Romaria dos Homens: A fé de quem vive o caminho

A imersão do jornalista que percorreu os 14 km trocando experiências humanas com os romeiros

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A expressão de fé acontece de formas inesperadas e diferentes. Ela se intensifica quando cada pessoa leva sua busca particular por Deus à uma manifestação pública. Neste caso, a uma caminhada católica que, neste ano, reuniu cerca de 1,2 milhão de pessoas.
Foi isso que observei na Romaria dos Homens, ocorrida no dia 11/04/2026, entre Vitória e Vila Velha, Espírito Santo. O evento é um dos pontos altos da festa, que celebra Nossa Senhora das Alegrias da Penha, padroeira do Estado.

Pessoas sorrindo e conversando, outras caladas rezando e, ainda, algumas derramando lágrimas de emoção, de forma discreta e silenciosa. Assim, católicos da capital capixaba, do interior e também de outros estados caminharam 14 Km entre as duas cidades.
O evento, que completou 71 anos de existência, lotou a praça e as ruas em frente à Catedral Metropolitana de Vitória. Romeiros acompanharam a missa em grandes telões. Após a bênção do bispo auxiliar Dom Andherson Franklin Lustoza de Souza, a romaria teve início às 18h.

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O bispo auxiliar Dom Andherson abençoando os participantes da Romaria dos Homens 2026, na frente da Catedral Metropolitana da Vitória. Foto: Tony Silvaneto e Rede de Memórias
O bispo auxiliar Dom Andherson abençoando os participantes da Romaria dos Homens 2026, na frente da Catedral Metropolitana da Vitória. Foto: Tony Silvaneto e Rede de Memórias

Em um momento de forte emoção. Dom Andherson seguiu a caminhada logo à frente da imagem de Nossa Senhora da Penha. O Rede de Memórias, que registra as festas populares capixabas, esteve presente por meio da coordenadora Zanete Dadalto e deste jornalista.

O bispo auxiliar Dom Andherson Franklin Lustoza de Souza caminhando junto aos romeiros. Sob a Segundo Ponte, na Romaria dos Homens – 2026. Foto: Tony Silvaneto e Rede de Memórias.

Eu fiz todo o percurso e percebi que este foi um evento de exceção. Em seis anos de cobertura profissional, foi a primeira vez em que senti cansaço, apesar do ânimo e da satisfação pessoal de atuar em contato com tão grande público, com somente um foco: a santa católica.

Foi uma noite de manifestação em louvor, cuja história é marcada por inúmeros relatos de milagres registrados nos documentos do Convento da Penha. Da saída na Catedral Metropolitana de Vitória até a Segunda Ponte, que liga os dois municípios, a imagem seguiu levada com cuidado. A capital capixaba parou. Cada metro quadrado das ruas nas quais ela passou estavam ocupados por romeiros.

Perspectiva de uma parte dos participantes da Romaria dos Homens 2026, na entrada da Segunda Ponte, que liga Vitória e Vila Velha, cidades que compões a região metropolitana. Foto: Tony Silvaneto e Rede de Memórias.
Perspectiva de uma parte dos participantes da Romaria dos Homens 2026, na entrada da Segunda Ponte, que liga Vitória e Vila Velha, cidades que compões a região metropolitana. Foto: Tony Silvaneto e Rede de Memórias.

A imagem deslocou-se lentamente e parou pelo menos quatro vezes. Nos anos anteriores, o trajeto era feito em ritmo acelerado e os romeiros que saiam na frente, andavam rapidamente para chegar no local da missa e ocupar melhores espaços. Desta vez, o deslocamento foi lento. Quem saiu à frente da imagem caminhou devagar.

A primeira parada ocorreu em frente ao Viaduto Caramuru, onde a imagem foi recebida pelo canto de um coral. A fé se misturou à emoção. Em outro momento, ela parou sobre a Segunda Ponte, que liga a capital Vitória, ao município de Vila Velha. Um helicóptero da Polícia Militar do Espírito Santo pairou sobre o local, gerando uma boa expectativa, mas nada de especial ocorreu.

Coral cantando na chegada da imagem de Nossa Senhora da Penha, no viaduto Caramuru, Centro Histórico da capital Vitória – ES. Foto: Tony Silvaneto e Rede de Memórias.

A santa atravessou a Segunda Ponte e entrou em solo de Vila Velha. Teve início uma chuva que foi aumentando gradativamente. Na altura do cruzamento da Avenida Carlos Lindenberg com a Rodovia Darly Santos, a chuva caiu em grande volume. Ainda assim, os romeiros, destemidos, mantiveram-se firmes na fé e na oração.


Imagem de Nossa Senhora da Penha passando sobre a Segunda Ponte, que liga as cidades de Vitória e Vila Velha – ES. Foto: Tony Silvaneto e Rede de Memórias.

Não diminuíram o ritmo, não se dispersaram e seguiram unidos em direção à missa na Prainha, em Vila Velha. Naquele ponto, restavam aproximadamente 6,5 Km de caminhada.

Obras na Avenida Carlos Lindenberg estreitaram a passagem. Os romeiros à frente da imagem continuaram devagar, até mesmo devido a pista molhada e os obstáculos do caminho. Os trios elétricos gospel não puderam acelerar. A imagem fez o percurso em aproximadamente cinco horas. Uma média de 2,8 km por hora.

Fazer jornalismo junto ao povo, em meio à multidão. Em contato direto com pessoas, padres e a comissão organizadora, permitiu-me sentir a energia pulsante do evento. Conversar, observar como as pessoas se expressam, como pensam e o que buscam humaniza qualquer atuação profissional.

Imagem sobre a Segunda Ponte. Ocuparam os dois sentidos de direção. Foto: Tony Silvaneto e Rede de Memórias.
Romeira caminhando e rezando com velas nas mãos. Foto: Tony Silvaneto e Rede de Memórias.
Padres católicos fazendo a Romaria dos Homens – 2026. Foto: Tony Silvaneto e Rede de Memórias.

Desta forma, fotos e vídeos carregam sensibilidade. Posso afirmar que foi impossível não reservar momentos para a minha própria fé, deixando a câmera e o gravador de lado. A esse processo, chamo de “jornalismo intimista”.
Entrevistei três pessoas para compreender a relação delas com a Romaria dos Homens.
O agente de viagens Erick Gomes, de 22 anos, carioca, mudou-se há seis meses para Vila Velha e participou pela primeira vez. Demonstrou entusiasmo:
“Tô amando acompanhar a santa. Tô amando acompanhar tudo. Estou achando o Espírito Santo incrível. Não há como comparar este lugar maravilhoso com o lugar em que eu nasci”, revelou o agente.

O jovem Erick Gomes, carioca, registrando a presença na Romaria dos Homens 206. Foto: Tony Silvaneto e Rede de Memórias.

Questionado sobre a emoção e a rápida ligação com a devoção local, respondeu:
“Eu resolvi experimentar como é uma romaria, pois todo mundo estava me indicando, dizendo que eu iria gostar. Então, eu vim agradecer a oportunidade de estar morando aqui”, informou Erick.
Explorando mais profundamente a emoção que ele expressava ao falar comigo, eu questionei sobre a fé:
“Eu agradeço pela minha vida e pela oportunidade de estar aqui. Agradeço por estar pisando nesse chão. Já conhecia o estado há quatro anos e nunca tinha conseguido me mudar. Dessa vez, minha mãe e eu viemos. Consegui chegar aqui, então eu vim agradecer a Nossa Senhora da Penha”, disse o jovem romeiro.

Erick Gomes. “Felicidade em mudar-se para o Espírito Santo”. Foto Tony Silvaneto e Rede de Memórias.

Logo à frente, observei duas jovens felizes ao reacender uma vela que havia se apagado. Em gesto de fé, muitos caminham rezando com velas acesas. Mais do que expressão religiosa, a cena compõe um quadro humano que desperta contemplação. Aproximei-me para entrevistá-las.

Iasmin Souza e Lucimara Amaral. Por três anos, unidas na fé em Nossa Senhora da Penha. Acendendo a vela na Romaria dos Homens 2026. Foto Tony Silvaneto e Rede de Memórias.

A técnica em enfermagem Iasmin de Souza, de 23 anos, moradora de Cariacica, participava da romaria em razão do primeiro emprego na área da saúde:
“Agradecer! Estou de férias. São minhas primeiras férias no trabalho que consegui. Então estou vindo para agradecer”, disse a profissional.
Ao lado dela, a irmã, Lucimara Amaral, de 44 anos, revelou outro propósito:
“Os motivos são a gratidão e a missão de Nossa Mãe. Eu também vim pedir sabedoria para continuar a lida aqui embaixo, de ser mãe assim como ela é”, afirmou Lucimara.
A missa aconteceu em meio a uma chuva moderada e, de maneira surpreendente, parou após o evento terminar. O retorno ao lar foi tranquilo, a gigantesca multidão se dissipou em paz. Ao alto, todos puderam observar no céu escurecido, a visão iluminada do Convento da Penha.

Convento de Nossa Senhora da Penha. Vila Velha – ES. Foto Tony Silvaneto e Rede de Memórias.
Local da Missa, na Prainha de Vila Velha – ES. Destino da Romaria dos Homens 2026. Todos aguardando a chegada da imagem. Foto Tony Silvaneto e Rede de Memórias.
Local da Missa, na Prainha de Vila Velha – ES. Destino da Romaria dos Homens 2026. Todos aguardando a chegada da imagem. Foto Tony Silvaneto e Rede de Memórias.
Chegada da imagem de Nossa Senhora da Penha, na Prainha de Vila Velha – ES. Destino da Romaria dos Homens 2026. Sob chuva insistente. Foto Tony Silvaneto e Rede de Memórias.
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Tony Silvaneto
Tony Silvaneto
Jornalista formado e credenciado pela FENAJ. É o codinome de Antonio da Silva Neto, reconhecido como artista com mais de 15 anos na Cultura Popular Capixaba. Pesquisador e escritor regional, registrou por cinco anos diversas manifestações culturais capixabas. Criador do canal CultureVox (YouTube), dedicado à Cultura Contemporânea, Experiências de Vida e Meio Ambiente. Integra o Coletivo Rede de Memórias de Cultura Popular.

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