A transformação digital capixaba, o papel da tecnologia no crescimento econômico e as estratégias para consolidar um “Estado Inteligente” estiveram em foco no painel inaugural do Tech Gov Fórum ES, evento sediado em Vitória. Intitulado “Do Estado Conectado ao Estado Inteligente: Como a Tecnologia Impulsiona o Desenvolvimento Econômico do Espírito Santo”, o debate contou com a participação de lideranças estaduais, especialistas em administração pública e gestores dedicados à inovação e à digitalização de serviços.
A discussão evidenciou como o governo capixaba utiliza ferramentas tecnológicas, análise de dados e a virtualização de serviços para aumentar a eficiência gerencial, aperfeiçoar métricas sociais e reforçar a capacidade de captar investimentos. A mesa foi conduzida por Marcelo Azeredo Cornélio, diretor-presidente do Prodest, que enfatizou a melhora na performance do estado nos últimos períodos.
“O Espírito Santo experimenta, há algum tempo, uma evolução na sua aptidão de gerar resultados. Esse não é um movimento recente, mas o resultado de um percurso iniciado na gestão Casagrande [José Renato Casagrande], e que perdura até o momento”, declarou. Ele informou que a unidade da federação já oferece mais de 325 serviços integralmente digitais à população e implementou a primeira unidade 100% digital do Detran no país. Cornélio também lembrou que o estado capixaba foi o pioneiro nacional a assegurar conectividade de fibra óptica em toda a sua extensão territorial.
“Além de automatizar processos, o Espírito Santo estabeleceu o uso da tecnologia no campo da segurança pública, em especial por meio do programa Estado Presente. Essa conquista não ocorre de maneira isolada. Requer liderança política, competência técnica e articulação entre o poder público e a comunidade”, afirmou.
O ex-governador José Renato Casagrande recordou o início do projeto de modernização ainda no seu primeiro mandato, entre 2011 e 2014, período em que foram iniciados os aportes em infraestrutura digital e fibra óptica. “Naquele momento, começamos a montar a base. Quando retornei em 2019, o cenário havia se transformado e precisávamos inserir o estado nessa nova realidade eletrônica”, disse.
Conforme Casagrande, a aceleração da transformação digital ocorreu durante a crise sanitária, com o reforço do Prodest e do Detran. “Injetamos recursos no Prodest e no Detran para lidar com a pandemia. Instituímos um fundo soberano de inovação, integramos inteligência artificial aos serviços do governo e atualmente colhemos frutos notáveis com biometria em múltiplos setores”, enfatizou.
O ex-governador acrescentou que o estado conseguiu unificar dados públicos em uma única plataforma e criou uma subsecretaria dedicada a uniformizar aparelhos, sistemas e tecnologias. “Atualmente, agendamos consultas e exames via WhatsApp. A tecnologia está se consolidando como uma aliada dos serviços estatais”, afirmou.
Ao tratar dos efeitos econômicos da digitalização, o secretário de Estado de Desenvolvimento, Rogério Salume, declarou que a tecnologia ultrapassou o campo da inovação para se configurar como uma tática de desenvolvimento econômico. “Se hoje o Espírito Santo figura entre os estados que mais recebem investimentos, é porque iniciamos essa trajetória há certo tempo”, disse.
Para ele, a sinergia entre organização administrativa, base tecnológica e rapidez no atendimento ao investidor tornou a região mais competitiva. “Atualmente, sou um vendedor de alto padrão do Espírito Santo. Somos capazes de oferecer respostas céleres ao empresariado. Os investidores percebem que o estado conta com tecnologias que minimizam obstáculos e facilitam soluções”, apontou.
Salume ainda mencionou o recente repasse de US$ 72 milhões do Banco Mundial para o estado e citou a chegada da fabricante chinesa GWM como exemplo do apelo gerado pelo ambiente tecnológico capixaba. “A GWM declarou que optou pelo Espírito Santo devido ao ambiente de gestão, tecnologia e capacidade de resolver problemas”, afirmou.
O subsecretário de Transformação Digital do governo estadual, Victor Murad, detalhou que o Espírito Santo realizou uma transição estrutural: do padrão analógico para o digital e, agora, para o inteligente. “A população já estava no mundo digital, mas o governo ainda era excessivamente burocrático”, pontuou.
De acordo com Murad, um dos primeiros desafios foi estruturar a base de informações governamentais. “Ao iniciarmos o uso de inteligência artificial, identificamos 26 mil planilhas de Excel espalhadas pelos órgãos. Precisávamos converter esses dados em informação organizada”, explicou.
Ele salientou que a mudança exigiu alterações culturais profundas na administração pública. “O principal movimento foi cultural, a disposição para agir. Cada órgão percorreu sua própria jornada de transformação”, detalhou. Murad adiantou que o próximo passo do executivo será aprimorar a governança de dados e expandir a oferta de serviços públicos de forma proativa.
“Possuíamos serviços distribuídos em 58 sites. Unificamos tudo em um único portal, com login unificado e suporte do WhatsApp do governo para atingir cidadãos com menor familiaridade digital”, destacou, revelando que a meta atual é implementar um “gêmeo digital” do cidadão dentro da plataforma pública estadual. “Esse agente de inteligência artificial vai identificar os serviços pertinentes àquela pessoa e apresentar soluções de forma antecipada. Nesse momento, estaremos efetivamente ingressando no governo inteligente”, concluiu.
Resultados práticos
O especialista em políticas públicas Pablo Lira ressaltou que a noção de Estado Inteligente vai além da tecnologia e depende da conexão entre gestão de informações, planejamento estratégico e talento humano. “Houve vontade política para instituir uma administração transparente, com planos, metas e objetivos. Existia uma meta concreta de migrar do governo analógico para o digital”, afirmou. Para ele, a digitalização possibilitou ao estado produzir informações estratégicas para aperfeiçoar políticas sociais, especialmente na segurança.
“O Espírito Santo ocupa hoje a quinta posição no Brasil em taxa de esclarecimento de homicídios. Em 2009, registrávamos uma taxa de 58 homicídios por 100 mil habitantes. Em 2025, atingimos 19 homicídios por 100 mil habitantes”, destacou. Para Lira, o emprego de inteligência policial, análise de dados e integração tecnológica tornou-se elemento central do programa Estado Presente. “Com mais segurança, criamos um ambiente de negócios mais atrativo. O investidor se sente mais motivado e o turismo também se fortalece”, avaliou.
Casagrande também vinculou o avanço tecnológico ao equilíbrio orçamentário do estado. Segundo ele, o Espírito Santo lidera rankings nacionais de gestão fiscal e potencial de investimento. “Atualmente, 20% de toda a receita do estado é direcionada a investimentos. A média brasileira é de 9%”, informou.
O ex-governador enfatizou que base tecnológica, segurança pública eficaz e qualidade dos serviços oficiais são elementos cruciais para atrair corporações. “A tecnologia é um ingrediente desse ambiente que desenvolvemos no Espírito Santo. Nosso estado não deseja ser apenas um consumidor de tecnologia”, declarou.
Ao projetar o futuro, Salume indicou três setores estratégicos diretamente beneficiados pela transformação digital: logística, transição energética e empresas nascentes. “O Espírito Santo possui vocação logística. Estamos investindo em portos, estradas, aeroportos e conexão ferroviária, tudo alicerçado em tecnologia”, disse, mencionando também a transição energética como uma chance histórica para a região.
“Estamos tratando de novos combustíveis, novas fontes e inovação no setor energético. Isso demanda tecnologia”, frisou. O secretário ainda afirmou que o Espírito Santo vive um período de fortalecimento do ecossistema de inovação. “Somos um berço de startups e estamos atraindo diversas companhias desse ramo”, salientou.
Encerrando o painel, Pablo Lira destacou que os dados recentes validam os progressos do Espírito Santo na área de administração pública e inovação. “O Centro de Liderança Pública apontou, nesta semana, o Espírito Santo como o primeiro colocado em gestão pública no Brasil”, afirmou. Ele lembrou que o estado também lidera, de forma proporcional, os investimentos em ciência, tecnologia e inovação em relação às contas públicas. “Dispomos de mecanismos de incentivo financeiro, investimentos em startups, empresas ESG e agora uma carteira focada na mitigação de eventos climáticos. Esses são indicadores que demonstram que estamos na direção correta”, finalizou.







