Quando o assunto é zumbi nos videogames, é praticamente impossível não mencionar a maior franquia de mortos-vivos já criada: Resident Evil. Com o primeiro título lançado em 1996, a saga já reúne 8 jogos principais, 6 spin-offs, 4 remakes e uma série de remasters, sem contar os games para celular e as participações em outras franquias. Ainda assim, essa propriedade intelectual de 30 anos não se limita aos consoles em seu catálogo: há filmes, quadrinhos, livros e até peças de teatro. Com a chegada do novo filme de Resident Evil neste ano, vale a pena conhecer a franquia para além dos games, observar o fenômeno que ela se tornou na cultura pop e as curiosidades que envolvem tudo isso.
Live-actions: a franquia nas mãos de Milla Jovovich
Quando se pensa em Resident Evil longe dos consoles, o lugar onde a franquia mais ganhou visibilidade foram as telonas. Adquirida pela produtora alemã Constantin Film, a obra recebeu seu primeiro live-action em 2002, estrelado pela atriz americano-ucraniana Milla Jovovich. O longa apresentava um universo bastante próximo ao dos jogos, incluindo personagens deles. A aceitação do público foi tão expressiva que a saga rendeu 6 filmes, com o último lançamento em 2017. Até hoje, a sequência estrelada por Jovovich é apontada como uma das adaptações de games para o cinema mais lucrativas de todos os tempos.
Depois do fim dessa fase, a Constantin tentou reiniciar a franquia com uma trama mais fiel aos dois primeiros jogos, por meio de Resident Evil: Welcome to Raccoon City (2021). A recepção, porém, não foi positiva, e a tentativa acabou limitada a um único filme; o fracasso comercial, inclusive, chegou a inviabilizar uma sequência que já estava planejada.
A Constantin optou por mais um reboot com o lançamento de 2026, trazendo uma história dirigida por Zach Cregger, diretor de sucessos recentes do terror cinematográfico, como Barbarian e Armas. Em sua obra, Cregger apresenta uma trama paralela aos acontecimentos de Raccoon City, sem usar personagens já estabelecidos nos jogos, com um tom que mistura ação e humor de maneira mais acentuada do que nas obras anteriores. A recepção está sendo bastante positiva: o filme quebrou o recorde de maior abertura de bilheteria da franquia, com US$ 60 milhões no primeiro fim de semana, superando a marca anterior de Resident Evil: Afterlife (2010). Inclusive, mesmo com a reação contrária de fãs da obra original, Cregger já manifestou interesse em adaptar Resident Evil 7: Biohazard e Village em possíveis continuações.
Mesmo depois de 8 filmes, o que muitas pessoas não sabem é que, antes do lançamento de 2002, o primeiro longa quase chegou a ser dirigido por um nome de extrema importância para a cultura zumbi: George Romero.

Romero foi o criador do conceito moderno de zumbi, estabelecido através dos filmes A Noite dos Mortos-Vivos, Despertar dos Mortos e Dia dos Mortos. A conexão com a franquia já vinha de antes: em 1998, Romero dirigiu um comercial de 30 segundos para Resident Evil 2 no Japão. Quando a Constantin o contratou para escrever o roteiro, Romero levou cerca de seis semanas para entregá-lo, mas o texto acabou rejeitado pela Capcom e pela própria Constantin, que preferiu utilizar o roteiro de Paul W. S. Anderson. A justificativa mais difundida é que o roteiro de Romero era considerado fraco e não teria o apelo de ação comparado ao de Anderson. O roteiro rejeitado, inclusive, virou tema de um documentário lançado em 2025: George A. Romero’s Resident Evil.
Animação: o material canônico
Em contrapartida aos live-actions, Resident Evil também foi adaptado para animações, e de forma muito mais próxima dos jogos. Nessas produções, as histórias não são apenas canônicas ao universo dos games, como também servem para criar pontes entre as linhas do tempo dos títulos. Ao todo, existem 4 longas de animação: Degeneration (2008), Damnation (2012), Vendetta (2017) e Death Island (2023). Todos eles exploram mais a fundo a evolução dos personagens, seu desenvolvimento ao longo das histórias e suas relações uns com os outros. Os filmes em CGI são monitorados diretamente pela Capcom, assegurando consistência na lore e precisão com o universo dos jogos. Damnation, por exemplo, se passa entre os eventos de Resident Evil 5 e 6, enquanto Vendetta ocorre entre os eventos de Resident Evil 6 e 7.

A curiosidade dessa mídia é que essas não foram as primeiras animações oficiais da saga. Em 2000, foi lançada uma obra japonesa intitulada Biohazard 4D-Executer. O curta-metragem oficial da Capcom tem cerca de 20 minutos e narra um enredo separado dentro do universo Resident Evil, no qual um esquadrão militar enfrenta aberrações zumbis em Raccoon City enquanto procura uma cientista envolvida na criação de um novo vírus. O curta foi lançado oficialmente em cinemas e parques de diversões japoneses em novembro de 2000. Havia locais que aplicavam o “efeito 4D”, no qual o público sentava em cadeiras que soltavam vento e borrifavam água para uma maior imersão. O material nunca teve lançamento internacional nem venda oficial de DVD para o público.

Séries: a fórmula Netflix
Além dos filmes live-action e em CGI, a Netflix também possui direitos sobre a franquia para seu serviço de streaming. O primeiro lançamento foi uma série em CGI de 2021 intitulada Infinite Darkness. Nesse caso, a obra seguiu a mesma estrutura dos filmes animados: enredo canônico entre jogos, com personagens conhecidos da saga. Formada por 4 episódios, essa animação se passa entre os eventos de Resident Evil 4 e Resident Evil 5. Para promover a série, a Capcom chegou a firmar uma parceria com a marca irlandesa Cocalero, lançando uma bebida alcoólica temática chamada Cocalero Biohazard, vendida no Japão e também em promoções internacionais.
Em paralelo à animação, a Netflix trabalhou em uma série live-action lançada em 2022. Seu enredo se passava em um universo paralelo ao original, com referências à obra principal. A série teve participação da Constantin Television, braço televisivo da produtora responsável pela saga de Jovovich nas telonas. No entanto, mesmo com nomes de peso no elenco, como Lance Reddick (John Wick), a série teve recepção mista, baixo retorno de público e foi cancelada após a primeira temporada, com 8 episódios ao todo. A intenção do showrunner Andrew Dabb era incluir, em temporadas futuras, nomes recorrentes da saga, como Jill Valentine, Claire Redfield, Ada Wong e até a condessa Lady Dimitrescu, papel para o qual o próprio showrunner declarou publicamente que gostaria de ver a atriz Eva Green.
Quadrinhos: do ocidente de heróis ao oriente de mangás
Agora saindo das telonas e indo para as páginas, a propriedade intelectual de zumbis teve uma forte presença no mundo dos quadrinhos, inclusive logo em seu primeiro ano de vida. A Marvel Comics foi contratada para produzir uma edição gratuita de Resident Evil, com cerca de 15 páginas, contando eventos anteriores ao primeiro jogo como forma de promover o lançamento. Quem é fã da arte Marvel dos anos 90 vai reconhecer a arte de capa de Bill Sienkiewicz logo na capa da edição, enquanto as páginas internas foram desenhadas por Dave Johnson. Neste caso, essa foi a única colaboração com a Marvel nos quadrinhos. Para os fãs de ambas as empresas, a parceria delas é de extrema relevância no mundo dos jogos, através da saga de luta Marvel vs Capcom, com aparições do universo de zumbi como Jill Valentine, Chris Redfield e Nemesis.

Logo depois da Marvel, a publicadora WildStorm foi a empresa que manteve Resident Evil nos quadrinhos ocidentais, de 1998 a 2011, lançando 4 sagas diferentes e um total de 19 volumes. Ironicamente, a WildStorm também se tornou uma subsidiária da DC Comics — concorrente histórica da Marvel, que havia publicado a mesma obra anos antes.
Além das obras ocidentais, Resident Evil também foi adaptado ao estilo mangá, com publicações pela Akita Shoten; a mais notável sendo The Marhawa Desire, serializada entre 2012 e 2013 na revista Shonen Champion, com enredo de eventos que antecipavam diretamente a história de Resident Evil 6. Somam-se a isso duas edições que adaptam as animações em CGI para o formato mangá, cobrindo os enredos de Infinite Darkness e Death Island. Inclusive, a última teve seu lançamento oficial no Brasil em setembro deste ano, 2026, pela Panini.

Livros: a mídia esquecida
A franquia também ganhou adaptações para obras literárias, de forma mais obscura. Nesse campo, existem duas coleções distintas a serem destacadas. A primeira é da autora americana de terror Stephani Danelle Perry (creditada como S.D. Perry), que produziu, em sua maioria, adaptações dos jogos para livros entre 1998 e 2004, totalizando 7 obras. Além disso, ela publicou duas histórias originais nesse período (Caliban Cove e Underworld), que se encaixavam entre os enredos dos jogos, ainda que não fossem consideradas canônicas no universo oficial.
A segunda coleção é a novelização dos filmes da saga de Jovovich, lançada entre 2002 e 2017, com volumes escritos por autores distintos. A primeira edição, Biohazard, foi uma obra lançada oficialmente apenas no Japão, diferentemente dos volumes subsequentes.
Fora as duas coleções, houveram também publicações únicas de histórias originais e adaptações de algumas animações em CGI. Entre elas, vale destacar Resident Evil: The Book (conhecido no Japão como BIOHAZARD The Beginning), que narra eventos anteriores à história original do primeiro jogo. O livro fazia parte de um bônus para quem reservasse antecipadamente o jogo em sua versão de Sega Saturn, em 1998. Desde 2017 não houve mais nenhum lançamento de livro da saga, o que evidencia o quão obscura essa mídia se tornou dentro da franquia.

Peça de Teatro – risada, cantoria e interação!
Depois de passar pelo cinema, pela TV, pelos quadrinhos e pelos livros, era de se esperar que Resident Evil também chegasse à dramaturgia. A saga teve adaptações para o teatro no Japão, totalizando 4 obras lançadas entre 2000 e 2017. A primeira, de 2000, foi uma obra não canônica envolvendo musical e comédia, intitulada Bioroid: Year Zero, contando a vida dos zumbis sob a própria perspectiva deles.
A mais famosa, de 2015, é a peça Biohazard: The Stage, supervisionada pela Capcom e considerada canônica ao enredo dos jogos, se passando entre os eventos de Resident Evil 5 e 6. Nela, a personagem Rebecca Chambers reaparece pela primeira vez desde o jogo original, décadas antes. Em 2016, foi lançada uma peça totalmente musical, Musical Biohazard: Voice of Gaia. E, por último, em 2017 foi lançada uma peça que envolvia imersão e interação do público, Biohazard: The Experience.

Resident Evil – além da mansão
Resident Evil é muito mais que um jogo: é um universo que vem se construindo desde a década de 1990. A listagem acima não incluiu a variedade de brinquedos, colecionáveis, mídias musicais e eventos temáticos de parque de diversão que a saga contempla: desde 2012, o Universal Studios Japan mantém a tradição de labirintos assombrados dedicados à franquia durante o Halloween Horror Nights, e neste mesmo ano uma nova atração, “Resident Evil Requiem: The Dive”, celebra simultaneamente os 30 anos da saga e os 25 anos do próprio parque. É mais do que justo que, depois de três décadas, a propriedade intelectual continue sendo um dos nomes mais fortes da cultura zumbi. A expectativa agora é por novas adaptações, quem sabe o filme de Cregger se torna uma saga tão forte quanto a de Jovovich?






