Há uma crise de sentido no campo progressista brasileiro, especialmente na vertente das esquerdas institucionais, diante da emergência da extrema-direita na esfera pública. Não se trata apenas de derrotas eleitorais, mas da dolorosa constatação de que forças político-partidárias e corporativas que utilizam as regras democráticas como arma contra a própria democracia conseguem triunfar no jogo político formal e na luta pela hegemonia na sociedade civil.
Essa realidade social e política nos impele ao lamento e à melancolia, mas também a uma reflexão honesta sobre os limites de nossas análises, linguagens e formas de organização.
A extrema-direita aprendeu a mover-se pelas brechas institucionais, pelas instabilidades entre os Poderes da República e pelas novas tecnologias de comunicação. Utiliza a liberdade de expressão, o voto, o Parlamento e o Judiciário para atacar, por dentro, os fundamentos do regime democrático e, muitas vezes, com o apoio de setores do ecossistema midiático privado e de parte da burocracia estatal em deserção constitucional dos valores republicanos e democráticos, reforçando a dimensão autocrática, autoritária e tutelar do Estado brasileiro.
Ao mesmo tempo, atrai e retém um contingente expressivo de brasileiros como apoiadores, convertendo o voto em manifestação de uma utopia autoritária. Reconhecer esse fato é penoso e fere nosso ego democrático; contudo, é indispensável: é impossível compreender a crise democrática sem admitir a força social e política que a extrema-direita e setores sociais conservadores mobilizam.
É preciso, com pesar e sinceridade política, reconhecer o outro — a direita radical ou o fascismo social — como interlocutor no presente. Isso não implica aceitar suas ideias, relativizar seus crimes ou validar seus discursos.
Isso significa admitir que esses sujeitos e movimentos possuem história, agência e capacidade de interpretação do mundo. Não são fantasmas do passado nem indivíduos anacrônicos. Reduzi-los sumariamente ao atraso, à ignorância ou ao anacronismo impede a compreensão de por que milhões de brasileiros se identificam com seus discursos, símbolos e promessas.
Portanto, é insuficiente recorrer apenas a categorias como “barbárie”, “primitivo”, “arcaico”, “atrasado” ou “pré-moderno” para explicar a crise democrática e o surgimento da extrema-direita e dos conservadores. Tais termos podem manifestar indignação, mas não esclarecem o fenômeno político.
A ascensão autoritária é gestada no presente, impulsionada por relações coloniais, raciais, sociais, econômicas e políticas que continuam a estruturar a sociedade brasileira. Ela se alastra onde vigoram a desigualdade, o medo, a precariedade, a violência, o desencanto com a política e a percepção de que as instituições democráticas e republicanas negligenciam as dores e as demandas concretas e imaginárias da população brasileira e de seus segmentos sociais, culturais e políticos.
O lamento aqui apresentado não significa capitulação. Trata-se do reconhecimento de que as esquerdas precisam reordenar sua linguagem e reconectar-se com quem sofre, sem condescendência, sem maniqueísmo simplista e sem reduzir a população a uma massa alienada, desinformada e despolitizada.
É urgente escutar as angústias de quem enfrenta o desemprego, a insegurança, a violência, a limitação de liberdade, a negação de igualdade e a ausência de perspectivas, sem renunciar aos princípios da igualdade, da defesa da liberdade, da justiça social, da inquietação e da democracia. A tarefa não consiste em superar o adversário pelo mero desprezo, deboche e ridicularização (como eles fazem bem!), mas em erigir uma alternativa capaz de restituir a esperança, o pertencimento e o sentido à vida coletiva.
A democracia brasileira deve ser defendida não apenas como um arcabouço normativo, mas como promessa de dignidade para toda a sociedade. Enquanto a extrema-direita oferece certezas simplistas, inimigos convenientes e a ilusão de ordem eterna, inquestionável e inequívoca, as esquerdas precisam propor um projeto mais denso, crítico e ousado para além do jogo institucional e da governabilidade política: a convicção de que outra sociedade é viável, alicerçada no trabalho, na solidariedade, na liberdade, na prosperidade coletiva e no respeito à diversidade.
Nosso lamento, portanto, deve converter-se em responsabilidade política e intergeracional, tendo como base a consciência social de que a democracia é uma opção política e uma construção social que exige contínua e permanente vigilância política, educação política, fortalecimento institucional, formação de lideranças democráticas e constante construção. Ninguém nasce democrata; ninguém nasce autoritário. Essas são decisões políticas que se transformam em valores coletivos e prioridades sociais.
Nessa perspectiva, podemos dizer que tudo no mundo humano é construção social e luta cotidiana para manter suas construções sociais, chegando-se, muitas vezes, a esquecer que foram construídas ou inventadas e a atribuir-lhes caráter natural, divino ou eterno (esse é um longo debate na filosofia e na ciência política, passando pela teoria da democracia e atravessando o pensamento econômico e político da modernidade europeia ocidental: lei natural, lei divina e lei dos homens). Reconhecer a gravidade do momento no qual estamos mergulhados e enterrados, independentemente de nossas vontades políticas e projetos ideológicos e sociais, constitui o primeiro passo para impedir que a utopia autoritária ocupe, silenciosamente, o espaço da utopia democrática e popular — hoje acuada e sequestrada pelo domínio do capital e das oligarquias contemporâneas que mantêm o espaço público e o espaço institucional à sombra do poder autocrático e bloqueador da generalização do Estado Democrático de Direito a toda a sociedade brasileira.
Considerações técnicas e políticas: apesar de o texto, em alguns momentos, nomear no singular os atores sociais e políticos que configuram o campo político brasileiro e que disputam o controle desse campo ou, especialmente, a sua renovação e reengenharia (golpe, reforma, revolução, contrarrevolução), não o fazemos para negar sua pluralidade e suas diferenças, apenas para efeito de construção do texto. Dessa forma, a generalização construída só tem efeitos no interior deste texto, que está bem longe de dar conta das diferenças e fronteiras políticas que marcam não só o campo político brasileiro, mas também a história política e o complexo e plural pensamento político brasileiro.
De onde escrevo? Em tempos de polarização política obsessiva e de políticas de verdade instantâneas no Brasil contemporâneo
Este texto não é neutro. Não poderia ser.
Ele parte de um olhar político, de um lugar étnico-racial e social e de uma trajetória que não é apenas biográfica — é constitutiva. A maneira como olho o mundo, os temas que escolho abordar, o modo como me aproximo do jogo político: tudo isso é condicionado por quem eu sou, de onde venho, o que vivi e o que recuso. Não há aqui um sujeito transcendental que observa o mundo de fora, limpo de história. Há alguém situado.
Não busco o “truque de Deus”, isto é, a pretensão de onisciência; faço o contrário: recuso-me a fingir que existe um lugar neutro de onde se fala. A recusa do “truque de Deus”, aqui, é o direito de não me esconder atrás da objetividade. É a assunção de que o texto se move com afeto, paixão e razão — não apesar deles, mas com eles. Não peço licença para sentir enquanto penso.
Este texto não pretende ocupar o império da verdade, da racionalidade soberana, do bom senso e do equilíbrio jornalístico. Não é uma peça de tribunal, um laudo ou uma matéria de jornal. É um desabafo — e um compartilhamento de incertezas. É o gesto de quem escreve porque precisa escrever, e escreve para quem talvez também precise ler.
Se há um efeito aqui, é o de colocar em comum o que normalmente se guarda: a dúvida, o cansaço, a raiva, a hesitação. Não a conclusão segura, mas o processo aberto. Não a voz que sabe, mas a voz que procura.
Passo longe, portanto, do império da verdade. Não porque despreze a verdade — mas porque desconfio de quem a invoca como se ela fosse propriedade. Não porque recuse a razão — mas porque recuso uma razão que se apresenta como o único modo legítimo de habitar o mundo.
Escrevo de um lugar. E esse lugar é político, é racializado, é social, é histórico. Não é um defeito do texto. É a sua condição.






