“A IA desempenhará um papel central nos tempos finais.”
Já se passou mais de um ano desde a profecia de Mitchell. Diversos outros cristãos influentes, em espaços que vão do TikTok e dos podcasts ao mercado editorial, debatem se a inteligência artificial poderia atuar como catalisadora da destruição do planeta.
O megapastor americano Greg Laurie questiona: “A IA pode fazer parte de um cenário de fim dos tempos?” E acrescenta: “É muito possível.”
Outro pastor americano, Mike Signorelli, adverte que a IA “é parte integrante de como você chega ao Anticristo”.
Todos reconhecem que a IA pode ser empregada para o bem. Contudo, também advertem sobre o Anticristo, representante de Satanás, que poderia usá-la para seduzir as pessoas a adorá-lo no lugar de Deus.
No cristianismo, a expressão “fim dos tempos” diz respeito às profecias sobre os últimos dias da Terra. O Anticristo é tido como inimigo de Deus, que assume o poder até ser derrotado por Jesus em batalha.
Essas ideias se apoiam sobretudo no último livro da Bíblia, o Apocalipse. A obra traz descrições intensas e assustadoras, incluindo “a besta que emerge do mar”, com sete cabeças e dez chifres, que muitos acreditam representar o Anticristo.
Muitos cristãos interpretam o Apocalipse como um texto metafórico. Alguns sustentam que ele aborda a perseguição da Igreja primitiva pelo Império Romano.
Já outros o encaram como profecia. E há quem afirme que a inteligência artificial seria a “segunda besta” do livro, um “falso profeta” que engana a humanidade para que venere o Anticristo — ou, até mesmo, que a IA seria o próprio Anticristo.
A IA está, sem dúvida, transformando o mundo e gerando temores quanto ao seu poder e à sua capacidade.
O ex-pesquisador da Anthropic Jacob Coxon afirmou que “todos nós poderemos morrer em futuro muito próximo”, e empresários da tecnologia alertam para os riscos caso o ritmo do desenvolvimento da IA não seja reduzido.
Segundo a professora Noreen Herzfeld, da Escola de Teologia e Seminário de São João, nos Estados Unidos, “a discussão do fim dos tempos floresce em épocas de grandes mudanças”. Ela é especializada em IA e na ética da tecnologia.
A professora explica que essa discussão “oferece às pessoas uma forma de compreender o estresse da sociedade, de sentir que não é algo simplesmente aleatório, que faz parte dos planos de Deus”.
Herzfeld compara o impacto da IA sobre o emprego à revolução industrial, que trouxe elevados níveis de incerteza e ansiedade.
Segundo ela, “estamos vivendo em uma época de rápidas mudanças”. “E estamos observando a tecnologia de computadores [evoluir] com muito mais rapidez do que no passado.”
“Ouvimos que esta tecnologia irá tomar os empregos, que irá mudar tudo, revolucionar tudo. Esse tipo de mudança acelerada é muito difícil para as pessoas”, acrescenta.
Também existe uma sensação de perda de autonomia. A IA está presente na maior parte de nossas vidas, queiramos ou não — e os alertas do Vale do Silício “afirmam que existe uma chance de 10%, de 15%, de que a IA nos destrua a todos”.
Ela afirma: “Se as pessoas puderem sentir que Deus ainda está no controle, que ainda existe um propósito para isso, que foi algo estabelecido, elas poderão dizer: ‘Como quero enfrentar este momento? O que devo fazer? Como faço para me posicionar do lado do bem e não do mal?’”

Aproximadamente 40% dos adultos americanos creem que estamos vivendo o fim dos tempos, conforme pesquisa do Pew Research Center de 2022. Entre os cristãos, a proporção sobe para 47%.
Segundo especialistas, esse é um tema que se repete década após década, projetando as ansiedades de cada época na figura do Anticristo.
O professor Jeffrey C. Pugh, da Universidade de Elon, no Estado americano da Carolina do Norte, conta que sua avó “achava que [o ex-presidente americano] Franklin Delano Roosevelt [1882-1945] fosse o Anticristo”.
Roosevelt assumiu a presidência em 1933, no contexto da Grande Depressão, período marcado por pobreza e profundas incertezas. Sua resposta, o New Deal, foi vista como revolucionária.
Para Pugh, a visão de sua avó “reflete a irracionalidade de tentar mapear os eventos atuais em uma narrativa bíblica específica”.
O tema do fim dos tempos é recorrente nos Estados Unidos, mas ganhou impulso nos anos 1960.
Pugh explica que “foi uma época específica de convulsão social”. “Tivemos dois líderes políticos assassinados [nos EUA] — três, se contarmos Martin Luther King Jr. [1929-1968].”
“Tivemos cidades em chamas devido à ira dos negros contra a opressão branca. Tivemos crianças começando a se expressar como nunca antes”, afirma ele, a exemplo dos protestos contra as guerras e da contracultura da juventude.
Tecnologias assustadoras
Na década de 1970, o livro A Agonia do Grande Planeta Terra, do escritor evangélico americano Hal Lindsey (1929-2024), tornou-se popular. A obra relaciona explicitamente as profecias do fim dos tempos a eventos e à geopolítica daquele período.
Segundo Pugh, “a partir daquele momento, toda agitação social passou a ser atribuída à ideia do fim dos tempos”.
Durante a Guerra Fria (1947-1991), a União Soviética (1922-1991) e o comunismo eram vistos como o Anticristo. Após os ataques de 11 de setembro de 2001, para alguns cristãos, ele passou a ser o Islã.
Pugh explica que “os medos de todas as eras costumam ser projetados nessas narrativas” do fim dos tempos.
O pastor australiano Stephen Driscoll assina o livro Made in Our Image: God, Artificial Intelligence and You (“Feita à nossa imagem: Deus, a inteligência artificial e você”, em tradução livre). Ele não sabe exatamente quem ou o que é o Anticristo.
Para Driscoll, a IA, “uma das tecnologias mais assustadoras que já criamos”, é um “candidato plausível”. No entanto, empregar a Bíblia para tentar prever o futuro não é particularmente produtivo.
Segundo Driscoll, “a Bíblia oferece muito mais do que simples especulações sobre quem é o Anticristo”. Ela “nos prepara para as mudanças, oferece uma teologia de trabalho e ferramentas para sermos realistas sobre o alinhamento da IA”.
Obedeça a Deus
Driscoll prossegue afirmando que o Velho Testamento “fala sobre inovações da tecnologia agrícola, como máquinas debulhadoras e coisas diferentes… e diz que tudo isso vem do Senhor”.
“Deus é um Deus de sabedoria tecnológica”, afirma, com controle final “sobre todas as eras tecnológicas, da idade da pedra até o bronze, o ferro, o aço, a idade nuclear, até a IA”.
No Velho Testamento, Daniel, no exílio, convive com vários impérios e diferentes tecnologias, segundo Driscoll. Ele “não consegue controlar os tempos e impedir os impérios futuros, mesmo se eles trouxerem tragédias”.
“Mas ele [consegue] ter fé e esperança, viver bem, amar as pessoas e obedecer a Deus onde se encontrar. Ele não pode controlar os tempos, mas consegue viver bem”, continua.
Portanto, estejamos ou não diante do fim do mundo, em última análise, tudo terminará bem.
Segundo Driscoll, “nem tudo o que acontece é bom”. Mas o ponto central é que “Deus é bom — e Ele está no controle”.







