Os pomares de maçã da região Sul do Brasil estão tomados por flores brancas e rosadas. O que à primeira vista parece apenas um belo cenário esconde, porém, uma conta delicada: se as abelhas não circularem entre essas flores nas próximas semanas, grande parte delas simplesmente não se transforma em fruto.
A florada é consequência direta do inverno que acabou. As macieiras precisam somar uma quantidade mínima de horas de frio para sair da dormência e voltar a crescer. Nas principais áreas produtoras, esse acúmulo superou a média histórica neste ano, o que levou a uma brotação uniforme e com elevado potencial de floração. Na prática, isso quer dizer pomares com mais flores do que o habitual e potencial para uma safra robusta.
Ocorre que flor bonita não assegura fruto. A etapa seguinte, a polinização, depende quase totalmente da visita de abelhas e de outros insetos polinizadores. É esse vaivém de flor em flor que viabiliza a fecundação e o início da formação da maçã. Sem essa visita, a flor murcha e cai, sem gerar fruto algum.
O El Niño complica a equação
Neste ano, o El Niño trouxe chuvas acima do esperado para o Sul do país, exatamente onde se concentram as principais regiões produtoras de maçã. Chuva contínua e intensa é o pior cenário possível nessa fase da produção, porque as abelhas não voam sob precipitação forte. Quanto mais dias seguidos de chuva, menor a janela de tempo em que os polinizadores conseguem percorrer os pomares.
O efeito prático é um clima que alterna dias chuvosos e breves períodos de tempo bom, e é justamente nessas brechas que a polinização precisa ocorrer. Para não ficar na dependência da sorte do calendário, muitos produtores ampliaram o número de colmeias instaladas nos pomares, prática conhecida informalmente como aluguel de abelhas. Caixas com colônias inteiras são transportadas e colocadas entre as fileiras de macieiras justamente para concentrar o máximo de atividade polinizadora nos poucos dias de sol disponíveis.
Por que esse processo é tão sensível
A dependência da macieira em relação às abelhas não é exclusividade brasileira nem uma exceção dentro da agricultura. Frutíferas como a maçã apresentam baixa taxa de autopolinização, ou seja, a planta sozinha, sem a ação de um polinizador externo, produz muito pouco. Por isso, regiões produtoras de maçã em diversos países do mundo recorrem à mesma estratégia de reforçar as colmeias durante a floração, deslocando apiários inteiros para dentro dos pomares por poucas semanas ao ano.
Essa relação também explica por que oscilações climáticas como o El Niño têm efeito tão direto sobre a fruticultura. Não é a chuva isolada que prejudica a lavoura, mas o impacto indireto que ela provoca no comportamento dos insetos responsáveis pela fecundação das flores.
O que vem a seguir
Nas próximas semanas, os produtores vão acompanhar o chamado índice de fixação dos frutos, uma espécie de termômetro que revela quantas flores de fato se transformaram em maçãs em formação. É esse número que vai indicar se o esforço extra com colmeias e o aproveitamento das janelas de tempo bom bastaram para compensar os dias perdidos de chuva.
Até lá, o cenário permanece num equilíbrio entre duas forças opostas: um inverno que cumpriu o seu papel e entregou uma floração forte, e um verão chuvoso que ameaça atrapalhar exatamente o momento em que essa floração precisa ser aproveitada.







