Novos dados projetam El Niño excepcional, extremo e histórico

A atualização mensal mais recente, datada de 1º de maio, do modelo climático do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF) intensificou ainda mais a preocupação entre meteorologistas. O modelo indica um aquecimento considerável no Pacífico e eleva a probabilidade de um evento de El Niño excepcionalmente forte.

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As novas projeções apontam que a anomalia da temperatura superficial do mar na região conhecida como Niño 3.4 (Pacífico Centro-Leste) pode alcançar valores médios próximos de +3,2°C até o fim de 2026. Esse número supera os +2,8°C previstos na rodada de 1º de abril. Em praticamente todos os cenários do conjunto (ensemble) do modelo, as anomalias se situam entre +2,0°C e +4,0°C no segundo semestre, o que configura um evento de intensidade excepcional.

Um aquecimento desse nível colocaria o fenômeno previsto para os próximos meses entre os episódios de Super El Niño mais intensos da história, com potencial para rivalizar ou até mesmo superar eventos históricos. Para efeito de comparação, o evento de 1997-1998, um dos mais fortes já registrados, atingiu cerca de +2,8°C na região Niño 3.4. Já o episódio de 2015-2016 alcançou aproximadamente +2,7°C.

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Caso as projeções atuais se concretizem, o evento projetado pelo ECMWF pode figurar entre os três mais intensos desde o século XIX. Alguns cenários sugerem uma magnitude comparável a eventos extremos desde a década de 1870, ou seja, em 150 anos de dados.

O aumento na intensidade do El Niño projetado pelo modelo europeu está ligado a uma maior transferência de calor para a superfície oceânica nas últimas semanas. Embora o modelo ainda tenha limitações na simulação direta dos sinais subsazonais de vento, esses efeitos acabam sendo incorporados ao oceano ao longo do tempo, amplificando a resposta térmica. Há a expectativa de um novo episódio significativo de ventos de Oeste no Pacífico nos últimos dez dias de maio, o que pode reforçar ainda mais o aquecimento e sustentar a tendência de alta nas projeções.

 

Projeção do modelo de clima europeu | ECMWF

Outro ponto relevante é a consistência do modelo neste ciclo. Em anos em que o ECMWF apresentou erros significativos, como 2017 e 2022, o viés de aquecimento irrealista já era evidente em maio, o que não se observa atualmente. Pelo contrário, as previsões feitas no início da temporada têm se mostrado compatíveis com a evolução observada até agora, aumentando a confiança de que um El Niño muito forte é provável, embora ainda sujeito a ajustes.

Modelo de clima norte-americano também indica um El Niño excepcional

Assim como o europeu, o modelo de clima norte-americano CFS da NOAA (agência de tempo e clima dos Estados Unidos) projeta um El Niño extremo. Pelo sistema antigo de monitoramento, o ONI (Oceanic Niño Index), o aquecimento seria superior a 3°C. Já pelo novo sistema, denominado RONI (Relative Oceanic Niño Index), o aquecimento não é tão extremo, mas ainda assim se enquadra na categoria de Super El Niño (acima de 2°C de aquecimento).

Entre junho e julho, a maior parte dos membros do ensemble do CFS já apresenta valores entre +1,5°C e +2,0°C, caracterizando um evento muito forte. O que mais chama a atenção é a grande intensificação do El Niño no segundo semestre. Entre setembro e novembro, diversos cenários apontam anomalias entre +2,5°C e +3,5°C, com alguns membros chegando perto ou ultrapassando +3,8°C. A média do conjunto (linha mais espessa) também acompanha essa tendência, sugerindo um pico próximo de +3,0°C a +3,3°C na primavera do Hemisfério Sul. Esse nível coloca o evento solidamente na categoria de Super El Niño, comparável aos maiores já registrados.

Fenômeno chegará mais cedo que o habitual

Condições de El Niño podem se estabelecer no Pacífico Equatorial já no final deste outono, antes do período mais comum de formação do fenômeno, que é o segundo semestre, de acordo com a análise da MetSul Meteorologia. Os dados mostram um rápido e intenso aquecimento tanto na superfície quanto abaixo dela, com o desaparecimento das águas frias e a expansão de áreas mais quentes. Esse processo sinaliza que o Pacífico caminha rapidamente para uma fase quente.

O principal indicativo é a enorme Onda Kelvin em profundidade, uma gigantesca massa de água excepcionalmente aquecida que avança de Oeste para Leste em direção à América do Sul ao longo da faixa equatorial. Essa reserva de calor está entre 100 e 250 metros de profundidade, funcionando como uma poderosa fonte de energia térmica que deverá emergir na superfície nas próximas semanas, reforçando fortemente o aquecimento oceânico. Com a subida desse calor para a superfície, deve se formar rapidamente a chamada “língua de águas quentes”, uma marca clássica de episódios de El Niño.

A projeção da MetSul é de que, entre maio e junho, o fenômeno já esteja plenamente estabelecido, com acoplamento entre oceano e atmosfera, permitindo uma rápida intensificação durante o inverno. Isso significa que o El Niño poderá atingir forte intensidade já nos meses de inverno, muito antes do padrão climatológico habitual, quando normalmente se fortalece mais na primavera. O pico tende a ocorrer no último trimestre do ano, entre a primavera e o início do verão, podendo configurar um evento de grande impacto climático global.

Impactos do El Niño no Brasil

À medida que as condições da atmosfera e do oceano começam a se acoplar nas próximas semanas, a circulação geral da atmosfera deve entrar em modo de El Niño. Isso, por sua vez, deve começar a se refletir nas condições do tempo já neste outono e no início do inverno. Os impactos maiores do El Niño, entretanto, devem ocorrer na segunda metade do ano. De acordo com a avaliação da MetSul, o período de maior risco e mais crítico em 2026 para eventos extremos será o trimestre de setembro a novembro.

No Norte do Brasil, o El Niño costuma provocar uma diminuição das chuvas, especialmente no Norte e no Leste da Amazônia. O resultado é um período mais seco e quente, que favorece a propagação de queimadas e agrava os incêndios florestais. No Nordeste, os efeitos são ainda mais críticos: a redução acentuada das precipitações pode levar a episódios de seca, comprometendo o abastecimento de água e causando prejuízos significativos à agricultura.

No Centro-Oeste, os impactos tendem a ser mais moderados, com uma leve tendência de chuvas acima da média em algumas áreas, mas acompanhadas por temperaturas mais elevadas. Episódios de calor intenso se tornam mais frequentes, sobretudo no final do inverno e durante a primavera, enquanto as queimadas aumentam no Pantanal. Já no Sudeste, o principal sinal do fenômeno é o aumento das temperaturas médias, com períodos mais quentes que o normal e extremos de calor, sem um padrão claro e consistente de mudança no regime de chuvas.

No Sul do Brasil, o El Niño costuma ter efeitos mais marcantes, com aumento significativo das chuvas e maior frequência de eventos extremos. São comuns episódios de precipitação volumosa, que elevam o risco de cheias de rios e enchentes, principalmente no inverno e na primavera do primeiro ano do fenômeno e no outono do ano seguinte. Temporais se tornam mais frequentes, assim como a ocorrência de ciclones, alguns deles intensos, enquanto as temperaturas tendem a ficar acima da média, apesar de eventuais incursões de frio.

O que é El Niño

Um evento de El Niño ocorre quando as águas da superfície do Pacífico Equatorial se tornam mais quentes do que a média e os ventos de Leste sopram mais fracos do que o normal na região. A condição oposta é chamada de La Niña, quando a água está mais fria que o normal e os ventos de Leste são mais fortes. Os episódios de El Niño normalmente ocorrem a cada 3 a 5 anos.

El Niño, La Niña e a neutralidade trazem consequências para pessoas e ecossistemas em todo o mundo. As interações entre o oceano e a atmosfera alteram o clima globalmente e podem resultar em tempestades severas ou clima ameno, seca ou inundações. Essas alterações climáticas podem produzir resultados secundários que influenciam a oferta e os preços de alimentos, incêndios florestais e criam consequências econômicas e políticas adicionais. Fomes e conflitos políticos podem resultar dessas condições ambientais mais extremas.

Ecossistemas e comunidades humanas podem ser afetados positiva ou negativamente. No Sul do Brasil, La Niña aumenta o risco de estiagem, enquanto El Niño agrava a ameaça de chuva excessiva com enchentes. Historicamente, as melhores safras agrícolas no Sul do país ocorrem com El Niño, embora nem sempre, e as perdas de produtividade tendem a ser maiores sob La Niña. O El Niño agrava o risco de seca no Nordeste do Brasil, enquanto La Niña traz mais chuva para a região.

A origem do nome data de 1800, quando pescadores na costa do Pacífico da América do Sul notavam que uma corrente oceânica quente aparecia a cada poucos anos. A captura de peixes caía drasticamente na região, afetando negativamente o abastecimento de alimentos e a subsistência das comunidades costeiras do Peru. A água mais quente no litoral coincidia com a época do Natal. Referindo-se ao nascimento de Cristo, os pescadores peruanos chamaram as águas quentes do oceano de El Niño, que significa “o menino” em espanhol. A pesca nesta região é melhor durante os anos de La Niña, quando a ressurgência da água fria do oceano traz nutrientes ricos vindos do oceano profundo, resultando em um aumento no número de peixes capturados.

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