“A questão é que outros retrovírus coexistem conosco há mais de um milhão de anos”, afirma o neurologista. “Entretanto, o HIV existe apenas há cerca de 100 ou 200 anos. Portanto, ainda está em processo de domesticação.” No entanto, ainda está causando problemas. Ao se infiltrar em vários órgãos e tecidos estratégicos, ele destrói uma quantidade significativa de células antes de se estabelecer.
No sistema nervoso central, o HIV é detectado até mesmo em células que não possuem o receptor que normalmente utiliza como porta de entrada, como os astrócitos, que alimentam os neurônios e realizam uma verdadeira limpeza cerebral.
“No cérebro, o HIV altera seu comportamento”, observa o neurologista. “Ele deixa de se replicar rapidamente. Entretanto, isso não significa que ele permanece inativo, como pode ocorrer nos gânglios do corpo. Ele está constantemente liberando proteínas inflamatórias”, explica o médico. “E, no fundo, essa inflamação é o que, dia após dia, compromete o funcionamento cerebral. Por essa razão, muitos pacientes apresentam declínio cognitivo.”
Atualmente, os médicos denominam essa condição de desordem neurocognitiva associada ao HIV (HAND, na sigla em inglês). Ela pode variar de leves dificuldades em manter a atenção e lembrar de informações simples até demência severa.
“Nos primórdios da pandemia de HIV/Aids, acreditava-se que os casos de demência eram causados por um vírus que se aproveitava da queda das defesas imunológicas, o citomegalovírus. Mais tarde, surgiu a suspeita de que eram resultado da toxicidade do AZT, o primeiro tratamento utilizado para combater a infecção. Contudo, foi então que finalmente percebemos que os problemas de cognição eram realmente provocados pelo HIV”, recorda Augusto Penalva.
Isso ficou evidente quando cientistas demonstraram que o declínio cognitivo ocorria em pacientes com carga viral indetectável no sangue, mas que apresentavam vestígios do HIV no líquor, o fluido que envolve o sistema nervoso.







