A passagem do ensino fundamental para o ensino médio causa um impacto negativo no bem-estar dos estudantes, e essas consequências desfavoráveis se estendem por mais de dois anos após a troca de instituição. Essa é a conclusão de um estudo realizado pela Universidade de Adelaide, na Austrália, que analisou a experiência de mais de 20 mil alunos de escolas públicas do Sul da Austrália.
A pesquisa monitorou milhares de jovens durante o período de transição para o ensino médio e constatou que a piora na saúde mental e na satisfação está mais associada à própria mudança de escola do que ao amadurecimento natural e ao avanço da idade, como se supunha inicialmente.
Publicado no Journal of Child Psychology and Psychiatry, o trabalho examinou dados longitudinais de um censo estadual conduzido no sul da Austrália entre 2019 e 2025. Os pesquisadores se beneficiaram de uma reforma educacional exclusiva ocorrida em 2022, quando dois grupos etários distintos (alunos do 7º e 8º ano) migraram para o ensino médio ao mesmo tempo. Esse cenário, descrito como um “experimento natural”, possibilitou que os cientistas separassem os efeitos da idade dos efeitos diretos da mudança de ambiente escolar.
A metodologia incluiu 20.910 participantes e mais de 104.800 observações feitas ao longo de sete anos. Ao longo do período, os pesquisadores acompanharam oito dimensões do bem-estar:
- Engajamento cognitivo;
- Felicidade;
- Otimismo;
- Perseverança;
- Regulação emocional;
- Satisfação com a vida;
- Tristeza;
- Preocupação.
Os resultados indicaram que, após a transição, houve uma deterioração em todas essas áreas, com o crescimento de emoções negativas e a diminuição dos níveis de contentamento.
Os principais achados da pesquisa foram:
- Queda generalizada: o bem-estar diminuiu em todos os oito aspectos medidos, englobando felicidade, otimismo e satisfação com a vida.
- Impacto duradouro: os efeitos negativos da transição não são temporários, persistindo por pelo menos dois anos após a mudança de escola.
- Engajamento e perseverança: as reduções mais significativas ocorreram no engajamento cognitivo e na perseverança, evidenciando a dificuldade de se adaptar às novas exigências acadêmicas.
- Grupos vulneráveis: estudantes do sexo feminino e aqueles que vivem em regiões remotas apresentaram declínios muito mais acentuados em comparação com seus colegas.
- Causa específica: a transição em si, e não o simples envelhecimento dos alunos, foi apontada como o principal fator responsável pela queda no bem-estar.
Transição pode trazer prejuízos
O estudo liderado por Mason Zhou, pesquisador da Universidade de Adelaide, indica que a mudança para uma nova escola é um processo desafiador que exige adaptação a ambientes desconhecidos e novas dinâmicas sociais. Os alunos precisam lidar com grupos sociais distintos e atender a demandas acadêmicas mais rigorosas, frequentemente deixando para trás amigos próximos e adultos de confiança da etapa anterior. Essa ruptura tem um peso maior do que as alterações biológicas típicas da adolescência.
“As pessoas costumam acreditar que as reduções no bem-estar são apenas uma parte natural do crescimento, mas nossas descobertas sugerem que a transição para o ensino médio desempenha um papel muito mais significativo do que se imaginava”, afirmou Zhou. Segundo ele, o mal-estar emocional no início da adolescência é frequentemente tratado como “fase”, mas os dados revelam que a estrutura da transição escolar representa um fator de risco real e mensurável.
A pesquisa reforça que o período de ajuste é prolongado e que os desafios de adaptação podem reaparecer mesmo após um primeiro momento de aparente estabilidade. No segundo ano após a transição, os alunos podem enfrentar dificuldades renovadas à medida que a composição das turmas se modifica e a pressão escolar se intensifica. Por isso, o estudo defende que a visão sobre esse período precisa se transformar de um “evento único” para um processo contínuo de apoio.
Meninas e alunos de áreas remotas sofrem mais
Apesar de o declínio ter sido notado em todo o grupo, as estudantes do sexo feminino sofreram reduções de bem-estar consideravelmente mais intensas do que os meninos. Pesquisas anteriores indicam que isso pode ocorrer porque as meninas tendem a dar maior ênfase às relações interpessoais e ao senso de pertencimento social, elementos que são profundamente abalados durante a mudança para o ensino médio. Além disso, as garotas estão mais expostas à comparação entre si, o que pode elevar sua vulnerabilidade.
Outro grupo que merece destaque são os estudantes de áreas rurais e remotas. A pesquisa revelou que, embora esses jovens apresentassem níveis elevados de bem-estar antes da transição, eles sofreram uma queda acentuada que se manteve até o terceiro ano após a mudança. Diferenças no acesso a serviços, infraestrutura digital e a própria mudança de contextos comunitários menores para escolas maiores podem explicar essa trajetória descendente.
A perseverança e o engajamento cognitivo — definido como o esforço do aluno para dominar novas habilidades — foram os domínios que mais sofreram. Para os pesquisadores, isso é preocupante, pois esses fatores estão associados a taxas de graduação e sucesso na vida adulta.
“Nossas descobertas mostram que, para muitos alunos, os desafios de bem-estar não desaparecem após o primeiro trimestre ou mesmo o primeiro ano do ensino médio”, explicou a professora Dot Dumuid, coautora do estudo.
Como minimizar os problemas da transição
As descobertas trazem implicações significativas para políticas educacionais e sugerem que o suporte aos alunos deve ser mantido por pelo menos dois anos após o ingresso no ensino médio. O estudo recomenda que as escolas não se concentrem apenas na semana de orientação, mas adotem um monitoramento contínuo, já que o apoio intensivo inicial costuma ser reduzido justamente quando os desafios acadêmicos começam a aumentar no segundo ano.
Uma sugestão prática baseada nos achados é a incorporação de cursos que ensinem estratégias de aprendizagem específicas para o ensino secundário. Como o engajamento cognitivo e a perseverança são os mais afetados, auxiliar os alunos a desenvolver abordagens orientadas por metas pode ajudá-los a lidar com as novas exigências de estudo. Programas de mentoria e suporte socioemocional também devem ser desenhados com sensibilidade às questões de gênero, dada a maior vulnerabilidade das meninas.
O foco em grupos vulneráveis, como alunos de áreas remotas, deve ser priorizado para garantir que a mudança de escola não se torne um gatilho para problemas de saúde mental de longo prazo. Por fim, os pesquisadores enfatizam que famílias, escolas e formuladores de políticas precisam colaborar para identificar esses riscos precocemente. “Isso significa que as escolas precisam pensar no suporte à transição como um processo contínuo, e não como um programa de curto prazo entregue no início do ano letivo”, concluiu a professora Dumuid.







