a se apresentar em festivais como o Rock in Rio com a banda da qual faz parte há oito anos, a Locomotiv.
“Eu estava com medo, porque, na época, pensava: ‘quem sou eu para subir nesse palco?’. Mas, quando a produtora do evento virou para mim e disse ‘coloca na sua cabeça que você está tocando aqui não porque é surda, mas porque é boa nisso’, aquilo me deu uma força muito diferente.”
Giovanna também lançou o livro “Propósito enCanta” (DVS EDITORA), onde reflete sobre a necessidade de controle, atenção plena e aquilo que encontrou ainda muito jovem: um sentido profundo no que faz.
“Acredito que ter uma intenção definida não elimina a dor dos desafios, mas dá sentido e coragem para continuar.”







