O escritor Benedito Ruy Barbosa morreu nesta terça-feira (7), aos 95 anos, vítima de complicações de uma insuficiência renal crônica. Ao longo de mais de seis décadas de carreira, ele assinou mais de 20 novelas e se tornou um dos maiores nomes da teledramaturgia brasileira, com obras marcadas pela vida no campo e pelas tensões sociais do interior do país.
Nascido em 17 de abril de 1931 em Gália, no interior de São Paulo, Ruy Barbosa cresceu na vizinha Vera Cruz, cidade para onde a família se mudou logo depois de seu nascimento. O pai mantinha uma livraria, uma tipografia e um jornal local, e foi em meio a esse ambiente, e também na convivência com filhos de imigrantes que trabalhavam nas lavouras de café da região, que o futuro autor desenvolveu o gosto por contar histórias.
A morte precoce do pai, quando o escritor ainda era criança, marcou profundamente sua trajetória. Mais velho entre cinco irmãos, precisou assumir responsabilidades cedo: começou a trabalhar aos 12 anos como caixeiro, escrevente de cartório e vendedor de jornais, chegando a auxiliar de contabilidade em uma empresa exportadora de café.
Ainda adolescente, mudou-se para São Paulo em busca de oportunidades, período em que enfrentou dificuldades financeiras significativas. Anos depois, uma transferência de trabalho o levou ao norte do Paraná, onde teve seus primeiros contatos com a produção de conteúdo, atuando em programas de rádio e colaborando com um jornal local.
Foi nessa fase que escreveu o romance que marcaria o início de sua carreira literária, inspirado por uma das maiores geadas já registradas no país. A obra seria adaptada para os palcos anos mais tarde por um dos grupos teatrais mais influentes da época.
De volta a São Paulo, passou por redações de jornais e atuou como repórter esportivo, tendo acompanhado de perto o início da trajetória de um jovem Pelé antes de sua consagração mundial.
O sucesso de sua estreia literária abriu portas para o mercado publicitário e, posteriormente, para a televisão. Ao lado de outros nomes fundamentais da dramaturgia nacional, Ruy Barbosa ajudou a consolidar a telenovela como formato capaz de refletir a identidade e as contradições do país, em contraste com as tramas de inspiração estrangeira então predominantes.
Sua marca registrada era o retrato do Brasil rural: a poesia do cotidiano caipira convivia, em suas histórias, com temas como a violência no campo e a luta pela reforma agrária, bandeira que defendeu publicamente ao longo da carreira.
Passou por diferentes emissoras ao longo dos anos e emplacou sucessos marcantes em diversos horários, incluindo produções para o público infantil inspiradas na obra de Monteiro Lobato. Um de seus trabalhos, ambientado no Pantanal, é lembrado até hoje por ter alcançado um feito considerado improvável para a época: superar a audiência da emissora líder do país, o que acabou lhe garantindo, finalmente, espaço no horário nobre da TV brasileira.
Suas tramas do horário nobre frequentemente carregavam recados políticos, sobretudo em defesa dos trabalhadores sem-terra. O autor teve proximidade histórica com a esquerda brasileira, tendo se engajado com ideias comunistas na juventude, embora depois tenha manifestado desilusão com disputas internas de partidos aos quais se aproximou.
Casado com Marilena, teve quatro filhos, que acabariam trabalhando com ele na produção de suas novelas ao longo dos anos. Netos também se envolveram posteriormente na assinatura de remakes de seus maiores sucessos.
Avesso a colaboradores em seus textos, Ruy Barbosa era conhecido por escrever praticamente sozinho, mesmo em meio a problemas de saúde recorrentes ao longo da carreira, que iam de exaustão a internações. Ele costumava comparar a estrutura de suas histórias a um castelo de cartas: tirar uma peça poderia comprometer o conjunto todo.
Sua última novela como autor foi ao ar em 2016, quando ele já tinha 85 anos. Mesmo depois de parar de escrever, acompanhou de perto os remakes de seus trabalhos mais aclamados, muitas vezes conduzidos por familiares.
Benedito Ruy Barbosa deixa um legado que ajudou a definir a linguagem da telenovela brasileira e a levar o Brasil rural, com suas belezas e contradições, para dentro da casa de milhões de telespectadores.







