O antifeminismo está ganhando seguidores enquanto nós, mulheres, perdemos espaço

Eu queria fazer um apelo às minhas amigas, às minhas conhecidas e a tantas mulheres que admiro.

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Mulheres inteligentes, trabalhadoras, que acordam cedo, cuidam dos filhos, trabalham, cuidam da casa, dos pais, dos outros, e muitas vezes ainda encontram forças para cuidar de si mesmas. Mulheres que vivem jornadas duplas, triplas ou até maiores e que sabem, na pele, o quanto ainda precisamos lutar para ocupar os mesmos espaços e ter o mesmo reconhecimento.

Antes de repetirmos que o feminismo não é necessário, talvez seja importante lembrar de uma coisa muito simples: o direito de votar não nos foi entregue de bandeja. E, depois dele, o direito de sermos votadas também não.

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Foram mulheres que lutaram para que estivéssemos aqui.

Eu nunca vi homens se reunindo para pedir a diminuição dos próprios direitos. Vocês já viram?

Nunca vi um movimento de homens defendendo que eles deveriam estudar menos, trabalhar por menos dinheiro, ter menos autonomia ou abrir mão de espaços de poder conquistados ao longo da história.

Então por que nós, mulheres, estamos sendo convencidas de que lutar por igualdade é um problema?

Por que estamos comprando um discurso que nos coloca umas contra as outras?

E não estou falando de uma discussão abstrata.

Recentemente, uma mulher de apenas 23 anos foi eleita deputada estadual com quase 2 milhões de votos em São Paulo. Ela construiu parte importante de sua projeção política justamente em torno de um discurso declaradamente antifeminista e de afirmações que provocaram grande repercussão.

Entre as declarações atribuídas a ela estão a de que a licença-maternidade seria um privilégio, a defesa de que mulheres não deveriam votar, a ideia de que homens teriam o direito de ser agressivos e mandar mulheres de volta para a cozinha e a afirmação de que feminicídio não existe.

Independentemente de concordarmos ou não com ela politicamente, existe algo que merece nossa reflexão: ela pôde chegar ao Parlamento porque mulheres conquistaram o direito de votar e de serem votadas.

Essa é a contradição que me interessa.

Não é sobre a vida pessoal dela. Não é sobre a idade dela. Não é sequer sobre gostar ou não gostar dela.

É sobre o discurso.

Porque uma coisa é uma mulher não se identificar com o feminismo. Outra, muito diferente, é transformar a rejeição ao feminismo em plataforma política enquanto ocupa um espaço que também foi aberto pela luta de mulheres que vieram antes de nós.

E é justamente isso que me preocupa.

Eu não estou dizendo que todas as mulheres precisam pensar igual. Muito menos que precisamos concordar sobre política, religião, relacionamentos ou qualquer outra coisa.

Mas precisamos ter cuidado quando o discurso que ganha espaço é aquele que questiona a nossa própria capacidade, nossa autonomia e os direitos que outras mulheres lutaram para conquistar.

Quem me conhece e acompanha o Diário da Feminista Depilada sabe o quanto o machismo me incomoda desde criança.

Não foi uma descoberta recente.

Eu cresci percebendo situações que muitas de nós aprendemos a naturalizar: o que uma menina podia ou não podia fazer, como deveria se comportar, como deveria se vestir, falar, amar, envelhecer e ocupar o mundo.

E é por isso que me assusta ver o antifeminismo se transformar em conteúdo, engajamento, seguidores e, agora, também em voto.

Que mundo é esse em que atacar o feminismo virou uma estratégia para ganhar visibilidade?

E quem paga a conta desse discurso, somos nós. São as mulheres que já foram silenciadas. São as meninas que estão crescendo agora e aprendendo, desde cedo, qual é o lugar que esperam que elas ocupem.

Porque toda vez que uma menina ouve que feminismo é exagero, que mulheres não precisam lutar por igualdade, que violência contra mulher é invenção ou que determinados direitos são privilégios, ela não está apenas ouvindo uma opinião política.

Ela está aprendendo alguma coisa sobre o próprio valor.

E eu fico pensando nas meninas que estão nos olhando.

Que mensagem estamos deixando para elas?

Eu queria que elas crescessem sabendo que podem votar, ser votadas, trabalhar, estudar, liderar, ganhar dinheiro, terminar um relacionamento, escolher não casar, escolher casar, ser mãe ou não ser mãe, ocupar uma mesa de decisão e dizer “não” sem precisar pedir desculpas por existir.

E, principalmente, queria que elas soubessem que nenhum desses direitos apareceu por mágica.

Eles foram conquistados.

Por mulheres que vieram antes de nós.

Por mulheres que muitas vezes não tiveram a liberdade que temos hoje, mas lutaram para que nós tivéssemos.

Por isso, às minhas amigas e conhecidas que eu admiro tanto, eu faço apenas um pedido: antes de dizer que não precisamos do feminismo, lembrem-se de tudo aquilo que hoje podemos fazer porque outras mulheres disseram exatamente o contrário.

Não precisamos pensar todas da mesma maneira, mas precisemos conversar mais sobre o que estamos ajudando a construir.

Porque quando mulheres começam a acreditar que a própria igualdade é uma ameaça, alguma coisa merece, no mínimo, ser discutida.

E quem sofre as consequências não somos apenas nós, neste momento. São também as meninas que virão depois de nós.

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Caroline Pignaton
Caroline Pignaton
É formada pela Universidade Federal do Espírito Santo e mestre em Comunicação e Territorialidades pela mesma instituição. Assina o Diário da Feminista Depilada, um espaço de crônicas afiadas, sinceras e atravessadas pela experiência de uma mulher 40+, jornalista, feminista e mãe. Na coluna, episódios de machismo — dos mais sutis aos mais escancarados — ganham forma e linguagem, revelando como essas violências se intensificam e se tornam ainda mais cruéis a partir da maternidade. Um diário conduzido por ironia, crítica e afeto, para quem já se cansou de fingir que não vê.

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