Flechas lançadas ao futuro: a criança como ponte entre as gerações

“Todas as pessoas grandes foram um dia crianças, mas poucas se lembram disso.” – O Pequeno Principe

Continua após a publicidade

A criança é um ser (ela não vai ser) que sente, um ente real e parte integrante de um todo que chamamos de família e sociedade. Um ser num constante vir a ser.

O Salmo 127:3-5 diz que os filhos são herança do Senhor e recompensa do ventre, como flechas na mão do guerreiro. Feliz é quem enche delas a sua aljava.

Continua após a publicidade

Uma observação de rigor: a promessa de que “herdarão a terra” não está nesse salmo. Ela vem de outros textos (Sl 37:11; Mt 5:5). Para a sua exposição, o Salmo 127 sustenta bem a ideia de herança, continuidade e missão, e vale citar a promessa da terra como complemento, não como parte do mesmo versículo.

A imagem da flecha é precisa. Uma flecha não existe para ficar na aljava. Ela é moldada, lubrificada, apontada e lançada. O guerreiro não a possui para si: ele a prepara e adestra para alcançar um alvo que ele mesmo talvez não veja. Assim, a criança é dom (herança), tarefa (quem a forma) e destino (quem a lança).

A leitura psicanalítica: a criança entre o passado e o futuro

A criança nasce dentro de uma história que não escolheu. Antes de nascer, ela já tem nome, lugar, expectativas e sonhos projetados sobre si. Freud chamou isso de “Sua Majestade, o Bebê”: nele os pais reencontram suas esperanças não realizadas. Aqui está o risco e a beleza da continuidade. A criança herda o desejo dos pais, mas precisa poder fazer algo próprio com essa herança.

Cuidar é sustentar. Winnicott ensinou que nenhum bebê existe sozinho: existe a dupla mãe-bebê, e o ambiente suficientemente bom (holding) é o que permite à criança tornar-se ela mesma. Pode-se dizer que a aljava é o holding e o arco é a educação. Sem colo não há firmeza, e sem firmeza a flecha não voa reta.

A transmissão geracional. A psicanálise mostra que passamos adiante não só o que ensinamos, mas também o que não elaboramos: medos, silêncios, feridas, beijos e abraços, prazer/desprazer e lealdades invisíveis. Uma geração que não trata a sua dor tende a lançá-la na seguinte. Por isso, cuidar dos filhos começa por cuidar de si. O pai ou a mãe que se trata, se arrepende e se reconcilia lança flechas mais retas, precisas e objetivas.

Filiação simbólica. Em Lacan, tornar-se sujeito passa por ser inscrito numa linhagem, receber um nome e uma lei que ordenam o desejo. Não basta gerar: é preciso filiar, isto é, reconhecer, nomear e conferir lugar. A criança sem lugar simbólico vive à deriva.

Separar é amar. O ponto mais difícil da metáfora é o lançamento. Pais que seguram demais produzem filhos dependentes, ansiosos ou rebeldes. Pais que soltam sem preparo produzem filhos abandonados. A maturidade parental está em segurar com firmeza e soltar a tempo. Erikson chamou essa tarefa de generatividade: investir na geração seguinte sem esperar retorno.

A leitura bíblica: educar para a missão

  • Instrução cotidiana. “Estas palavras… as ensinarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho” (Dt 6:6-7). A fé se transmite no convívio, não só no discurso. A criança aprende por imitação.
  • Transmissão da memória. Sl 78:4-7 fala de contar à geração seguinte os feitos do Senhor, “para que ponham em Deus a sua confiança”. A continuidade é espiritual antes de ser biológica.
  • Direção. “Instrui o menino no caminho em que deve andar” (Pv 22:6). Instruir é apontar o arco, e o caminho é o da criança, não uma cópia do nosso.
  • Cuidado emocional. “Pais, não irriteis os vossos filhos, mas criai-os na disciplina e admoestação do Senhor” (Ef 6:4). A Bíblia já reconhece que a autoridade sem afeto fere.
  • Acolhimento. “Deixai vir a mim os pequeninos” (Mt 19:14). Jesus os coloca no centro e os apresenta como modelo de entrada no Reino (Mt 18:3).
  • Reconciliação. Malaquias 4:6 promete converter “o coração dos pais aos filhos, e o coração dos filhos a seus pais”. A restauração da família é condição para a renovação da sociedade.

Valor social e espiritual

Uma comunidade forte não se constrói só com instituições, mas com gerações que se reconhecem. A criança é o lugar onde a sociedade decide o que de fato valoriza: se transmite cuidado ou indiferença, esperança ou cinismo. Por isso ela é, ao mesmo tempo, herança (recebemos algo de Deus) e responsabilidade (devolvemos algo ao mundo).

A psicanálise acrescenta que a esperança social nasce de laços seguros na primeira infância: quem foi cuidado aprende a cuidar. A Escritura acrescenta que a esperança última não repousa na competência dos pais, mas na graça de Deus, que completa o que nossa limitação não alcança. Pais não precisam ser perfeitos, precisam ser presentes, honestos e dependentes de Deus.

Conclusão

Os filhos são pontes vivas: carregam o passado nas costas e apontam para um futuro que ainda não vemos. Segurá-los com firmeza, apontá-los com sabedoria e lançá-los com confiança é a vocação de quem os recebe como herança do Senhor. E, quando a flecha parte, o guerreiro descansa, porque sabe que o alvo está nas mãos de Deus.

 Aplicação prática: como lançar flechas retas

  1. Comece por você: trate o que você transmite

Antes de olhar para o comportamento do filho, olhe para a sua própria história.

  • Pergunte-se: “Que padrões da minha infância eu repito sem perceber? O que eu prometi nunca fazer e acabei fazendo?”
  • Faça: converse com alguém de confiança, um pastor, um psicoterapeuta ou um mentor. Quem elabora a própria dor tem menos chance de despejá-la na geração seguinte.
  • Reconcilie-se: se há mágoa com seus próprios pais, busque ao menos o perdão interior (Ml 4:6). Ninguém lança flechas retas com a mão trêmula de ressentimento.
  1. Construa a aljava: segurança antes de direção

O filho só se lança quando se sente seguro. Isso se constrói em gestos pequenos e repetidos.

  • Presença diária: dedique de 15 a 20 minutos por dia, sem telas, só para ouvir. A criança precisa sentir que há alguém que a espera.
  • Rotina previsível: horários de refeição, de sono e de conversa dão contorno ao mundo interno da criança.
  • Acolha a emoção antes de corrigir o comportamento. Em vez de “parar de chorar”, experimente “vejo que você está triste; quer me contar?”. A correção vem depois e é mais bem recebida.
  • Afeto explícito: diga e demonstre amor com palavras, abraços e tempo. Não suponha que a criança “já sabe”.
  1. Aponte o arco: ensine na vida comum
  • Fale de Deus no cotidiano (Dt 6:6-7): no café da manhã, no trânsito, ao dormir. Uma oração curta e espontânea vale mais que um discurso longo e raro.
  • Conte a história da família e da fé: testemunhos de como Deus agiu na sua vida e na dos seus pais criam raízes (Sl 78:4-7).
  • Seja o exemplo: a criança imita mais do que escuta. Se você pede honestidade e mente, ensina a mentira.
  • Eduque pela disciplina com afeto (Ef 6:4): limites claros, consequências coerentes e nenhuma humilhação. Corrigir a conduta sem ferir a identidade (“o que você fez foi errado”, não “você é ruim”).
  • Observe o jeito único de cada filho (Pv 22:6): cada flecha tem peso e direção próprios. Compare menos e conheça mais.
  1. Prepare o lançamento: soltar aos poucos

Soltar não é abandonar, é dar autonomia em doses adequadas à idade.

    • Dê escolhas pequenas desde cedo (que roupa usar, qual livro ler) e aumente a responsabilidade com o tempo.
    • Permita errar com segurança. Proteger de toda frustração produz adultos frágeis; deixar suportar pequenas frustrações produz resiliência.
  • Não projete seus sonhos frustrados no filho. Pergunte: “Isso é para ele ou para mim?”
  • Na adolescência, troque o controle pela conversa: mantenha os limites essenciais, mas negocie o que for negociável e escute mais do que fala.
  1. Cuide da comunidade: a flecha não voa sozinha
  • Envolva a criança na vida da igreja e da comunidade, com adultos de confiança que reforcem os valores da casa.
  • Valorize avós, tios e mentores: a transmissão entre gerações enriquece a identidade.
  • Sirva junto com seus filhos: visitar um idoso, ajudar uma família necessitada, participar de um projeto social. Valores se aprendem praticando.
  1. Quando houver falhas

Todo pai e toda mãe erram. A maturidade está em reparar.

  • Peça perdão ao filho quando errar. Isso ensina humildade e mostra que o amor sobrevive ao erro.
  • Procure ajuda profissional diante de sinais persistentes: tristeza prolongada, isolamento, agressividade intensa, mudanças bruscas de comportamento ou sofrimento familiar que você não consegue resolver sozinho. Buscar apoio é sabedoria, não fracasso.
  • Descanse na graça: você não precisa ser perfeito. O alvo final está nas mãos de Deus.
  1. Roteiro de reflexão para cada um de nós

Reserve um momento de silêncio e responda por escrito:

  1. Que herança emocional e espiritual recebi dos meus pais, e o que quero preservar ou transformar?
  2. Meus filhos (ou as crianças sob meu cuidado) sentem que têm um lugar seguro comigo? Como sei disso?
  3. Em que área estou segurando demais? Em qual estou soltando cedo demais?
  4. Que valor da minha fé posso transmitir esta semana, de forma simples e concreta?
  5. Existe alguém a quem preciso pedir perdão ou com quem preciso me reconciliar?

Oração sugerida: “Senhor, tu me confiaste estas flechas. Dá-me sabedoria para formá-las, firmeza para apontá-las e coragem para lançá-las. Cura em mim o que preciso entregar a ti, para que eu não passe adiante o que me feriu. E descansa meu coração: o alvo está em tuas mãos. Amém.”

Continua após a publicidade
Sidnei Vicente
Sidnei Vicente
Carioca, cientista da religião e filósofo dedicado ao estudo das dimensões existenciais da vida. Psicanalista, investiga as complexidades da mente e da subjetividade humana. Especialista em comportamento emocional e compreensão das relações entre razão, fé, emoção e comportamento.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Vitória, ES
Temp. Agora
28ºC
Máxima
29ºC
Mínima
23ºC
HOJE
13/10 - Ter
Amanhecer
05:12 am
Anoitecer
05:42 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
35.17 km/h

Média
26ºC
Máxima
29ºC
Mínima
23ºC
AMANHÃ
14/10 - Qua
Amanhecer
05:11 am
Anoitecer
05:42 pm
Chuva
0mm
Velocidade do Vento
29.48 km/h

Obras públicas em ano eleitoral: a cidade continua avançando?

Marcos Paulo Bastos

Leia também