Projeto que dificulta aborto legal para meninas menores de 14 anos pode ser votado no Senado

Um projeto de decreto legislativo (PDL) que derruba uma resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) sobre o atendimento a crianças e adolescentes vítimas de violência sexual entrou na pauta da Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado. A votação pode ocorrer nesta terça-feira, 2 de junho de 2026.

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Aprovado na Câmara dos Deputados em novembro de 2025, o PDL 3/2025 anula a norma do Conanda publicada em dezembro de 2024. Essa norma estabelecia um protocolo específico para organizar o fluxo de atendimento entre saúde, assistência social, segurança pública, órgãos de proteção e Justiça. O objetivo era garantir o direito à interrupção legal da gravidez em casos de estupro, evitando atrasos ou constrangimentos, e reconhecer os riscos graves à saúde, à vida e à cidadania que a gravidez forçada impõe a meninas e adolescentes.

Nos últimos dias, a senadora Damares Alves (Republicanos-DF), relatora favorável ao projeto no Senado, pressionou o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), para incluir a proposta na pauta. Damares alega ser necessário derrubar uma “resolução equivocada”. Alcolumbre sinalizou que colocaria o tema para votação nesta terça-feira. A tramitação, no entanto, ocorrerá apenas na CDH. Caso aprovado, o texto seguirá para o plenário. Embora o fluxo normal exigisse a análise da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ), a urgência do caso pode acelerar o processo.

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Vale lembrar que, antes mesmo da publicação da resolução do Conanda, Damares obteve uma liminar suspendendo a norma. Dias depois, o desembargador federal Ney Bello, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), derrubou a decisão e autorizou a publicação. Na ocasião, o magistrado afirmou que seria um “equívoco crasso” manter suspensa uma regra que protege crianças vítimas de estupro sob o argumento de proteger o nascituro. “Uma sociedade em que suas instituições privilegiam o embate ideológico sobre a proteção de menores vítimas de violência está fadada ao fracasso”, escreveu.

Os principais argumentos dos deputados que aprovaram o PDL, repetidos agora por apoiadores no Senado, são dois. O primeiro é que a resolução do Conanda retiraria a exigência de boletim de ocorrência para a realização do aborto legal, o que dificultaria a investigação do crime e a proteção continuada. O segundo é que a norma tiraria o poder dos pais de decidir sobre o atendimento de saúde da criança, incluindo o acesso ou não ao aborto legal.

Em resposta, a campanha “Criança Não é Mãe” distribuiu uma cartilha aos senadores explicando que a resolução não retira a exigência do boletim de ocorrência simplesmente porque a lei já não o exigia. O texto diz: “Isso evita atrasos, barreiras institucionais e agravamento do sofrimento da vítima”. A norma, na verdade, prevê a comunicação ao Conselho Tutelar, a notificação compulsória à autoridade sanitária e a comunicação sigilosa à autoridade policial.

Nos últimos dias, integrantes do Conanda e movimentos feministas se organizaram contra o projeto. Eles denunciam que a discussão está baseada em desinformação e pânico moral. Délia Martins, presidente do Conanda, afirma: “Esse debate no Senado é conduzido por desinformação e pânico moral, não por uma discussão sobre a realidade concreta dessas meninas que são vítimas de violência sexual”. Vinculado ao Ministério dos Direitos Humanos e Cidadania, o Conanda é o órgão responsável por formular, fiscalizar e deliberar políticas públicas para a infância e a juventude.

A resolução do Conanda também orienta que as crianças sejam ouvidas em ambiente seguro. Caso o agressor faça parte da família, o protocolo determina o acionamento de outras esferas de cuidado, como o Conselho Tutelar, o Ministério Público ou a Defensoria Pública. Délia Martins conclui: “A derrubada dessa resolução só vai favorecer a pedófilos e a agressores, que estão interessados na desorganização”. Além disso, a norma reconhece o assédio no ambiente digital e o uso de deepfakes (manipulação de imagem) para fins sexuais como formas de violência sexual online.

Os Ministérios das Mulheres, da Justiça e dos Direitos Humanos já publicaram notas técnicas apontando a inconstitucionalidade do projeto e alertando para o impacto negativo que sua aprovação teria sobre crianças e adolescentes vítimas de violência sexual. Em maio de 2026, o Conselho Nacional dos Direitos da Mulher enviou ofício ao presidente do Senado pedindo uma reunião para discutir os impactos do PDL. O documento foi assinado por mais de uma dezena de entidades, incluindo o Conselho Federal de Psicologia e a Coalizão Negra por Direitos.

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