A imersão do jornalista que percorreu os 14 km trocando experiências humanas com os romeiros
A expressão de fé acontece de formas inesperadas e diferentes. Ela se intensifica quando cada pessoa leva sua busca particular por Deus à uma manifestação pública. Neste caso, a uma caminhada católica que, neste ano, reuniu cerca de 1,2 milhão de pessoas.
Foi isso que observei na Romaria dos Homens, ocorrida no dia 11/04/2026, entre Vitória e Vila Velha, Espírito Santo. O evento é um dos pontos altos da festa, que celebra Nossa Senhora das Alegrias da Penha, padroeira do Estado.
Pessoas sorrindo e conversando, outras caladas rezando e, ainda, algumas derramando lágrimas de emoção, de forma discreta e silenciosa. Assim, católicos da capital capixaba, do interior e também de outros estados caminharam 14 Km entre as duas cidades.
O evento, que completou 71 anos de existência, lotou a praça e as ruas em frente à Catedral Metropolitana de Vitória. Romeiros acompanharam a missa em grandes telões. Após a bênção do bispo auxiliar Dom Andherson Franklin Lustoza de Souza, a romaria teve início às 18h.


Em um momento de forte emoção. Dom Andherson seguiu a caminhada logo à frente da imagem de Nossa Senhora da Penha. O Rede de Memórias, que registra as festas populares capixabas, esteve presente por meio da coordenadora Zanete Dadalto e deste jornalista.

Eu fiz todo o percurso e percebi que este foi um evento de exceção. Em seis anos de cobertura profissional, foi a primeira vez em que senti cansaço, apesar do ânimo e da satisfação pessoal de atuar em contato com tão grande público, com somente um foco: a santa católica.
Foi uma noite de manifestação em louvor, cuja história é marcada por inúmeros relatos de milagres registrados nos documentos do Convento da Penha. Da saída na Catedral Metropolitana de Vitória até a Segunda Ponte, que liga os dois municípios, a imagem seguiu levada com cuidado. A capital capixaba parou. Cada metro quadrado das ruas nas quais ela passou estavam ocupados por romeiros.


A imagem deslocou-se lentamente e parou pelo menos quatro vezes. Nos anos anteriores, o trajeto era feito em ritmo acelerado e os romeiros que saiam na frente, andavam rapidamente para chegar no local da missa e ocupar melhores espaços. Desta vez, o deslocamento foi lento. Quem saiu à frente da imagem caminhou devagar.
A primeira parada ocorreu em frente ao Viaduto Caramuru, onde a imagem foi recebida pelo canto de um coral. A fé se misturou à emoção. Em outro momento, ela parou sobre a Segunda Ponte, que liga a capital Vitória, ao município de Vila Velha. Um helicóptero da Polícia Militar do Espírito Santo pairou sobre o local, gerando uma boa expectativa, mas nada de especial ocorreu.

A santa atravessou a Segunda Ponte e entrou em solo de Vila Velha. Teve início uma chuva que foi aumentando gradativamente. Na altura do cruzamento da Avenida Carlos Lindenberg com a Rodovia Darly Santos, a chuva caiu em grande volume. Ainda assim, os romeiros, destemidos, mantiveram-se firmes na fé e na oração.

Imagem de Nossa Senhora da Penha passando sobre a Segunda Ponte, que liga as cidades de Vitória e Vila Velha – ES. Foto: Tony Silvaneto e Rede de Memórias.
Não diminuíram o ritmo, não se dispersaram e seguiram unidos em direção à missa na Prainha, em Vila Velha. Naquele ponto, restavam aproximadamente 6,5 Km de caminhada.
Obras na Avenida Carlos Lindenberg estreitaram a passagem. Os romeiros à frente da imagem continuaram devagar, até mesmo devido a pista molhada e os obstáculos do caminho. Os trios elétricos gospel não puderam acelerar. A imagem fez o percurso em aproximadamente cinco horas. Uma média de 2,8 km por hora.
Fazer jornalismo junto ao povo, em meio à multidão. Em contato direto com pessoas, padres e a comissão organizadora, permitiu-me sentir a energia pulsante do evento. Conversar, observar como as pessoas se expressam, como pensam e o que buscam humaniza qualquer atuação profissional.



Desta forma, fotos e vídeos carregam sensibilidade. Posso afirmar que foi impossível não reservar momentos para a minha própria fé, deixando a câmera e o gravador de lado. A esse processo, chamo de “jornalismo intimista”.
Entrevistei três pessoas para compreender a relação delas com a Romaria dos Homens.
O agente de viagens Erick Gomes, de 22 anos, carioca, mudou-se há seis meses para Vila Velha e participou pela primeira vez. Demonstrou entusiasmo:
“Tô amando acompanhar a santa. Tô amando acompanhar tudo. Estou achando o Espírito Santo incrível. Não há como comparar este lugar maravilhoso com o lugar em que eu nasci”, revelou o agente.

Questionado sobre a emoção e a rápida ligação com a devoção local, respondeu:
“Eu resolvi experimentar como é uma romaria, pois todo mundo estava me indicando, dizendo que eu iria gostar. Então, eu vim agradecer a oportunidade de estar morando aqui”, informou Erick.
Explorando mais profundamente a emoção que ele expressava ao falar comigo, eu questionei sobre a fé:
“Eu agradeço pela minha vida e pela oportunidade de estar aqui. Agradeço por estar pisando nesse chão. Já conhecia o estado há quatro anos e nunca tinha conseguido me mudar. Dessa vez, minha mãe e eu viemos. Consegui chegar aqui, então eu vim agradecer a Nossa Senhora da Penha”, disse o jovem romeiro.

Logo à frente, observei duas jovens felizes ao reacender uma vela que havia se apagado. Em gesto de fé, muitos caminham rezando com velas acesas. Mais do que expressão religiosa, a cena compõe um quadro humano que desperta contemplação. Aproximei-me para entrevistá-las.

A técnica em enfermagem Iasmin de Souza, de 23 anos, moradora de Cariacica, participava da romaria em razão do primeiro emprego na área da saúde:
“Agradecer! Estou de férias. São minhas primeiras férias no trabalho que consegui. Então estou vindo para agradecer”, disse a profissional.
Ao lado dela, a irmã, Lucimara Amaral, de 44 anos, revelou outro propósito:
“Os motivos são a gratidão e a missão de Nossa Mãe. Eu também vim pedir sabedoria para continuar a lida aqui embaixo, de ser mãe assim como ela é”, afirmou Lucimara.
A missa aconteceu em meio a uma chuva moderada e, de maneira surpreendente, parou após o evento terminar. O retorno ao lar foi tranquilo, a gigantesca multidão se dissipou em paz. Ao alto, todos puderam observar no céu escurecido, a visão iluminada do Convento da Penha.











