Morar caro pra viver mal

ESPECULAÇÃO IMOBILIÁRIA, DESENVOLVIMENTISMO E OS DILEMAS DAS EMERGÊNCIAS CLIMÁTICAS NA GRANDE CANA AMARELA

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Num lugar tão próximo, fica a cidade de Grande Cana Amarela. É a cidade das novidades, sempre à frente de outras cidades da região, vista todas como inimigas. Todos os visitantes que passam pela Grande Cana Amarela avistam suas belezas e infortúnios, convivendo quase sem espanto, mas produzindo dúvidas a quem não é do lugar.  

SILVA, Juliano Motta. Aspectos de paisagem, memória e esquecimento de um rio urbano: lembranças do Rio Marinho (ES). 2017. 140, [35] f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Artes., 2017, p. 63
Dentre uma das maiores curiosidades sobre a Grande Cana Amarela é, justamente, perceber onde a força do cartão postal falha que até aqueles que podem morar bem pagam caro para “morar num urbano precário,” esvaziado de práticas modernas de urbanismo sustentável. O indivíduo paga milhões para ficar próximo de um calçadão sem segurança, morar em apartamentos (até sem direito à área serviço) minúsculos e de praias poluídas, desprovidas de preservação da fauna marinha, sombreadas pelos prédios e pelas luzes artificiais à beira-mar durante a noite.

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Não se trata de déficit cognitivo ou de falta de recursos, mas de um impasse político e conjuntural no qual as classes médias urbanas locais e os endinheirados recusam-se a pensar a cidade em perspectiva de longo prazo, por meio de um planejamento que priorize a população residente.

Fonte: SILVA, Juliano Motta. Aspectos de paisagem, memória e esquecimento de um rio urbano: lembranças do Rio Marinho (ES). 2017. 140, [35] f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Artes., 2017, p. 63
Essa paralisia decisória deixa todos os cidadãos presos ao decisionismo das forças econômicas que governam a cidade por meio da construção imobiliária, das grandes obras e da produção de distinção territorial, bem como à negligência dos poderes públicos — dependentes de investimentos e de apoio nas campanhas eleitorais — que protelam o debate público e político sobre o destino da “cana amarela” e a finitude do seu crescimento imobiliário diante da transição demográfica, energética e das mudanças climáticas.

Acreditam que a riqueza social e coletiva produzida pelos investimentos anunciados com festas e justificados por representarem mais empregos, trabalho, renda e riqueza resolverá os desafios econômicos, políticos, sociais, urbanos e ambientais de uma cidade fragmentada e esgarçada pelas diferenças e disparidades sociais, econômicas e urbanas. A cidade está à deriva.

Enquanto os que moram na faixa litorânea parecem ignorar as questões ambientais relativas ao aumento do nível do mar, os prédios têm o céu como limite e os bairros novos de alto padrão surgem pressionando o sistema de água, esgoto e transporte, além das demandas econômicas e sociais. Se os mais ricos e endinheirados, portadores de diplomas, títulos, nomes e riquezas, não discutem a cidade para além dos ganhos financeiros, econômicos e rentistas. 

Fonte: SILVA, Juliano Motta. Aspectos de paisagem, memória e esquecimento de um rio urbano: lembranças do Rio Marinho (ES). 2017. 140, [35] f. Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Federal do Espírito Santo, Centro de Artes., 2017, p. 58
Assim, o que restará para a gente remediada, humilde e mais pobre da localidade, além de enfrentar as precariedades urbanas, a segregação socioeconômica e a violência urbana, inscritas no corpo de maneira seccional, no entrelaçamento de cor, raça e etnia, território, trabalho, gênero e classe, que resultam em preconceitos, discriminações e violências — morais, físicas e simbólicas?

Entretanto, o otimismo em torno do crescimento econômico da cidade, a euforia de que estamos conquistando o paraíso e o desenvolvimentismo voluntário de todos os grupos sociais impõem-se de forma dominante. Quase todos buscam estratégias e alternativas para fazerem parte desse Eldorado ou Serra Pelada que a Grande Cana Amarela se tornou. Uma hipervalorização, governada por uma demanda potencial ou futura, eleva os preços de tudo — terrenos, casas, aluguéis e outros bens.

Quase sempre, os atingidos por essa grande campanha urbana de crescimento, que reduz a cidade a uma mina de ouro ou de diamante, secundarizam, infelizmente, qualquer discussão que não signifique valorização, ganhos, vantagens e benefícios. Qualquer ação que não represente mais ganhos é silenciada, obliterada e negligenciada, mesmo quando urgente e incontornável.

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Igor Vitorino da Silva
Igor Vitorino da Silva
Professor, historiador e mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História pela Universidade Federal do Paraná (/PPHIS/UFPR). Pesquisador Associado Externo do LHIPI – UFES e do LHIPU – IFES/Campus Vitória-ES

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