A crise dos afetos na era do amor líquido e da atrofia social

​As pessoas adoram falar do conceito de modernidade líquida do sociólogo Zygmunt Bauman, o que é compreensível, uma vez que as relações interpessoais e os nossos papéis sociais estão cada vez mais direcionados à performance do produtivismo a serviço do ultra capitalismo.

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​Herbert Marcuse, ainda em 1964, publicou “O Homem Unidimensional”, onde critica o avanço implacável e irreversível da construção de uma sociedade industrial. Uma sociedade onde a ciência e a tecnologia deixam de ser isentas e tornam-se ferramentas de controle disfarçadas de liberdade e comodidade. 

Marcuse e Bauman identificam padrões que são muito explorados nas análises dos geógrafos David Harvey e Milton Santos.

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​Enquanto Marcuse foca em entender a “colonização da mente”, Milton Santos traz o debate para o território, analisando a dinâmica perversa do produtivismo implacável e do consumismo sem limites do capital globalizado. Santos denunciava que o capitalismo se alimenta da escassez. Apesar de o geógrafo focar na escassez material, eu trago aqui a escassez dos afetos. 

Precisamos falar não apenas da pobreza e da desigualdade que o capital globalizado traz, mas do quanto o vazio dos afetos leva a sociedade a um padrão de consumo insustentável, onde o valor é medido pela performance do “ter”; sendo assim, o que é subjetivo se perde e sobra apenas o produto.

​Assim, seres humanos são colocados em uma prateleira e seus valores são atribuídos de acordo com o nível de consumo, resultado e produtividade. Aí entra a grande escassez do afeto, das paixões e dos desejos. O ser humano passa a performar numa busca constante pela aprovação de um agente invisível: o capital.

​Portanto, se não há valor no afeto, logo ele deixa de ser essencial e passa a ser visto como um obstáculo, “uma pedra no meio do caminho”. Ou vocês acham que o poeta Carlos Drummond falava literalmente de uma “pedra” no sentido geológico da coisa? Graças à polissemia, tenho a licença para crer que Drummond não falava da pedra apenas como imprevisto ou limite, ou que estava apenas “jogando uma pedra” no Parnasianismo, como acreditam alguns críticos literários; gosto de acreditar que Drummond, sensível como foi em seus textos, estava triste, angustiado e preocupado com os novos caminhos que o capitalismo estava tomando.

​David Harvey, em “A Condição Pós-Moderna”, traz luz à ideia da perda da percepção real do espaço-tempo: a velocidade do capital aniquila as barreiras espaciais, causando a impressão de que tudo é mais acelerado do que realmente é. O post que não pode ficar para amanhã, o evento que precisa acontecer, o trabalho que precisa seguir — ainda que o corpo e a mente não estejam mais aguentando. O corpo que precisa estar nos padrões de estética e a alimentação perfeita mesmo sem tempo de qualidade são formas de morte lenta. 

Esses distanciamentos sociais, impostos diariamente, estão nos matando como seres sociais e nos transformando em meros produtos descartáveis.

​Daí vemos como a sociedade está cada vez mais cruel com os vulneráveis: pessoas em situação de rua, idosos e enfermos. Essa crueldade é fruto de uma crença criada pelo capitalismo de que o valor só existe em quem produz.

Assim, vamos ficando atrofiados socialmente. Os abraços são raros; os encontros precisam ser objetivos para não haver “perda de tempo”. Daí vemos a revolta de quem “gastou uma graninha” num jantar que não rendeu sexo ou não “deu match”. O jantar, que deveria ser de aprendizado e interação, é visto meramente como prejuízo financeiro.

​Harvey falava da “fome insaciável” do mercado. Se o rio esconde petróleo, sua água torna-se inútil e o rio pode ser destruído. Se uma vila de 500 anos está sobre o minério, ela perde a importância. É o que a escola do capitalismo nos ensina e replicamos na rotina: o cônjuge descartado após anos por um burnout ou crise emocional torna-se apenas mais um obstáculo à produtividade.

​Chegamos, então, à ideia de amor líquido de Bauman e à atrofia social de Marcuse, amarradas pela compressão do tempo-espaço de Harvey. Lembro-me da frase de uma amiga comerciante: “o tempo empresarial é outro”. Sob o prisma de Marcuse, isso é o ápice da alienação do indivíduo unidimensional, que perdeu a capacidade de enxergar alternativas ao sistema.

​Após a pandemia de Covid-19, essa atrofia aumentou. Os dados são alarmantes: um relatório técnico da Agenda Mais SUS (2023) aponta que 55% da população LGBTQIAPN+ apresenta vulnerabilidade à depressão — um número três vezes maior do que o registrado na população não LGBTQIAPN+. A OMS já trata a solidão como crise de saúde pública. Enquanto influenciadores exaltam a “solitude” como foco e carreira, o auto isolamento torna-se um vilão da saúde mental. Dados do IBGE mostram que hoje 16% dos domicílios brasileiros são ocupados por apenas uma pessoa, o maior número da nossa história.

​Vamos perdendo habilidades básicas: o cumprimento vira incômodo, a visita vira transtorno e o lazer vira perda de tempo. 

O resultado é o vazio, a depressão e o aumento dos índices de suicídio.

​E você, já socializou hoje?

​Caso esteja passando por depressão ou pensamentos suicidas, busque ajuda: ligue 188.

​Fontes utilizadas:

Herbert Marcuse: Eros e Civilização (1955); O Homem Unidimensional (1964).
​Milton Santos: O Espaço do Cidadão (1987); Por uma outra globalização (2000).
​David Harvey: Os Limites do Capital (1982); A Condição Pós-Moderna (1989).

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Fabrício Costa
Fabrício Costa
Geógrafo e mestre pela UFES, Fabrício é o coração d'A Oca, no Centro de Vitória. Entre mapas e afetos, trocou o rigor técnico pela potência da arte e gastronomia. Bruxo, poeta e múltiplo, faz do seu território um espaço de acolhida, resistência e evolução constante.

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