O dia começa com a televisão ligada e o café sendo preparado ao som das notícias. No trajeto até o trabalho, uma música ajuda a encarar o metrô cheio ou a enfrentar o trânsito. Ao chegar em casa, as redes sociais se abrem e a pessoa salta de um estímulo a outro em questão de segundos. E pode até haver quem precise de algum ruído ao fundo antes de conseguir adormecer.
Esse panorama pode ganhar outras formas conforme a rotina de cada um, mas escancara um hábito que se torna cada vez mais frequente: ocupar o silêncio assim que ele aparece. “Vivemos ainda em uma cultura que oferece estímulos o tempo todo. Aos poucos, podemos perder a familiaridade com a experiência de simplesmente estar”, afirma a psicóloga Claudia Melo.
Muitos estímulos cansam o cérebro
Nesse ritmo, o cérebro, encarregado de escolher a todo momento o que merece atenção e o que deve ficar em segundo plano, tem a sensação de estar sempre ocupado — o que provoca cansaço e, em determinadas situações, pode contribuir para o pensamento acelerado.
Quando o hábito de receber informações em sequência se instala, a habilidade de manter o foco em um único assunto também tende a sofrer. “Terminamos um vídeo e logo abrimos outro, escutamos uma mensagem enquanto damos conta de outra tarefa, colocamos um podcast enquanto caminhamos. Sobra pouco tempo para que uma experiência se encerre internamente antes de a próxima começar”, observa Claudia.
Encontrar o próprio mundo interno
A ausência de silêncio atrapalha experiências valiosas, como a contemplação, a reflexão e a percepção do próprio mundo interno. Isso importa porque nem tudo o que é vivido é elaborado no exato instante em que acontece.
“A mente também precisa de tempo para associar, organizar, lembrar, compreender e dar significado às experiências.”
Começar esse processo, porém, pode causar angústia, justamente porque os ruídos escondem o que se passa por dentro. Na medida em que eles diminuem, lembranças, preocupações, incômodos ou desejos que vinham sendo postergados — e até acumulados — ganham espaço. “Isso não quer dizer que evitamos tudo isso de forma consciente. Boa parte dessas estratégias acontece sem que a pessoa se dê conta”, esclarece a especialista.
Para lidar com o receio de se deparar com essas emoções, Claudia lembra da importância de compreender que sentir não equivale a ser dominado pelo que se sente: uma emoção pode ser desconfortável e, mesmo assim, ser suportada, compreendida e elaborada.
Quando a intensidade é grande, contudo, essa distinção se faz necessária. Caso o silêncio desperte uma angústia que não passa, lembranças traumáticas ou um sofrimento difícil de suportar, a psicoterapia pode ser um espaço indispensável para esse contato.
Por onde começar?
O primeiro passo é resistir à vontade de buscar uma distração de imediato e avançar aos poucos. Com o tempo, o silêncio costuma deixar de ser sentido apenas como ausência e passa a ser experimentado como um espaço agradável para perceber, pensar, sentir e descobrir coisas sobre si que o excesso de ruído não deixava escutar, afirma a especialista.
Também não é preciso encará-lo como algo ruim. Ao contrário: mudar a perspectiva e enxergar esse momento como uma oportunidade de cultivar curiosidade sobre o universo particular que habita em você torna o processo mais prazeroso. Para auxiliar nessa jornada de autoconhecimento e desaceleração, a especialista reuniu cinco dicas, confira:
- Comece pequeno: reserve de três a cinco minutos por dia sem televisão, música, podcast ou celular;
- Escolha uma atividade cotidiana para fazer sem estímulos adicionais: pode ser tomar café, banho, arrumar a cama ou fazer um pequeno trajeto. Experimente realizar, com presença e intenção, apenas aquela atividade;
- Observe a vontade de preencher o silêncio: quando surgir o impulso de pegar o celular ou ligar alguma coisa, espere um pouco e perceba o que você está tentando interromper naquele momento. Às vezes, essa pergunta revela muito;
- Não transforme o silêncio em mais uma cobrança: a mente vai produzir pensamentos, lembranças e preocupações. Silêncio externo não significa necessariamente silêncio mental;
- Experimente colocar em palavras o que aparece: depois de alguns minutos, se fizer sentido, anote uma frase sobre o que percebeu. Pode ser algo simples: “Hoje percebi que estou cansada”, “lembrei de alguém”, “fiquei ansiosa”, “tive vontade de sair dali”. Após se dedicar a sentir, nomear uma experiência já é uma maneira de começar a elaborá-la.
Voltar a atenção para o presente
Durante o Clube de Leitura para assinantes da Vida Simples, o psiquiatra Diogo Lara também apresentou técnicas capazes de tornar esse momento mais agradável. No bate-papo, uma leitora contou sobre a dificuldade de se “policiar” para garantir alguns minutos de silêncio no meio da rotina.
Lara explicou que, na tentativa de se policiar, a própria palavra já carrega pressão e sentidos negativos. É como pedir a alguém que não pense em nada: provavelmente a pessoa travará uma batalha interna para cumprir a missão. Diante disso, o especialista sugere fechar os olhos e se perguntar: sem usar palavras, como percebo que estou vivo?
Talvez você note a respiração, os barulhos ao redor, o peso da gravidade. Nesse caso, o foco se concentra nas sensações. “Simplesmente por eu fazer essa pergunta, a experiência interna já não mudou alguma coisa agora? Você já não se sentiu um pouquinho mais vivo mesmo?”, observou.
Uma outra técnica consiste em escolher um ponto central para olhar, sem deixar de perceber o que aparece na visão periférica. Em seguida, note a amplitude, as luzes que vêm de direções diferentes e tudo o que está ao seu redor. Assim, a atenção se volta para o ambiente, o que ajuda a permanecer mais presente e imerso naquele instante.







