A ampliação do mercado de cosméticos infantis e a proliferação de vídeos em redes sociais com rotinas de beleza para crianças e adolescentes despertaram preocupação entre profissionais de saúde.
Levantamento da consultoria The Benchmarking Company aponta que 69% das meninas e 50% dos meninos com menos de 10 anos já mostram interesse por esses produtos. Ainda assim, o fenômeno envolve riscos à saúde física e emocional.
Contribuem para esse cenário a vontade de imitar os adultos, a busca por pertencimento e tendências globais que fazem muitas crianças brasileiras usarem cosméticos de forma precoce e sem necessidade clínica.
“A fisiologia infantil exige proteção, não intervenção. A dermatologia demonstra que a pele da criança produz pouco sebo, é fina, sensível e vulnerável. Como é muito permeável, não deve receber fórmulas agressivas que comprometam seu equilíbrio natural”, explica Andressa Vitória Tonete, coordenadora do curso de Estética e Cosmética do Centro Universitário Integrado de Campo Mourão (PR).
Danos à pele e à saúde mental
Diferentemente do que indicam vídeos na internet, as particularidades biológicas da criança tornam desnecessários rituais complexos. Até os 12 anos, a barreira cutânea e a imunidade da pele ainda estão se formando.
A aplicação de ativos comuns em fórmulas para adultos — como ácidos esfoliantes, retinol e agentes clareadores — pode atingir profundamente a epiderme infantil, provocando:
- Sensibilização grave e irritação cutânea;
- Queimaduras químicas e dermatites de contato;
- Risco de infecções e intoxicação por absorção ou ingestão acidental;
- Alterações hormonais causadas por desreguladores endócrinos (como parabenos e ftalatos).
Além dos prejuízos dermatológicos, a saúde mental também é impactada. Estudos científicos relacionam a cobrança precoce por padrões estéticos a quadros de ansiedade, insatisfação corporal, depressão e maior risco de transtornos alimentares na adolescência.
Do comportamento à comercialização
Conforme Andressa, que também é especialista em Estética Avançada e Saúde Pública, imitar os pais é um processo natural do desenvolvimento. Esse hábito, porém, ganhou apelo mercadológico com a massificação das mídias digitais.
Legislação e ética
A publicidade de produtos voltada a menores de 12 anos é considerada abusiva pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), pelo Código de Defesa do Consumidor e pelo Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente.
“Contudo, marcas burlam a regra usando influenciadores mirins para promover maquiagens, sabonetes, hidratantes, perfumes e isso é perigoso”, destaca Andressa.
Guia prático de cuidados por idade
Para orientar as famílias e prevenir complicações, a especialista recomenda manter a rotina dermatológica o mais simples possível:
- Até os 6 anos: Higienização pontual com sabonete suave ou hipoalergênico e protetor solar infantil. Ácidos, fragrâncias sintéticas ou esfoliantes são proibidos.
- De 6 a 12 anos: Rotina limitada a três passos: limpeza suave, hidratação neutra e proteção solar infantil. Novos produtos exigem avaliação médica.
- A partir dos 12 anos: Com a puberdade, o skincare pode incluir itens específicos (como controle de oleosidade), desde que prescritos por pediatra ou dermatologista e acompanhados pelos pais.
Atendimento comunitário
Para apoiar as famílias com orientações profissionais, a clínica-escola de Estética e Cosmética do Integrado (Av. Irmãos Pereira, 870, Centro, Campo Mourão – PR, tel. 44 3016-8690) oferece atendimentos realizados por graduandos, sob supervisão dos professores, com cobrança de valores simbólicos.
“Em 2026 já foram 843 atendimentos, contra 1.292 no ano passado. Em crianças, as práticas são restritas a massagens relaxantes solicitadas pelos pais, sem fins dermatológicos ou corretivos. Já os adolescentes contam com acompanhamento específico para questões de pele típicas da puberdade, como a acne”, complementa Andressa Vitória Tonete.







