BRICS potência busca petróleo brasileiro em crise energética
Como desdobramento de longo prazo do conflito liderado pelos Estados Unidos contra o Irã, que influencia os valores no mercado global de energia, nações altamente dependentes de importações de petróleo e gás, a exemplo da Índia, têm procurado ampliar sua rede de fornecedores e rotas de escoamento.
A Índia, terceiro maior comprador de petróleo bruto do mundo, está recorrendo a cadeias de exportação além do eixo árabe, com destaque para a América do Sul e a África, além de retomar negociações com a Rússia, país que viu sua receita com exportações de petróleo crescer de forma expressiva após o início do conflito.
De acordo com a Agência Internacional de Energia (IEA), cerca de 20 milhões de barris de petróleo passavam diariamente pelo Estreito de Ormuz, que agora enfrenta limitações de navegação impostas pelo Irã. Aproximadamente 80% desse volume era direcionado a países asiáticos, entre os quais China e Índia.
Além do petróleo, essa via é essencial para o comércio mundial de gás natural liquefeito (GNL). Quase 20% de todo o GNL comercializado globalmente utiliza essa rota.
No caso da China e da Índia, as aquisições energéticas vinham principalmente de Iraque, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Catar, nações cujas exportações atravessavam o estreito.
Estima-se que até 64% do petróleo importado pela Índia passava pela região do Golfo Árabe, segundo cálculos internacionais.
Com o conflito, as remessas iraquianas para a Índia sofreram um impacto severo. O Iraque figurava entre os três principais vendedores de petróleo para o país indiano. Conforme dados da consultoria Kpler, a Índia não comprou nenhum volume de petróleo vindo do Iraque em abril.
Embora Bagdá tenha negociado com o Irã a abertura temporária de corredores limitados para a passagem de seus navios petroleiros pelo Estreito, a quantidade adquirida deve ficar em apenas 40 mil barris por dia até o fim de maio, conforme noticiou o portal Oilprice.
Isso indica que a Índia precisará direcionar sua demanda para áreas alternativas, especialmente no Sul Global e entre seus parceiros do Brics.
Um dos fornecedores que ganha destaque é a Rússia, que tem se aproximado da potência asiática desde as sanções ocidentais aplicadas a Moscou após o início do conflito na Ucrânia. Refinarias indianas começaram a adquirir grandes volumes de petróleo russo com descontos.
Agora, com a crise no Golfo, a Rússia tornou-se a principal vendedora de petróleo para a Índia. As refinarias indianas também se beneficiam de flexibilizações temporárias dos Estados Unidos para a compra do insumo.
Outros países que têm ampliado suas vendas são o Brasil e a Venezuela, que agora integram, ao lado da Rússia, o grupo dos maiores fornecedores de petróleo bruto para o mercado indiano.
No caso venezuelano, as alterações na gestão do setor, impulsionadas pela influência dos EUA, facilitaram o comércio internacional e eliminaram antigas sanções norte-americanas que limitavam as exportações.
Se mantidos os volumes atuais, a Venezuela deve se tornar o terceiro maior vendedor de petróleo para a Índia, atrás apenas de Rússia e Emirados Árabes Unidos. Foram cerca de 283 mil barris diários em abril e 400 mil barris por dia em maio, de acordo com o Oilprice.
O petróleo bruto também é o principal item de exportação brasileiro para o mercado indiano. O Brasil ocupa a quarta posição entre os maiores exportadores da commodity para a Índia, com aproximadamente 4,57 milhões de barris diários somente em abril.
Na África, Nigéria e Angola também intensificaram as vendas para refinarias indianas, apesar dos custos logísticos mais altos devido à distância das rotas marítimas.
As exportações africanas de petróleo representam até 40% de todo o comércio com a Índia. O petróleo nigeriano é particularmente valorizado pelo baixo teor de enxofre, com características adequadas para parte do parque de refino indiano.
Embora tenha evitado crises de desabastecimento, a Índia aumentou os preços dos combustíveis desde o início da crise, o que afeta a cotação da rupia indiana e agrava a inflação no país.
Mesmo assim, Nova Délhi continua investindo em fontes renováveis, especialmente hidrogênio verde, biocombustíveis e no setor de eletrificação.
O país é o terceiro do mundo em capacidade instalada de energia renovável, embora o carvão ainda seja a base de sua matriz energética: cerca de 74% da eletricidade nacional continua dependente da queima desse combustível fóssil.







