Após 15 meses à frente da Secretaria de Estado da Saúde, o deputado retornou ao Legislativo estadual e planeja atuação em Brasília. Entre as prioridades estão o financiamento do SUS e os efeitos da reforma tributária no Espírito Santo.
O deputado estadual Tyago Hoffmann (PSB) reassumiu suas funções na Assembleia Legislativa do Espírito Santo (Ales) em abril, depois de 15 meses como secretário de Estado da Saúde. Eleito em 2022 com 32.123 votos, o economista e mestre pela Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) finaliza um período no Executivo e inicia uma nova etapa política com o anúncio de sua pré-candidatura à Câmara dos Deputados. A principal motivação para sua ida a Brasília é atuar em prol de mais recursos federais para o Sistema Único de Saúde (SUS) e assegurar o fortalecimento da infraestrutura capixaba diante das alterações trazidas pela reforma tributária.
Com mais de 15 anos de experiência como docente universitário e amplo percurso em cargos de gestão nos governos de Renato Casagrande (PSB), Hoffmann comandou áreas estratégicas como a Secretaria de Inovação e Desenvolvimento Econômico (2021-2022), a Casa Civil (2013-2014) e a Secretaria de Governo (2012-2013), além de ter sido subsecretário na Saúde em 2012. Em 2017, também gerenciou a Secretaria de Transportes, Trânsito e Infraestrutura Urbana de Vitória, na administração do ex-prefeito Luciano Rezende. Atualmente, em seu primeiro mandato legislativo estadual, o deputado preside a Comissão de Finanças e participa dos colegiados permanentes de Educação, Ciência e Tecnologia e de Segurança.
O peso do mandato e a atuação legislativa
Indagado sobre as distinções entre chefiar secretarias estaduais e exercer um cargo eletivo, Hoffmann ressalta o forte senso de dever para com os eleitores. “Tem um sentimento muito forte de obrigação de devolução para a sociedade”, afirma o parlamentar. Para ele, a confiança depositada por mais de 32 mil capixabas nas urnas exige uma retribuição por meio de ações concretas e trabalho direcionado ao Estado e aos municípios que representa.
“Ser secretário de Estado é uma honra, mas também é uma grande responsabilidade. Mas ser parlamentar, ter um mandato, é diferente”, declara o deputado, enfatizando o peso da representatividade.
“Tem um sentimento muito forte de obrigação de devolução para a sociedade. (…) Muita gente votou em mim sem sequer eu conhecer essas pessoas. Então, esse sentimento traz uma gratidão muito grande, traz o orgulho de ter feito um trabalho bem feito que gerou esse resultado, mas traz também essa responsabilidade”.
Na Ales, o parlamentar divide sua atuação em duas frentes principais: a proposição de leis e a intermediação de demandas municipais junto ao Governo do Estado. Entre os marcos de seu mandato está a aprovação da política estadual para pessoas com altas habilidades e superdotação. O projeto foi elaborado ao longo de um ano, após audiências públicas com especialistas e famílias. O deputado também tem priorizado entidades como Apaes e Pestalozzis, reforçando a busca por atender “aquelas pessoas que as políticas públicas ainda não alcançam, ou alcançam ainda de uma maneira não adequada”.
Desafios na Saúde e o gerenciamento de crises
A passagem pela Sesa colocou Hoffmann no comando de um orçamento de quase 6 bilhões de reais, 10.500 servidores e 40 unidades próprias e filantrópicas. Questionado sobre os momentos mais complexos, ele cita a crise de contaminação no Hospital Santa Rita, referência em oncologia, e, principalmente, a ameaça de fechamento da maternidade do Hospital Rio Doce, em Linhares.
A diretoria anterior do hospital comunicou o encerramento das atividades da maternidade de alto risco, que atende centenas de crianças da região, em um prazo de 48 a 72 horas. A Sesa precisou intervir imediatamente, garantindo escalas médicas com apoio de instituições como a Santa Casa de Vitória e o Hospital São José de Colatina. “Eu cheguei a falar: o governo Renato Casagrande e Ricardo Ferraço não fecha hospitais, a gente abre hospitais”, relata Hoffmann. A crise foi contornada em parceria com o Ministério Público, culminando na transferência da gestão do hospital para a Santa Casa de Misericórdia.
Para otimizar o sistema, a gestão focou na descentralização. Consultas, exames e cirurgias de média e alta complexidade, antes concentrados em poucos polos, foram levados para mais perto dos cidadãos. O serviço de oftalmologia, que antes exigia viagens de pacientes de Linhares até Baixo Guandu, foi expandido. Mais de 6 mil cirurgias oftalmológicas já foram realizadas na região de Linhares, e a entrega de óculos pelo Estado passou a ocorrer no próprio município do paciente. Segundo o ex-secretário, a mudança aconteceu com custo zero adicional aos cofres públicos, operando por meio de redistribuição de contratos e exigência de atendimento itinerante.
O mesmo modelo foi aplicado à expansão de exames de colonoscopia e endoscopia no sul do Estado e à implantação da teleconsulta nos 78 municípios capixabas. A medida retirou quase 100 mil pessoas das estradas apenas no ano passado e permitiu o acesso a especialistas raros, como neuropediatras, localizados em outras partes do Brasil e do mundo.
“O gestor público tem que ter sensibilidade e empatia, e mesclar a visão técnica com a visão humana, porque, quando a gente pensa só tecnicamente, é muito mais barato para o Estado centralizar. Só que… e o ser humano nisso?”, questiona o deputado.
Descentralização e inovações no atendimento ao paciente
A principal diretriz adotada por Hoffmann na Sesa foi a descentralização dos serviços de média e alta complexidade, invertendo a lógica de concentrar atendimentos apenas em grandes polos. A mudança permitiu que exames e consultas fossem levados para o interior, diminuindo os desgastes físicos dos pacientes nas rodovias. Em Linhares, por exemplo, a oferta local de oftalmologia evitou que moradores precisassem viajar constantemente até Baixo Guandu para cirurgias de catarata. Apenas no município, foram realizadas mais de 6 mil cirurgias oftalmológicas no período. O mesmo formato itinerante foi adotado na distribuição anual de cerca de 80 mil óculos de grau, que passou a contar com consultas, exames, provas de armação e entregas feitas nas próprias cidades dos cidadãos atendidos.
A implantação do programa de teleconsultas nos 78 municípios capixabas foi outra medida de grande impacto na gestão. Segundo o deputado, a ferramenta evitou que cerca de 100 mil pessoas realizassem viagens no último ano e facilitou o acesso a especialistas escassos na rede pública, como neuropediatras, conectando os pacientes a profissionais localizados em diversos estados do Brasil e no exterior.
Paralelamente, na região Sul do estado, os serviços de colonoscopia e endoscopia foram ampliados para cidades menores, como Apiacá, Muniz Freire e Itapemirim. Hoffmann ressalta que essas expansões não geraram custos adicionais aos cofres públicos, sendo viabilizadas apenas por meio de readequações contratuais estratégicas e criatividade na gestão pública.
Caminho para Brasília
Com a experiência acumulada ao longo de sua trajetória pública, Tyago Hoffmann apresenta seu nome como pré-candidato a deputado federal, etapa que ainda aguarda aprovação nas convenções partidárias. A decisão de buscar uma cadeira na Câmara dos Deputados está ancorada em sua vivência técnica e política. Ele relembra que já ocupou o cargo de secretário de Estado por cinco vezes, distribuídas em quatro pastas diferentes, o que inclui passagens pelas secretarias de Governo, Casa Civil, Inovação e Saúde. “Eu estou preparado para representar o Espírito Santo no Brasil; me sinto muito preparado para isso”, avalia o parlamentar, reforçando que a bagagem na gestão do Executivo e no Legislativo estadual lhe fornece a base necessária para enfrentar os debates nacionais.
Entre as principais batalhas que pretende travar no Congresso Nacional, Hoffmann destaca a urgência em reestruturar o modelo de financiamento do Sistema Único de Saúde. O pré-candidato alerta para o esgotamento da capacidade financeira de estados e municípios, que estariam chegando ao limite do que podem comportar. Para ilustrar o desequilíbrio e a sobrecarga regional, ele resgata o cenário do início da primeira gestão do atual governador, em 2011, quando o governo federal era responsável por 70% do custeio da saúde pública no Espírito Santo, restando 30% aos cofres estaduais.
“No ano passado, quando eu terminei o meu primeiro e único ano à frente da Secretaria de Saúde, nós fechamos a minha prestação de contas com 73% dos recursos sendo estaduais e 27% federais. Houve uma inversão de quem financia a saúde no Brasil”, detalha o deputado, alertando que essa é uma realidade compartilhada por todos os entes federativos.
Diante desse quadro, ele enfatiza a necessidade de usar o mandato em Brasília para atuar de forma presente e cobrar que a União cumpra o seu papel constitucional de garantir o financiamento adequado da saúde pública brasileira.
Rejeição à polarização ideológica
Ao projetar sua postura na Câmara dos Deputados, Hoffmann adota uma posição categórica em relação ao atual clima de acirramento no debate nacional. O parlamentar descarta qualquer tipo de envolvimento em disputas que não apresentem resultados práticos para a melhoria da qualidade de vida da população.
“Não contem comigo para essa briga insana ideológica que está acontecendo no país. Não estou interessado em ser deputado federal para participar de briga que não coloca sequer um prato de arroz e feijão na mesa de nenhum capixaba e de nenhum brasileiro”, diz. Hoffmann lamenta que o Brasil tenha se perdido em discussões que não geram desenvolvimento e reafirma que seu foco será em pautas de produção.
Com a promessa de atuar de forma republicana e dialogar com quem quer que o povo brasileiro escolha para a Presidência da República, o pré-candidato reitera que sua prioridade máxima será a defesa dos interesses do Espírito Santo, movido pela necessidade de retribuição. “Eu conheço esse povo trabalhador, ordeiro, que gosta de trabalhar; então eu me insiro nisso, eu gosto de trabalhar, eu gosto da vida pública. E se eu tiver a oportunidade é isso que eu vou levar na minha cabeça e no meu coração. Esse sentimento de gratidão e de necessidade de retribuir toda a generosidade que o povo do Espírito Santo tem comigo”, conclui.
Retorno à Assembleia e o sentimento de obrigação
Deputado, o senhor chegou à Assembleia Legislativa após uma longa trajetória em cargos de gestão no Executivo, além de sua trajetória acadêmica. O que mais o surpreendeu na rotina e nas responsabilidades de um mandato parlamentar?
Nessas secretarias por onde passei, sempre tive muitas responsabilidades. Ser secretário de Estado é uma honra, mas também é uma grande responsabilidade. Mas ser parlamentar, ter um mandato, é diferente. Tem um sentimento muito forte de obrigação de devolução para a sociedade. Não que isso não exista como secretário, mas como deputado isso é muito mais forte. Porque veja, eu tive 32.123 votos. São 32.123 pessoas que foram lá numa urna eletrônica, digitaram o meu número, viram o meu rosto, confirmaram e acreditam no meu trabalho. E, quando comecei a trabalhar, lógico que não sou deputado só dessas pessoas. Mas há um sentimento de que é preciso retribuir a confiança que essas pessoas depositaram na gente. É uma responsabilidade muito grande. Muita gente votou em mim sem sequer eu conhecer essas pessoas. Então, esse sentimento traz uma gratidão muito grande, traz o orgulho de ter feito um trabalho bem feito que gerou esse resultado, mas traz também essa responsabilidade, esse sentimento de que tenho que fazer alguma coisa por essas pessoas, tenho que fazer algo pelo meu Estado, pelas cidades que represento.
Pautas e projetos que marcaram o mandato
Ao fim de seu primeiro mandato, quais pautas ou projetos o senhor considera terem melhor simbolizado a sua atuação na política?
Olha, quando entramos no mandato parlamentar, acho que tem dois tipos de atuação muito fortes. O primeiro é o papel do legislador mesmo. Como parlamentar, deputado, somos legisladores. Então, esse é um papel que cumprimos. E apresentamos nesse período diversos projetos de lei muito relevantes. Por exemplo, recentemente aprovamos uma política, a construção de uma política estadual — que espero que seja sancionada pelo governador Ricardo Ferraço, e tenho certeza que será — para as pessoas com altas habilidades e superdotação. Essas pessoas eram, até então, invisíveis à gestão pública. E são pessoas que às vezes sofrem bullying nas escolas. Então, aquilo que parece uma bênção, se não for bem tratado, pode se tornar uma maldição. Fizemos uma audiência pública muito grande e, a partir dela, trouxemos especialistas de São Paulo para falar; falaram de maneira virtual conosco. A partir dessa audiência pública, junto com as famílias que têm representação, construímos um projeto de lei. Passamos um ano com esse projeto sendo elaborado e o apresentamos, e ele foi aprovado na Assembleia. Esse é um dos papéis. O outro é representar também os municípios. Sempre que estamos na atividade parlamentar, somos procurados por prefeitos, vereadores, lideranças, em busca de alguma realização que o poder executivo precisa fazer. Essa representação também considero muito importante. Ou seja, o parlamentar é uma espécie de intermediário, de interlocutor; ele é uma espécie de voz dessa sociedade, que às vezes não consegue chegar ao governador do Estado, a um secretário de Estado. Nesse período também realizamos muitos trabalhos nessa direção, com a Secretaria de Saúde, de Educação, com o DER, que trabalha a parte de estradas e construções. Esse trabalho também ocupou muito da nossa atividade parlamentar. Cuidamos das APAEs, das Pestalozzis, das pessoas com deficiências físicas e mentais. Sempre trabalhamos essa pauta da educação, da educação especial, e mais recentemente também entrou muito forte na minha vida a pauta da saúde. Mas sempre olhando — e destaquei isso quando aprovamos a lei das pessoas com altas habilidades — para aquelas pessoas que as políticas públicas ainda não alcançaram, ou alcançam ainda de maneira não adequada. Costumo falar: é a política pública que alcança as pessoas que são invisíveis aos olhos do Estado. O olhar para a APAE, para os direitos da pessoa com deficiência, sempre foi muito forte. As pessoas com paralisia cerebral também. Isso pautou minha atuação como parlamentar e depois também como secretário de Saúde.
Desafios na Secretaria de Saúde
O senhor liderou a SESA com um orçamento recorde e sua gestão é avaliada como um sucesso. A Saúde costuma ser uma das áreas mais cobradas pela população e uma das mais complexas da administração pública. Qual foi o momento mais desafiador da sua passagem pela secretaria e como ele foi enfrentado?
Nossa, essa pergunta é difícil, porque foram muitos desafios grandes e importantes. Aliás, tudo na Secretaria de Saúde é muito grande. A principal razão é porque sempre envolve vidas. Mas acho que tivemos dois grandes desafios, e o maior de todos foi a crise que tivemos aqui em Linhares, no Hospital Rio Doce. Fomos pegos de surpresa da noite para o dia com uma comunicação da antiga diretoria do hospital sobre o fechamento da maternidade. É bom lembrar que, hoje, em função das normas de vigilância, do Ministério da Saúde, da Anvisa, sobre maternidade, praticamente não temos mais maternidades nas cidades pequenas. Porque para sustentar uma maternidade é muito caro pelas exigências dessas normas. Em função disso, o Hospital Rio Doce se tornou referência em maternidade de alto risco, partos de alto risco, para toda uma região; não é só para Linhares. Isso é importante falar. São centenas de crianças ali que nascem praticamente todos os dias e nos deparamos com um ofício avisando que, a partir das próximas 48 a 72 horas, fechariam a maternidade. Ali tivemos que assumir uma responsabilidade muito grande de garantir as escalas médicas. Contamos com o apoio dos demais hospitais filantrópicos. Destaco aqui o papel da Santa Casa de Vitória e do Hospital São José de Colatina. Colocamos nossa equipe para trabalhar. Estive pessoalmente duas vezes no hospital nesse período, mas meus subsecretários estiveram permanentemente, conferindo de próprio punho as escalas e a presença dos médicos para que não houvesse fechamento. Cheguei a falar: o governo Renato Casagrande e Ricardo Ferraço não fecha hospitais, a gente abre hospitais. Essa frase marcou um pouco o momento e de fato aconteceu. É uma realidade: estamos abrindo hospitais e não fechando. Não poderíamos deixar um hospital com a história e a importância do Hospital Rio Doce passar por isso. Superamos a crise e depois, em parceria com o Ministério Público — destaco o papel do Ministério Público nesse momento, que também foi parceiro —, conseguimos fazer uma transição segura da gestão anterior da Fundação, que administrava o Hospital Rio Doce, para a Santa Casa de Misericórdia, que assumiu o hospital e o estabilizou. Longe de estar perfeito, porque não é do dia para a noite, não é porque uma direção saiu e outra assumiu que a coisa muda da noite para o dia. Existe um endividamento muito grande, vícios antigos naquele hospital, que com o tempo a Santa Casa vai mudando essa realidade, melhorando ainda mais a qualidade da assistência. A crise também da contaminação do Hospital Santa Rita, referência em Oncologia da Grande Vitória, foi um momento que exigiu presença e atuação rápida e segura tecnicamente. Conseguimos identificar o que estava acontecendo e superar aquele momento. E o desafio do dia a dia de tocar uma pasta com orçamento de quase 6 bilhões de reais, 10.500 servidores, 40 unidades ambulatoriais e hospitalares próprias e filantrópicas — isso é um desafio de gestão. A Secretaria de Saúde, por si só, é maior que algumas cidades do Espírito Santo. Fizemos no ano passado 173 mil cirurgias eletivas, oferecemos mais de um milhão de consultas, mais de 700 mil exames especializados; enfim, houve um desafio de fazer essa gestão no dia a dia, que não é fácil.
Lições da gestão pública
Depois de comandar uma das maiores estruturas do governo estadual, qual lição de gestão pública o senhor leva dessa experiência e acredita que continuará influenciando sua atuação política?
A primeira delas, que é algo que devemos sempre buscar na gestão, é pensar fora da caixa, pensar fora do quadrado, porque na gestão pública há uma maneira de fazer as coisas sempre do mesmo jeito. Na Secretaria de Saúde, fazendo as coisas sempre do mesmo jeito, já estávamos alcançando bons resultados, mas quando mudamos um pouquinho o jeito em algumas coisas, os resultados ficaram melhores. Por exemplo, acho bom destacar: tínhamos uma cultura de centralização de serviços de média e alta complexidade, e invertemos essa lógica para uma lógica de descentralização. Temos quatro regiões de saúde. Linhares, por exemplo, pertence à região central de saúde, composta por 14, 15 municípios, e aqui só tínhamos um serviço de oftalmologia estadual em Baixo Guandu. Imagine o morador de Linhares que precisa fazer cirurgia de catarata: ele ia a Baixo Guandu, fazia consulta e exame, voltava; depois ia novamente para a cirurgia de um olho, voltava; no outro dia para o outro olho, voltava; e após dois, três dias ia para a revisão. A maioria dessas pessoas tem baixa condição financeira, depende do transporte da prefeitura. O carro saía cedo, porque o primeiro paciente é operado logo cedo, e só voltava no final da tarde. Muitas vezes essas pessoas não têm nem condição de se alimentar no município onde estão. E o que fizemos? Trouxemos a oftalmologia para Linhares. Agora temos Baixo Guandu, Linhares, e estamos abrindo em Colatina. Já fizemos mais de 6 mil cirurgias aqui em Linhares. Atendemos não só Linhares: para Rio Bananal, por exemplo, é muito mais perto vir a Linhares do que a Baixo Guandu. Então Linhares atende uma microrregião, Baixo Guandu outra, e Colatina vai atender outra. Com isso conseguimos levar o serviço para mais perto das pessoas. Essa realidade fizemos também ao norte e ao sul, levando consultas, exames e cirurgias para perto da casa das pessoas. Acho que entra uma coisa importante: o gestor público tem que ter sensibilidade e empatia, mesclar a visão técnica com a visão humana, porque, quando pensamos só tecnicamente, é mais barato centralizar. Mas e o ser humano nisso? E as pessoas? E a vida delas? Quando descentralizamos, reduzimos o risco nas estradas. Na teleconsulta, não tínhamos esse serviço. Depois que entrei, o governador Casagrande me determinou: vamos resolver esse problema das consultas. Implantamos a teleconsulta nos 78 municípios e tiramos quase 100 mil pessoas no ano passado das estradas. Quase 100 mil deixaram de fazer viagens de centenas de quilômetros. Com a teleconsulta, resolvemos outro problema: trazer mais profissionais em especialidades raras, como neuropediatria. Temos cerca de 10 a 15 neuropediatras cadastrados para todo o estado. Se você quiser uma consulta particular com um neuropediatra, dificilmente achará disponível pelo plano de saúde. E se conseguir pagar R$ 1.000 a R$ 1.500, talvez consiga uma consulta no fim do ano, em 5 ou 6 meses. Com o modelo de teleconsulta, o profissional pode estar em qualquer parte do Brasil ou do mundo, falando português. Sempre que inaugurávamos uma sala de teleconsulta, fazíamos uma simulação. Encontrávamos profissionais na Espanha, nos Estados Unidos, em outras partes do mundo, e espalhados por todo o Brasil: Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, Recife, Porto Velho. A saúde tem urgência. As pessoas doentes têm urgência. Abrimos, nesse período, 15 serviços de colonoscopia e endoscopia no sul do Estado. Imagine fazer o preparo para colonoscopia, que é muito complicado, e ter que viajar centenas de quilômetros para fazer o exame. É desumano. A pessoa está desidratada, precisa fazer o exame perto de casa. No sul, abrimos cinco serviços diferentes: em Apiacá, Muniz Freire, um segundo em Cachoeiro de Itapemirim, e em outros municípios, como Itapemirim, para aproximar os serviços. Sabe quanto isso custou a mais? Zero. Pegamos o mesmo contrato e redistribuímos. Foi questão de criatividade. O mesmo com os óculos: distribuímos cerca de 80 mil óculos por ano. Antes, a pessoa ia a Baixo Guandu, fazia consulta, pegava receita, ia a Colatina provar armação, voltava, depois buscava o óculos. Agora, fazemos 100% das consultas e entregas nos 78 municípios. Ontem mesmo, em Pancas, foram entregues quase 200 óculos; entregamos recentemente cerca de 1.200 óculos com o governo de Ricardo Ferraço, e vamos entregar 5 mil agora, a primeira entrega de 1.600 óculos aqui em Linhares. As pessoas fizeram consulta aqui, exame, prova do óculos e vão receber aqui. Custo zero adicional. O mesmo contrato, a mesma empresa, mas dissemos: agora a matriz fica em Colatina e você vai atender toda a região de forma itinerante.
Por que buscar uma cadeira na Câmara dos Deputados
Depois de ocupar cargos estratégicos no Executivo e passar pela Assembleia Legislativa, agora o senhor se apresenta como pré-candidato a deputado federal. Por que entende que este é o momento?
Estou preparado para representar o Espírito Santo no Brasil; me sinto muito preparado para isso. Por quê? Porque já acumulo experiência: fui secretário de Estado cinco vezes, em quatro pastas diferentes. Fui secretário de Governo duas vezes, chefe da Casa Civil, secretário de Inovação, Educação Profissional e Desenvolvimento Econômico e, por último, secretário de Saúde. Tenho boa experiência na gestão pública. E sou deputado estadual, então também tenho experiência no Legislativo. Me sinto preparado para representar o Espírito Santo em Brasília. Estou colocando meu nome, em primeiro lugar, à exposição do partido; ainda não temos convenções, meu nome precisa ser aprovado. Depois, dando tudo certo, colocarei meu nome à disposição da população capixaba. Por que ir para Brasília? Porque algumas batalhas precisam ser tratadas lá e me sinto pronto para elas. Ao passar pela Secretaria de Saúde, vi a necessidade de cobrar mais firmemente o governo federal sobre o financiamento da saúde. No início da primeira gestão Casagrande, em 2011, 70% dos recursos que financiavam a saúde pública do Espírito Santo eram federais e 30% estaduais. No ano passado, quando terminei meu primeiro e único ano à frente da Secretaria, fechamos a prestação de contas com 73% dos recursos estaduais e 27% federais. Houve uma inversão de quem financia a saúde no Brasil. Essa realidade do Espírito Santo é a de todos os estados. Os estados e municípios estão chegando ao limite do que podem comportar. Precisamos ter presença e cobrar o governo federal para que cubra uma de suas funções constitucionais na saúde pública: financiá-la. Essa é uma batalha importante que vamos trabalhar em Brasília. Fora isso, a batalha da infraestrutura do Espírito Santo. A reforma tributária traz desafios, como manter e atrair novos investimentos. Precisamos reforçar nossa estrutura portuária, rodoviária, aeroportuária. Conheço essa realidade do Estado. Conheço os 78 municípios, boa parte dos distritos, as potencialidades e carências. Estou pronto para chegar em Brasília e travar batalhas importantes para nosso Estado e nosso povo.
Posicionamento diante do acirramento político
O debate nacional tem sido marcado por um forte acirramento das discussões políticas. Como o senhor pretende se posicionar e quais temas devem estar no centro da discussão para o Espírito Santo?
Não contem comigo para essa briga insana ideológica que está acontecendo no país. Não estou interessado em ser deputado federal para participar de briga que não coloca sequer um prato de arroz e feijão na mesa de nenhum capixaba e de nenhum brasileiro. Infelizmente, no Brasil, nos perdemos em discussões que não geram desenvolvimento para o país nem para o Estado. Estou interessado em ser deputado federal para ir a Brasília discutir pautas relevantes para o Estado e de produção. Falei de duas muito importantes: infraestrutura e saúde. Mas temos também educação e qualificação profissional. Minha passagem pela Secretaria de Inovação, Tecnologia, Formação Profissional e Desenvolvimento Econômico me deu conhecimento da educação profissional e superior e vontade de trabalhar fortemente por essa pauta. Precisamos de mão de obra qualificada, pessoas de nível técnico e superior, para gerar empregos de qualidade para o povo capixaba dentro da infraestrutura. Quero ir para Brasília defender os interesses do nosso povo e do nosso Estado. Não participarei de debates ideológicos, lidarei com qualquer um que o povo brasileiro escolha para presidente, mas sempre colocando os interesses do Espírito Santo em primeiro lugar. Conheço hoje todos os municípios do Estado, 100%. Conheço as potencialidades: agrícolas, industriais, turísticas. Conheço a realidade, conheço o povo capixaba, trabalhador, ordeiro, que gosta de trabalhar. Me insiro nisso, gosto de trabalhar, gosto da vida pública. Se tiver a oportunidade, se Deus e o povo capixaba me derem essa chance de estar em Brasília, isso que vou levar na minha cabeça e no meu coração. Esse sentimento de gratidão e necessidade de retribuir toda a generosidade que o povo do Espírito Santo tem comigo.







