Nesta terça-feira (9), o município de Anchieta se transforma na capital simbólica do Espírito Santo para prestar homenagem ao santo que uniu diferentes culturas, defendeu os povos originários e delineou a história e a fé desta terra.
Nesta terça-feira (9), a cidade de Anchieta respira fé, história e orgulho ao comemorar a Solenidade de São José de Anchieta e o marco de 460 anos de sua Ordenação Presbiteral. Conforme determina a tradição cultural e política capixaba, a capital do Espírito Santo é transferida simbolicamente para o município nessa data, reconhecendo a importância colossal daquele que foi chamado de “Apóstolo e copadroeiro do Brasil”. É um dia para exaltar o legado do homem que optou pelo solo capixaba para viver seus últimos dias e deixar uma marca indelével na identidade do nosso povo.
A trajetória de José de Anchieta é digna de um grande épico histórico. Nascido nas Ilhas Canárias, na Espanha, em 1534, mudou-se aos 14 anos para Portugal com o objetivo de estudar Letras e Filosofia. Foi nesse contexto que o jovem “canarinho”, apelido afetuoso recebido por seu hábito de declamar poesias, conheceu a Companhia de Jesus. Fascinado pelo testemunho de missionários como São Francisco Xavier, Anchieta decidiu renunciar a tudo e, aos 17 anos, consagrou-se completamente a Deus e à proteção da Virgem Maria. Apesar de conviver, desde o noviciado, com as dores intensas de uma tuberculose óssea, o jovem jesuíta encontrou na fragilidade de sua saúde a força para sua missão: aos 19 anos, partiu rumo à Terra de Santa Cruz, de onde jamais retornaria.
Ao desembarcar no Brasil em 1553, Anchieta imergiu por completo na realidade dos nativos. Aprendeu o Tupi com uma rapidez notável, redigiu a primeira gramática da língua indígena e empregou o teatro e a poesia como instrumentos de evangelização e carinho. Defensor incansável dos direitos dos povos originários, ele enfrentou abertamente os abusos praticados pelos colonizadores portugueses. Em um dos momentos mais marcantes de sua existência, passou meses como refém em Iperuí (atual Ubatuba/SP) para garantir um tratado de paz. Sob ameaças e em profunda solidão, escreveu na areia da praia os quase seis mil versos do famoso “Poema à Virgem”. Devido a toda essa sensibilidade, o santo é considerado, com justiça, o fundador da literatura e do teatro brasileiros.
Entretanto, foi no Espírito Santo que o “homem de asas”, apelido dado pelos indígenas que se admiravam com a velocidade de suas caminhadas, consolidou suas raízes mais profundas. Em Reritiba (hoje, a cidade de Anchieta), ele construiu a histórica Igreja de Nossa Senhora da Assunção e se dedicou até o último suspiro aos mais necessitados. Já debilitado, faleceu em 9 de junho de 1597, aos 63 anos, após levantar-se da cama para preparar um remédio a um companheiro enfermo. O pranto dos indígenas ecoou por todo o estado: “Morreu o nosso pai!”. Mais de quatro séculos depois de sua morte, e após inúmeros relatos de milagres e curas ocorridos em terras capixabas, ele foi finalmente canonizado pelo Papa Francisco em 2014.
Para os fiéis que desejam vivenciar e agradecer por esse legado de amor ao próximo, o Santuário Nacional de São José de Anchieta preparou uma programação especialíssima para esta terça-feira. O ponto alto das comemorações acontece às 16h, com a Santa Missa Solene, uma celebração campal realizada no adro do Santuário. A celebração eucarística será presidida por Dom Ricardo Hoepers (Secretário-Geral da CNBB) e concelebrada por Dom Ângelo Mezzari (Arcebispo de Vitória). Quem não puder comparecer presencialmente ao adro poderá acompanhar cada momento da transmissão ao vivo pela Tv Guarapari (Canal Aberto 9.1), pelo site RadioAmareservir.com ou sintonizar as transmissões digitais nos canais do YouTube da TV Aribiri, dos Jesuítas Brasil e no canal oficial do próprio Santuário.
Celebrar o Dia de São José de Anchieta é resgatar a essência de um homem que transformou a arte, a educação e a espiritualidade em pontes de união entre mundos tão distintos. Seu exemplo de resiliência diante da enfermidade e de dedicação extrema à justiça social continua apontando caminhos para a construção de uma sociedade capixaba mais humana e solidária. Que a leveza de suas poesias e a força de seus milagres continuem abençoando o povo do Espírito Santo e inspirando cada cidadão a orgulhar-se de viver na terra que carrega o nome do maior apóstolo do Brasil.







