A cidade de Vitória voltou à cena nas redes sociais, internet e meios de comunicação tradicionais. A lama escura na praia da Guardaria, o aterramento e a paralisação das obras de reforma da Rua Sete de Setembro e da Rua Gama Rosa produziram, ainda que de forma diminuta, uma esfera pública sobre todos os temas, uma discussão que ultrapassou as autoridades e especialistas e movimentou a sociedade local.

Ao ler os comentários nas redes sociais, percebe-se que, além das polarizações políticas que marcam o país atualmente — tão denunciadas e pouco compreendidas —, há um desejo de participação nas decisões públicas que atravessa de alto a baixo a sociedade local e regional, mesmo quando se utiliza a estratégia do cancelamento e do tribunal absoluto em relação ao outro e ao adversário.
No caso do Centro de Vitória, o debate é quase secular e remonta aos efeitos negativos do processo de modernização econômica impulsionado nos anos 1960 pelas elites locais, em articulação com o projeto do “Brasil Potência” dos governos militares. Esse debate se arrasta enquanto o passado vai se esfarelando, transformando-se em terreno baldio ou estacionamento, assim como em prédios abandonados ou em fachadas conservadas, ou não.

Tudo acontece no Centro de Vitória (ES), menos o enfrentamento do abandono, da negligência e do esquecimento: o direito à propriedade devora o passado e todo o trabalho morto em artes, paredes e colunas, com a força do tempo impiedoso, mas não permite, de forma alguma, qualquer uso que não esteja regulado pelo dinheiro e seu reino, seja mercado formal, seja mercado informal.
Assim, vive-se entre as ruínas planejadas de uma cidade reduzida à especulação imobiliária e às garras da mercadoria, em que o bem viver e a qualidade de vida têm um custo caro, que nem todos os cidadãos possuem renda para pagar e ao qual ter acesso, como investigam, diagnosticam e denunciam Paola Berenstein Jacques, Gabriela Alves, Alessandra Toledo, Clara Luíza Miranda, Movimento de moradores e de bairro, Movimentos sociais urbanos, Coletivos(temáticos, artísticos, políticos ou de ajuda mútua) e outras formas de organização social.

Dessa maneira, além dos diagnósticos, das ações comunitárias isoladas e da ação epidérmica dos poderes públicos, o Centro de Vitória (ES) precisa, de fato e de direito, unir ação coletiva e agenda comum de interesses e prioridades, pensando o centro como um fragmento articulado que não pode sofrer intervenções e ações públicas sem considerar as mediações locais, regionais, metropolitanas e internacionais.
Apesar do deslocamento das centralidades socioeconômicas, financeiras e político-administrativas para o norte litorâneo da ilha de Vitória (ES), o Centro de Vitória é uma condensação de atores e interesses interligados à dinâmica local, regional, metropolitana e internacional.
Isso exige daqueles que moram, trabalham e usufruem de suas localidades a construção de um consenso mínimo estratégico sobre o que fazer com o centro, tendo em consideração a supremacia da propriedade privada, do direito de herança e a força política e econômica da especulação imobiliária e da compreensão corporativa do espaço urbano, que apenas o concebe como oportunidade de ganhos e vantagens financeiras, políticas e econômicas — valorização e enriquecimento como única forma de compreender o uso e a produção da cidade.
Nesses termos, considerando que a feição da cidade, a paisagem urbana, a aparência arquitetônica e a forma urbana se configuram como elementos de exclusividade e seletividade, assim como de afirmação de identidades sociais e de inserção na contemporaneidade — elementos sintomáticos do moderno, do sofisticado, do nobre e do elegante —, são essas as regiões e localidades que se colocam como visão e imagem da cidade.
Pela dificuldade financeira de manter a conservação arquitetônica, edilícia e urbana, transformam-se em contraponto estratégico e primordial de diferenciação e exclusividade as localidades marcadas pela centralidade urbana e pelas fronteiras imobiliárias. São o feio, o caótico, o decadente e a desordem que também alimentam o processo de esvaziamento simbólico e econômico das regiões centrais históricas, como acontece no Espírito Santo.
Tudo isso significa que se precisa de ação coletiva que supere as ações de grupos e coletivos movidos por interesses corporativos ou setoriais — claramente importantes, mas insuficientes para produzir uma ampla transformação física, simbólica, econômica, demográfica e política no Centro de Vitória, pois não conseguem estabelecer um consenso mínimo ou uma prioridade pública e transparente sobre o que fazer com o Centro de Vitória.
Vivem-se anos de ausência de políticas públicas, de ações descontinuadas e desarticuladas, exercidas ao bel-prazer e aos interesses de cada governo. Por vezes, os atores sociais e as instituições recusam-se a enfrentar o óbvio, mesmo diante de inúmeros diagnósticos.
O desenvolvimento do Centro de Vitória passa por uma intervenção de fundo público que assuma, de fato, o papel que as forças de mercado não podem assumir. Isso significa discutir desapropriação, monitorar inventários, impor o IPTU progressivo e muitas outras medidas políticas e sociais — o que implica, também, com a devida vênia aos liberais locais, a necessidade da atuação do poder público de maneira efetiva, proativa e regulatória.
Tudo isso para que os diversos interesses que costuram o Centro de Vitória possam, a longo prazo, realizar seus objetivos e prioridades, construindo uma alternativa de dinamismo social, econômico e político para o centro que não seja baseada apenas em ganhos comerciais e imobiliários.
Essa deseja intervenção, quase salvacionista, do Estado no Centro de Vitória-ES, naquilo que o mercado não pode resolver ou que produz distorções econômicas, sociais e políticas, apenas pode surgir — fala-se novamente do óbvio — da auto-organização local que estruture uma ação coletiva e um consenso mínimo pelo Centro de Vitória, impondo ao poder público, aos campos profissionais e aos saberes especializados que, antes de tudo, o centro de Vitória precisa ser um lugar para viver, com qualidade de vida e dignidade, e não meramente um laboratório de experimentações, testes e objetos de pesquisa, valorização profissional, visibilidade política e mercado de trabalho para assessorias e empresas de arquitetura e engenharia, nem discurso de legitimação de governos.

Referências Bibliográficas
ANJOS, Mazinho.Mancha na Guarderia exige respostas, não silêncio. Artigo de Opinião. A Gazeta. Publicado em 10/03/2026 às 15h35







