Estamos na abertura do prestigiado Festival de Teatro “Aldeia Sesc Ilha do Mel”, que, desde 2014, mapeia e celebra o panorama da produção artística do Espírito Santo. O espetáculo da noite? “O Serrote de Shabeli“, uma obra que usa da palhaçaria para costurar feridas sociais profundas.
Shabeli (ou Shabelita, para os íntimos) eleva que o humor é o disfarce perfeito para expressar o que a civilização nos proíbe de dizer abertamente. Em meio ao caos cotidiano da busca pelas coisas que realmente importam, ela se descobre afogada na melancolia das perdas. O estopim do drama é o sumiço de sua chave mestra: aquele instrumento místico capaz de abrir todas as portas para a realização dos desejos mais belos. Para triunfar nessa jornada, Shabeli evoca as forças do sagrado feminino, transformando o palco em um caldeirão de magia, mistério e pura subversão cômica. Uma premissa maluca e absurda para falar sobre autonomia, desejo e a persistência da mulher contemporânea.
Vamos lá! A abertura visual do espetáculo é de um impacto técnico memorável. A iluminação inicial desenha uma silhueta que confere à protagonista uma estatura de grandeza mítica, reduzindo-se gradativamente conforme a ação dramática se estabelece. Os recortes de luz operados ao longo da encenação são cirúrgicos, responsáveis por injetar a carga dramática necessária nos momentos de transição de humor. Contudo, nem tudo são flores na dinâmica do tempo. A música de abertura revelou-se excessivamente longa para a dimensão reduzida do teatro. Talvez num cenário maior, a chegada da personagem ficasse melhor, mas, para o palco do Virginia Tamanini, que é bom, mas, curto, não ajudou muito essa música dramática e longa.

Esse estiramento temporal acabou cobrando um preço alto: piadas excelentes, como a refinada referência ao coração, acabaram se perdendo no marasmo de um drama inicial prolongado. Da mesma forma, a movimentação da personagem florista careceu de ritmo e não alcançou o efeito cômico que acredito que era o pretendido.
É na adversidade, porém, que os verdadeiros artistas se revelam. Quando a máquina de fumaça falhou em cena, o controle técnico e a presença de espírito da atriz transformaram o imprevisto em teatro puro. A solução de reincorporar o iluminador como um personagem que improvisa em tempo real foi uma jogada de mestre.
Nota Crítica: Ainda não sei o porque as pessoas tem a insistência em registrar fotos com flash durante o espetáculo (precisam fazer algum curso?) porque isso destrói o pacto cênico, ofusca a atuação e desrespeita o desenho de luz que estava sendo preparado.
Mas, voltando, para compreender a estrutura de “O Serrote de Shabeli”, precisamos recorrer à mecânica clássica do riso na palhaçaria, estruturada em três tempos: a promessa, a preparação e a quebra. Shabeli constrói um ambiente carregado de dramaticidade, olha nos olhos do público e pergunta solenemente sobre músicas tristes, prometendo executar uma melodia que rasgará as almas mais duras. O espectador, condicionado pelo clichê, prepara-se para o choro. A quebra surge avassaladora quando a atriz saca o cancioneiro infantil e toca a poucas notas do piano, com total seriedade, o tema da “Dona Baratinha”.
Essa quebra liberta o público das amarras das convenções sociais rígidas. É o riso como resposta catártica à nossa própria vulnerabilidade. A divisão das cenas é costurada com metalinguagem afiada: quando a personagem avisa, sem pudores, que o espetáculo vai “realmente começar” após trinta minutos de introdução, ela abraça o ridículo e estabelece uma cumplicidade imediata com a plateia.

A inclusão espontânea de uma criança na dinâmica do palco foi outro ponto alto. Embora o risco do descontrole seja enorme quando se trabalha com a imprevisibilidade (ainda mais nesse caso a infantil), a atriz demonstrou o domínio de cena de quem sabe guiar o imprevisto.
Ao convidar os espectadores a subirem ao palco, Shabeli utiliza essa “chamada à cumplicidade” de forma calorosa para relaxar os voluntários, embora o tempo estendido dessa transição tenha feito o ritmo da peça cair por alguns instantes.
Outro acerto técnico foi o uso da repetição de conceitos. Uma frase específica, repetida exaustivamente com diferentes nuances, acabou por comover e contagiar o público de tal forma que a própria plateia passou a ecoar a expressão, inserindo-se organicamente dentro do texto vivo da peça.
É impossível analisar “O Serrote de Shabeli” sem contextualizar o espetáculo na realidade política e cultural da nossa época. Durante séculos, o olhar da sociedade machista relegou a mulher ao papel de objeto passivo do riso, nunca de agente causadora dele. O protagonismo feminino na palhaçaria é uma conquista recente.
O espetáculo atua diretamente na desconstrução de uma herança patriarcal coercitiva que dita que a dita “mulher direita” não deve gargalhar e muito menos fazer os outros rirem. Shabeli, consegue trazer a força e o poder feminino para cena de diferentes maneiras, convidando ao palco diferentes mulheres, e de diferentes formas fazendo o público rir, sem perder o contexto. Exercer o ofício da palhaçaria sendo mulher não é apenas entretenimento; é um ato político de denúncia, um alerta social e uma conexão pedagógica com o público.
O espetáculo de Shabeli deixa claro que Homens e Mulheres enxergam e sentem o mundo de formas distintas, e o humor feminino traz consigo uma carga de vivências, dores e sutilezas únicas que precisam ocupar os palcos com urgência.

Contudo, sob o olhar analítico cênico, (mas, apenas um toque que não chega ser um erro), o espetáculo constrói uma narrativa robusta sobre a união e a força das mulheres. No entanto, no momento em que a atriz não conseguiu descolar os bancos de cena no palco, ela perdeu a oportunidade de ouro de convidar as mulheres ali presentes para ajudá-la. Seria a ilustração perfeita, prática e poética do poder coletivo feminino.
Em contrapartida, o posterior “Desafio da Cadeira Humana” foi conduzido com brilhantismo. O que na verdade é um truque de pura física (estabelecida pela ciência) foi envelopado como um ato “mágico” e magnético, amarrando perfeitamente a técnica corporal com o tema central da emancipação e cooperação.
O texto se intensifica e ganha malícia saudável (e perigosa, se pensar que minutos antes, uma criança participou da cena) quando faz alusão à “força” do homem para abrir o pote de onde sai a cobra, inserindo insinuações sexuais leves e jocosas que temperam o humor para os adultos ali presentes.

Mas, até um certo ponto eu me perguntava: Quando ela vai entrar na história da Sinopse e do título? E a grande revelação musical, o ápice técnico da palhaça ao extrair notas melódicas tocando o serrote com um arco de violino, justifica cada minuto de espera. O serrote, afinal, só surge no último suspiro da noite, coroando a lógica da quebra de expectativa. Ele está representado, mas, não citado e aparece em um último momento, fechando a trama.
“O Serrote de Shabeli” cumpre o seu papel cênico e social no Festival Aldeia Sesc. Apesar dos pequenos deslizes de ritmo na metade da apresentação e da introdução musical excessivamente longa, a obra se sustenta pela atuação magnética da protagonista, pela iluminação inteligente e pela coragem de usar o palco como forma de falar de coisas importantes. Shabeli pega o machismo estrutural, bota um nariz vermelho nele e o faz tropeçar nos próprios pés diante de uma plateia em transe. Ao final, saímos cientes de que a resiliência, a empatia e a autonomia feminina são ferramentas afiadas como o ferro de um serrote, prontas para cortar as grades invisíveis que ainda tentam limitar as mulheres na sociedade.







