O Google intensificou sua crítica a uma proposta da União Europeia que pode forçar a empresa a dividir informações do seu mecanismo de busca com concorrentes, como companhias de inteligência artificial, a exemplo da OpenAI. Conforme um dos principais cientistas da organização, a iniciativa pode representar um perigo para a privacidade dos usuários que vivem no continente europeu.
As objeções foram levantadas por Sergei Vassilvitskii, pesquisador do Google desde 2012 e tido como uma das maiores autoridades técnicas da companhia. Ele deverá se encontrar com representantes antitruste da União Europeia para argumentar em favor de ajustes na proposta e recomendar a implementação de mecanismos de proteção mais rigorosos.
A ação está inserida no movimento regulatório da Comissão Europeia para fomentar a concorrência no ambiente digital. Recentemente, o órgão divulgou medidas iniciais que demandariam que o Google autorizasse o acesso de concorrentes a dados ligados às pesquisas na internet, entre eles classificações, consultas, cliques e visualizações, sob termos considerados “justos, razoáveis e não discriminatórios”.
A proposta ainda está em fase de deliberação e deve ser concluída nas próximas semanas, após diálogos com empresas e especialistas. O Google, no entanto, entende que as exigências excedem os limites regulatórios e podem prejudicar tanto a proteção quanto a privacidade dos usuários.
Na visão de Vassilvitskii, o ponto central está na metodologia que a Comissão Europeia planeja empregar para anonimizar os dados a serem compartilhados. O executivo aponta que as técnicas sugeridas seriam insuficientes para evitar que ferramentas contemporâneas de inteligência artificial consigam identificar indivíduos a partir das informações fornecidas.
“Estamos apreensivos, pois a estratégia da Comissão Europeia para anonimização não resguarda a privacidade dos europeus: nossa equipe de testes conseguiu reidentificar os usuários em menos de duas horas”, declarou o cientista em uma nota escrita, divulgada pela agência Reuters.
O Google pretende exibir aos reguladores os achados da sua equipe de “red team” de IA, um grupo interno focado em simular ataques e localizar falhas em sistemas. A empresa defende que tecnologias sofisticadas de inteligência artificial ampliam a chance de reconstrução de identidades mesmo em conjuntos de dados supostamente anônimos.
Embate com a regulação digital europeia
O debate surge em um contexto de fortalecimento da legislação digital na União Europeia, que nos últimos anos elevou a pressão sobre as grandes empresas de tecnologia para conter ações consideradas anticompetitivas. Essas iniciativas são parte da Lei dos Mercados Digitais (DMA), criada para restringir o domínio das plataformas de grande porte e abrir espaço para concorrentes menores.
Os reguladores europeus têm até 27 de julho para determinar quais responsabilidades serão impostas ao Google. Se a companhia desrespeitar as regras, poderá ser acusada de violar a legislação e sofrer multas de até 10% de sua receita anual global.







