Existe um tipo de feminista que mora exclusivamente na fantasia dos menos “desavisados”. Ela tem sovaco cabeludo, não se depila, não se cuida, faz xixi na rua e, aparentemente, acorda todos os dias decidida a odiar homens e a estética no café da manhã. Ninguém nunca encontrou essa mulher pessoalmente, mas todo mundo conhece alguém que “viu uma dessas” por aí.
O curioso é que esse estereótipo funciona como um atalho mental confortável que cumpre uma função social importante: ridicularizar o feminismo para não precisar entendê-lo. Se eu reduzo uma luta política a um estilo de vida caricato, não preciso levar a ideia a sério. Muito mais prático, não é? Vira uma questão de aparência, higiene e gosto pessoal, e não de direitos, história ou estrutura social.
As pessoas insistem em não dissociar as coisas. Como se lutar por igualdade viesse com um “dress code” obrigatório. Como se questionar o machismo exigisse abrir mão do batom, da vaidade, da depilação e, de preferência, do bom senso. Como se fosse impossível ser feminista e gostar de se cuidar.
Mas o feminismo não é uma roupa. Não é um corte de cabelo. Não é um método contraceptivo, nem um estilo estético alternativo. É consciência. É entendimento. É saber que mulheres dirigem, trabalham, votam, ganham (ou deveriam ganhar) seu próprio dinheiro porque alguém antes brigou por isso. As pessoas fazem uma confusão conveniente entre estética e ideologia. Como se houvesse um uniforme obrigatório: zero vaidade, zero prazer, zero espelho. Batom, salto e depilação viram prova de traição à causa, enquanto machismo estrutural segue passando despercebido, de terno e gravata e confundindo a cabeça das próprias mulheres.
E aqui está o plot twist que incomoda muita gente: até as mulheres que dizem “não sou feminista” são, em alguma medida, feministas. Porque trabalham fora, porque não pedem permissão ao marido, porque têm conta bancária, porque escolhem se querem ou não filhos. Direitos não perguntam se você gosta do rótulo antes de existir.
E sim, eu sou feminista! Feminista depilada. Com depilação a laser. Não por submissão, não por medo do olhar masculino, não para caber no estereótipo oposto, mas porque o meu corpo não é um panfleto ambulante nem um campo de batalha simbólico para conforto de terceiros. Não faço isso para agradar ninguém, nem para contrariar ninguém. Faço porque é uma escolha minha! Escolha: essa é a palavrinha simples que o feminismo defende tanto e que ainda assusta tanta gente, que insiste em não compreender.
No fim das contas, o problema nunca foi o sovaco. É a autonomia. E essa, cabeluda ou lisa, segue incomodando do mesmo jeito. Porque mulher que escolhe, seja manter, tirar, exibir ou esconder, continua sendo uma ameaça. Essa, definitivamente, não dá pra depilar.






