É Tempo de Morangos, de Bruna Martiolli: literatura atravessa nossas vidas

Já faz algum tempo que Bruna Martiolli é presença constante no Instagram de quem gosta de literatura. A forma apaixonada como ela fala de livros e, principalmente, de Clarice Lispector, sempre encantou. Enquanto para muitos a literatura pertence aos excluídos e introvertidos, Bruna fez questão de mostrar que ela é a coisa mais descolada que existe. Quando o lançamento do seu livro foi anunciado, a curiosidade veio na hora: ouvir Bruna falar é um deleite, sua bagagem literária é enorme, e restava descobrir o que ela ainda tinha a contar, agora por escrito.

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Uma vida atravessada por livros

É Tempo de Morangos é, principalmente, sobre a Bruna. Mas também é, principalmente, sobre livros. A obra trata de como os livros atravessam Bruna e de como Bruna caminha pelos livros. Ao longo dos capítulos, ela revela detalhes íntimos e sensíveis sobre sua vida pessoal, sua família, seus relacionamentos, seus valores e seus pensamentos — e, enquanto isso, entrelaça a própria história com as histórias das obras que leu.

Terei sempre de ir eu porque há um impulso em mim que não cessa, um movimento que não aceita permanência por conveniência, que não compactua com o conformismo de conhecido no sofrimento.

Os livros em cada fase da vida

Em uma narrativa fluida e agradável, Bruna cita livros e mais livros de forma muito natural, apresentando ao leitor o que cada um lhe ensinou ou em que momento de sua vida determinada obra foi importante. Ela conta sobre seu ensino médio enquanto fala sobre A Hora da Estrela, conta sobre sua mudança para Portugal enquanto cita Fernando Pessoa, conta sobre a faculdade e sobre sua formação enquanto relembra Capitães de Areia.

Invejo Caeiro por viver o presente e aceitar o que é visível, por rejeitar a ansiedade de querer saber o que vem depois ou o que se passa na vida dos outros.

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É nítido que os livros são parte essencial da vida da Bruna e não só isso: também é nítida a clareza e a consciência que ela tem sobre esse fato. Com aparente facilidade, ela consegue dizer o que cada livro ou autor lhe ensinou, como se fosse capaz de tirar algo profundo e significativo de cada leitura que faz.

Uma conversa entre amigas

Ao longo da leitura, a sensação é de estar conversando com uma amiga, ouvindo-a contar sobre sua vida numa conversa às vezes divertida, às vezes melancólica. Os trechos em que Bruna menciona a avó são especialmente emocionantes. Cabe mencionar também a relação linda que ela tem com o pai, relação que já era admirada pelo Instagram e passou a ser admirada ainda mais com a leitura do seu livro.

A cultura brasileira é um banquete infinito, impossível de se consumir de uma vez. Ela se multiplica a cada leitura, em cada sala de aula, em cada aluno, em cada gesto de quem insiste em ensinar, apesar de todas as dificuldades. A poesia é nosso alimento e nossa sobrevivência.

O interessante dessa leitura é que a Bruna põe tanto de si e é tão transparente que é possível, inclusive, identificar pontos de discordância. Alguns pensamentos e formas de ver a vida são completamente opostos — e, mesmo assim, dá para compreendê-la e respeitá-la da mesma forma que se compreende e se respeita uma amiga que não pensa igual em tudo.

Uma nova visão sobre envelhecer

Muitas boas lições saíram dessa leitura, mas talvez a principal delas seja a forma como a Bruna vê o envelhecimento. É comum ter medo de envelhecer, e a visão dela sobre o tema faz repensar muitas certezas que pareciam estabelecidas. Certamente é um ponto de vista que ainda vai render elaboração e reflexão por bastante tempo.

Se tenho algo a oferecer ao mundo, é isto: uma vida entre palavras e a certeza de que há maturidades infinitamente mais libertadoras do que qualquer juventude idealizada.

Uma leitura que fica

É Tempo de Morangos pode ser uma leitura muito rápida, principalmente porque a Bruna escreve de forma muito agradável e é fácil passar várias páginas sem nem perceber. A experiência, porém, foi diferente: o livro acompanhou uma semana inteira. Uma semana bem difícil, diga-se de passagem. A leitura aconteceu um pouco todas as noites, com uma caneta em mãos, marcando as passagens preferidas e anotando indicações de livros. A sensação ao terminar foi de felicidade genuína e de uma enorme lista de livros a ler.

Literatura não é mero escapismo, nem entretenimento barato, mas também não deve ser enclausurada entre os muros acadêmicos. Ela vive no entre. Pode ser prazer, pode ser reflexão, pode ser denúncia, ou tudo isso junto.

Autora: Bruna Martiolli ✦ Páginas: 192 ✦ Editora: Intrínseca

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