O Centro tem solução! O bairro já possui tudo o que precisa para se tornar referência em turismo, cultura, história e comércio qualificado. Diante disso, por que vemos tantas carências, crimes contra o patrimônio histórico, violações graves ao Estatuto das Cidades, desrespeito às regras do Plano Diretor Urbano e desleixo com imóveis seculares? Estruturas que deveriam ser tratadas como tesouros são deixadas na sarjeta.
A resposta para isso, caros leitores, é a flagrante aliança entre o poder público municipal e o mercado imobiliário. Eu explico: em meio ao abandono e à completa falta de interesse pelo Centro de Vitória, a PMV segue com obras de estética questionável e absurdamente caras — como a intervenção no Canal de Camburi, que ultrapassa os 200 milhões de reais.
Tal obra, implementada em uma região de estuário com um ecossistema sensível e fragilizado pela poluição de efluentes domésticos e industriais, além do grande volume de resíduos sólidos, agora ganhará calçadões de concreto superiluminados com luzes de LED. Não vou me aprofundar no mérito do impacto ambiental na fauna, especialmente à noite, tampouco no calor diurno que tornará insalubres os passeios por esses pesados calçadões. Vamos falar de preço da terra!
Hoje, nas proximidades do Canal, o preço do m² pode chegar a 22 mil reais, o que coloca Vitória como a capital com o metro quadrado mais alto do Brasil. O valor médio na capital é de R$ 14.818. Florianópolis, uma cidade com muito mais infraestrutura, melhores índices de saneamento e qualidade de vida, está em segundo lugar no ranking. O que assusta é que as expectativas dos especuladores são altas: segundo a plataforma MySide, o valor do m² pode aumentar de 15% a 20% após a conclusão da obra.
O Centro não está na mira do setor imobiliário, e o poder público municipal, que deveria se preocupar com toda a capital, concentra suas atenções onde o mercado dita as regras. A prefeitura, que deveria se alarmar com o fato vergonhoso de Vitória ser a capital com o maior percentual de favelas do Sudeste — e uma das 10 mais favelizadas do Brasil —, despeja dinheiro nas áreas nobres e corta gastos de forma indiscriminada nos lugares onde a presença de recursos públicos é mais necessária.
O Centro possui casarões extraordinários abandonados há décadas que poderiam ser desapropriados pela PMV, restaurados e devolvidos à população com algum uso social importante que gerasse valor, renda e emprego. Suas ruas históricas e estreitas deveriam ter os fios aterrados e a pavimentação original recuperada. Suas praças e parques deveriam abrigar eventos e atividades culturais semanais, com atrações locais e nacionais. Sua área portuária deveria ser requalificada para receber passeios, navios e embarcações. Enfim, o Centro tem jeito; o que falta é verba direcionada a ele.
O mesmo dinheiro público que vai deixar o metro quadrado mais caro do Brasil ainda mais inflacionado poderia tornar o Centro da capital o bairro mais limpo, seguro, bonito, bem-cuidado e próspero da cidade. Mas cultura, história e criatividade não entram na conta da atual gestão.
Até demandas mínimas, como um segurança na Igreja do Rosário para que ela possa reabrir para visitações, são negadas pela prefeitura. Uma igreja de quase 300 anos segue fechada e, por duas vezes, foi invadida e furtada desde que a PMV retirou a vigilância do local.
Cabe ainda mencionar que todos os anos essa mesma gestão gasta milhões em cachês de cantores sertanejos em festas eleitoreiras feitas na Orla. Essa mesma administração também gastou mais de 200 milhões de reais em asfalto e, quando faz uma obra no Centro, como a da Praça Getúlio Vargas, descaracteriza e destrói a identidade histórica.
Portanto, que fique claro: o Centro de Vitória tem jeito. Só precisamos resistir até que esta cidade tenha um prefeito ou prefeita que realmente goste do Centro. Enquanto isso, nós, moradores e comerciantes, precisamos seguir cuidando das nossas ruas, parques e praças, valorizando nossos teatros e museus, ocupando os espaços públicos e torcendo para que intervenções desastrosas como a da Getúlio Vargas não sejam levadas a tesouros históricos como o Parque Moscoso e a Praça Costa Pereira.
Sendo assim, podemos dizer que o Centro não vive, ele SOBREVIVE. E sobreviver a tantas perdas, abandonos, crises estéticas e ausência de investimento é uma tarefa que só os fortes conseguem realizar. Portanto, a todos que respeitam, valorizam e lutam pelo Centro: orgulhem-se, vocês são fortes!







