Como usar IA para revisar conteúdos, treinar questões e entender erros

Estudar com IA pode ser um bom apoio na preparação para o Enem 2026, tanto para revisar conteúdos quanto para treinar questões ou descobrir onde estão as maiores dificuldades. Há, porém, um detalhe que não pode ser ignorado: a tecnologia pode servir de suporte aos estudos, mas não deve realizar o trabalho no lugar do estudante.

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Para compreender como aproveitar a ferramenta nos estudos sem abrir mão do próprio esforço, o Lá Vem o Enem conversou com Adriano Silveira, professor de Filosofia e de Inteligência Artificial (IA). De acordo com ele, a tecnologia consegue auxiliar o aluno a pensar, testar conhecimentos e reconhecer suas próprias dificuldades, mas não deve tomar o lugar do processo de aprendizagem.

Como estudar com IA para o Enem

Conforme Adriano, a inteligência artificial pode funcionar como uma espécie de tutor disponível em qualquer horário. A ferramenta é capaz de explicar um mesmo assunto de formas distintas, elaborar exercícios, organizar revisões e resumir textos.

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Na prática, o estudante pode recorrer à IA para:

  • Pedir uma explicação mais simples ou mais aprofundada;
  • Criar questões sobre um conteúdo;
  • Montar uma revisão;
  • Identificar assuntos em que está errando;
  • Entender o raciocínio por trás de uma questão;
  • Receber sugestões para melhorar uma redação.

“No ensino de filosofia que ministro, tenho visto que o maior ganho não está em respostas prontas, mas na possibilidade de o aluno testar seu raciocínio em tempo real. Isso tem um valor pedagógico enorme, porque parte da dificuldade de aprender é justamente a vergonha de não saber”, explicou.

Na avaliação do professor, esse tipo de uso permite que o estudante esclareça dúvidas e ponha à prova o próprio raciocínio sem precisar esperar por outro momento para descobrir onde a dificuldade se encontra.

Entre as possibilidades está o uso da tecnologia para monitorar os erros cometidos em simulados e questões.

O estudante pode realizar um simulado diagnóstico, registrar os resultados e pedir à IA que organize os erros por assunto. Com o acompanhamento ao longo das semanas, padrões de dificuldade podem aparecer.

Em vez de concluir apenas que “sou ruim em matemática”, por exemplo, o estudante pode notar que seus erros se concentram em um conteúdo específico, como geometria espacial.

“A IA pode ajudar a manter esse registro e a atualizar as prioridades de revisão. O cuidado aqui é não terceirizar completamente esse diagnóstico: o estudante precisa continuar olhando para os próprios erros, porque é nesse olhar que a aprendizagem de fato se consolida”, disse.

Qual é a diferença entre pedir a resposta e entender o erro?

É nesse ponto que a maneira de estudar com IA faz toda a diferença.

Em vez de perguntar apenas qual é a alternativa correta, o estudante pode explicar o caminho que percorreu e pedir que a ferramenta indique onde o raciocínio falhou.

O professor sugere comandos como:

“Eu escolhi a alternativa C porque pensei assim, explique por que meu raciocínio está errado” ou “compare por que as alternativas A e D parecem certas mas não são”.

A proposta é levar o estudante a pensar antes de receber a explicação. Dessa forma, a IA entra como mediadora do estudo, e não como substituta do esforço necessário para aprender.

“É basicamente reproduzir, com a máquina, o método socrático: não entregar a verdade de cima para baixo, mas fazer perguntas que revelem onde o pensamento tropeçou. Um aluno que só pergunta ‘qual é a resposta’ está construindo um hábito de dependência. Um aluno que pergunta ‘onde eu errei e por quê’ está construindo autonomia”, destaca o professor.

Além disso, estudar com IA também exige atenção para não criar a sensação de que um conteúdo foi aprendido só porque a explicação pareceu fácil de entender. Adriano chama isso de “ilusão de fluência”: o estudante reconhece uma resposta quando lê, mas pode não conseguir produzir o conhecimento sozinho durante a prova, que acontece sem consulta. Por isso, ele ressalta que aprender também envolve errar, ter dúvidas e tentar novamente, sem entregar todo esse processo para a tecnologia.

“Quando a resposta está sempre a um clique de distância, o estudante pode desenvolver o que os psicólogos chamam de ilusão de fluência: a sensação de que entendeu algo porque a explicação fez sentido no momento em que foi lida, sem que esse conhecimento tenha sido efetivamente construído e testado pela própria cabeça. […] Um estudante que evita sistematicamente esse desconforto, terceirizando-o para a IA, chega ao dia da prova com a sensação de domínio, mas sem o domínio em si. E isso costuma aparecer exatamente na hora errada”, afirmou.

Quais ferramentas devo usar?

Adriano cita ChatGPT, Gemini e NotebookLM como exemplos de ferramentas que podem cumprir funções diferentes na rotina de estudos.

Assistentes como ChatGPT e Gemini podem ser usados para explicar conteúdos, simular questões e revisar redações. Já ferramentas de organização de anotações, como o NotebookLM, podem ajudar a reunir e consultar materiais.

Para o professor, a questão principal não é escolher uma única ferramenta, mas entender para que cada uma pode ser usada dentro da rotina que o estudante já possui.

Cuidado para não deixar a IA estudar por você

Recorrer à inteligência artificial para estudar não é a mesma coisa que pedir a ela que execute toda a atividade.

Quando o estudante acompanha o processo, pensa, erra e tenta corrigir, ele continua participando da aprendizagem. Já quando apenas copia uma resposta pronta, o conteúdo pode até parecer resolvido, mas o exercício que deveria desenvolver aquela habilidade não aconteceu.

“Existe, e é uma diferença de natureza, não de grau. Quando o estudante usa a IA para aprender, ele permanece como sujeito do processo — é ele quem pensa, quem erra, quem ajusta, e a IA entra como mediadora desse esforço”.

Por isso, no Enem, a ferramenta não substitui a preparação. A prova exige que o estudante consiga interpretar, argumentar, relacionar informações e resolver problemas novos.

Como saber se a resposta da IA está certa?

Conferir as informações recebidas é outro aspecto essencial de estudar com IA.

A inteligência artificial pode errar, inclusive apresentando uma resposta incorreta com segurança. Por isso, Adriano recomenda comparar o conteúdo com materiais didáticos, professores e fontes confiáveis.

Uma estratégia é pedir que a própria ferramenta indique a fonte utilizada e, depois, verificar se aquela fonte existe e se realmente apresenta a informação citada.

Caso a resposta seja diferente do que o estudante aprendeu em sala, isso também deve ser encarado como um sinal para investigar antes de aceitar o conteúdo.

“É preciso internalizar que a IA erra e erra com a mesma confiança com que acerta, o que é particularmente perigoso para quem ainda está formando o próprio juízo crítico sobre um conteúdo. O antídoto é sempre triangular: cruzar a resposta da IA com o material didático, com o professor, com uma fonte confiável”, explicou.

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Redação
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