A dor e a cura estão no outro

Certas compreensões só emergem quando nos distanciamos. Não é necessário um grande afastamento. Às vezes, romper a rotina, alterar o compasso e observar a própria existência de fora já é suficiente. Em outras ocasiões, a distância precisa ser maior. Bem maior… Foi de um desses pontos distantes que surgiu uma lembrança singela, quase evidente, mas que, ainda assim, nos escapa no cotidiano: o alicerce da vida não reside apenas nas conquistas ou nos planos para o amanhã, mas naquilo que tecemos com os outros ao longo da jornada.

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Nesse contexto, a astronauta Christina Koch, integrante da missão Artemis II, compartilhou uma reflexão que direciona o olhar do espetacular para o fundamental:

“Vamos sempre escolher a Terra, vamos sempre escolher uns aos outros.”

Pronunciada por alguém que contempla o planeta à distância, a declaração adquire uma profundidade singular. A Terra deixa de ser um mero ponto no cosmos e se transforma no símbolo do que sustenta a vida em sua acepção mais profunda: as conexões, os reencontros, a vivência coletiva de existir.

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Esse deslocamento de perspectiva é significativo por ir na direção oposta a uma tendência cada vez mais comum no dia a dia. Numa época que exalta o individualismo, a produtividade e a crença de que precisamos lidar com tudo sozinhos, os laços afetivos podem ser relegados a segundo plano. No entanto, a realidade prática demonstra o contrário: é precisamente na interação com o outro que a existência ganha forma, propósito e continuidade.

O fundamental não é solitário

Sob a ótica da psicologia, essa preponderância das conexões não é uma mera impressão subjetiva. Conforme esclarece a psicóloga Carla Viana Stefoglo, “as relações ocupam um lugar central na experiência humana porque é no contato com o outro que nossa vida emocional se estrutura, se expressa e pode se modificar.

Desde o princípio da vida, dependemos dos vínculos não apenas para a sobrevivência, mas também para aprender a sentir, decifrar o mundo e formar uma noção de nós mesmos”. Em outras palavras, não se trata apenas de convívio: trata-se de algo fundamental.

É igualmente por esse motivo que as relações são marcadas por tamanha intensidade. Elas ativam necessidades básicas, como pertencimento, segurança, reconhecimento e afeto. Quando essas carências são supridas, geralmente nos sentimos mais equilibrados e seguros.

Contudo, quando são frustradas — seja por perdas, desavenças, recusas ou incompreensões —, o efeito costuma ser significativo. “Grande parte do sofrimento psíquico surge justamente no âmbito relacional”, afirma Carla. Isso explica por que certas vivências causam tanta dor: não é apenas o ocorrido, mas o que aquilo simboliza em termos de vínculo.

Ao mesmo tempo, é nesse mesmo contexto que surgem oportunidades de mudança. As relações não são apenas o cenário onde a dor emerge, mas também o local onde ela pode ser processada.

“As relações proporcionam um ambiente onde experiências difíceis podem ser partilhadas, nomeadas e entendidas. Ao sermos ouvidos e acolhidos, conseguimos organizar o que antes parecia confuso ou exagerado, transformando emoções brutas em algo mais compreensível”, explica a psicóloga. Esse processo não elimina o sofrimento, mas altera sua natureza. Ele deixa de ser algo isolado e se torna algo que pode ser incorporado à trajetória pessoal.

Além disso, os laços afetivos permitem revisar padrões emocionais que, frequentemente, se repetem ao longo da existência. “Em relações mais seguras e conscientes, surge a chance de questionar esses padrões e desenvolver novas maneiras de se relacionar, mais saudáveis e adaptativas”, diz Carla. Isso evidencia que as relações não apenas espelham quem somos, mas também criam espaço para a transformação. Elas atuam, simultaneamente, como reflexo e como via de renovação.

Optar pelo outro

Se as conexões possuem um papel tão estruturante, o que a fala de Christina Koch parece sugerir é que elas também representam uma decisão. Não uma escolha grandiosa, tomada uma única vez, mas um movimento contínuo, que se renova no dia a dia. Optar pelo outro pode significar manter-se em um diálogo difícil, sustentar a escuta, lidar com divergências, superar conflitos. Pode significar, igualmente, permitir-se ser observado, reconhecido e amparado.

Sob essa perspectiva, os conflitos deixam de ser indícios de fracasso e passam a integrar o processo. Como aponta Carla, “quando os conflitos são administrados com diálogo, escuta e respeito, eles possibilitam que cada indivíduo se expresse de maneira mais genuína, reconheça suas próprias limitações e compreenda melhor o outro”.

Mais ainda: ao superar esses momentos sem romper, o vínculo se consolida. “Cria-se uma sensação de segurança e firmeza”, explica. Ou seja, não é a falta de tensão que mantém uma relação, mas a capacidade de enfrentá-la.

O psicólogo, escritor, palestrante e colunista da Vida Simples, Alexandre Coimbra Amaral, escreveu a seguinte frase em sua coluna “A dor de ser sensível demais”:

“Acredito em gente como antídoto para o pior da gente. É no encontro que voltamos a respirar, a acreditar no afeto, a corregular as dores de viver nesse tempo estranho.”

A declaração aponta para algo essencial: não é apenas em nosso interior que a vida se estrutura, mas também na interação com o outro.

Optar pela Terra talvez seja isso: decidir continuar investindo nesse espaço imperfeito, permeado por conflitos e desencontros, mas também repleto de possibilidades de cuidado, troca e reconstrução. Porque, por mais distante que possamos ir, é aqui, entre as pessoas, que a vida encontra propósito.

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