As órteses cranianas, popularmente chamadas de capacetes para assimetria craniana, são confeccionadas sob medida para orientar o crescimento natural dos ossos do crânio do bebê em casos de deformidades moderadas e graves. Especialistas, porém, alertam que esse recurso vem sendo divulgado nas redes sociais para situações em que não seria necessário.
A seguir, entenda o que são as assimetrias cranianas e em quais circunstâncias o capacete é realmente indicado.
Dois tipos de assimetria
Conforme o neurocirurgião pediátrico José Erasmo Dal Col Lucio, do Sabará Hospital Infantil, as assimetrias cranianas correspondem a qualquer alteração no formato do crânio de uma criança. “Há duas formas principais. Uma é a assimetria provocada por uma deformidade posicional, que surge porque o crânio da criança é bastante maleável, muito fino. A outra é causada por uma doença, a craniossinostose, que acontece pelo fechamento precoce das linhas de crescimento do crânio”, detalha.
A assimetria posicional pode aparecer quando a criança permanece muito tempo em uma mesma posição — por isso o nome. Esse quadro costuma se manifestar entre o segundo e o terceiro mês de vida. “Essa é a forma mais frequente no dia a dia”, afirma o médico.
De acordo com Paulo Breinis, chefe da disciplina de neurologia infantil da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e membro titular da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI), estima-se que alterações desse tipo atinjam entre 20% e 40% dos lactentes, ainda que não exista um índice único estabelecido.
Segundo Lucio, a maior parte dos casos de assimetria posicional não traz prejuízos à saúde nem ao desenvolvimento dos bebês. Em situações muito raras e em graus bastante graves, podem ocorrer alterações dentárias ou auditivas no lado mais afetado. “Mas isso é infrequente”, reforça o especialista.
“Já na craniossinostose pode haver comprometimento do desenvolvimento neurológico em razão do aumento da pressão intracraniana. Como a doença altera o crescimento do crânio, o cérebro tem seu desenvolvimento restrito”, descreve Lucio.
Vale destacar que a craniossinostose é muito rara. Ela ocorre em aproximadamente 1 a cada 2.000 a 2.500 nascidos vivos, conforme Breinis. Isso equivale a apenas 0,04% a 0,05% dos casos.
Quando o uso do capacete é desnecessário
“Na maioria dos casos de deformidade craniana de causa posicional, o capacete não é indicado”, afirma Lucio. Segundo ele, a conduta adotada costuma incluir medidas posicionais e reabilitação com fisioterapia para que, conforme a criança cresce, a cabeça retorne ao formato habitual.
As medidas posicionais mencionadas pelo médico consistem em mudar a posição da criança no berço, impedir que ela passe longos períodos no bebê-conforto e incentivar o tummy time (tempo de bruços durante o dia). Com o crescimento, essas ações permitem que a cabeça se remodele de maneira natural.
Na mesma linha, Breinis afirma que “não existe evidência científica robusta para qualquer utilização dos capacetes nesses casos”. O problema, segundo ele, é a propaganda massiva dos equipamentos nas redes sociais, com versões vendidas a preços exorbitantes por clínicas que “se colocam como especializadas”.
“O pediatra e a família devem estar atentos porque estão usando uma ferramenta (capacete) que, na maioria das vezes, é desnecessária. Fazer fisioterapia, tummy time e reposicionamento posicional é suficiente para correção das assimetrias cranianas”, ressalta.
As reais indicações do acessório
O capacete tem relevância em determinadas situações. Uma delas ocorre quando a família segue as orientações de postura e fisioterapia, mas não há melhora no formato do crânio, segundo Lucio.
Outra indicação envolve o pós-operatório de craniossinostose (a doença caracterizada pelo fechamento precoce das linhas de crescimento do crânio). Lucio explica que, em bebês submetidos à cirurgia endoscópica precoce (antes dos 3 meses de vida), o capacete é indicado após o procedimento para ajudar no remodelamento da cabeça conforme a criança cresce.
Quando prescrito, o capacete deve ser usado por 23 horas por dia, com uma hora reservada para higienização e banho, por um período mínimo de três meses. O tratamento exige acompanhamento de equipe especializada para ajustes constantes.







