O cinema vietnamita vive um momento de prosperidade nas bilheterias, impulsionado por sucessos de diversos gêneros. No entanto, um segmento permanece à margem dessa onda de crescimento: as produções voltadas ao público infantil. Em entrevista ao Văn Hoá, o diretor e Artista Meritório Trịnh Lâm Tùng oferece um diagnóstico franco sobre o cenário atual e aponta os caminhos necessários para consolidar uma indústria cinematográfica dedicada às crianças no país.
O Diagnóstico: Entre o Risco Comercial e a Falta de Identidade
Para Trịnh Lâm Tùng, a escassez de filmes infantis vietnamitas não é uma coincidência, mas o reflexo de um mercado que ainda não reconhece o público jovem como um grupo-alvo estratégico. Enquanto indústrias consolidadas cultivam o hábito de ir ao cinema desde a infância, no Vietnã, as crianças ocupam um papel secundário.
Os produtores hesitam em investir no setor devido a uma combinação de fatores:
Barreiras Financeiras: Os custos de produção, especialmente em animação, são elevados e a complexidade criativa é superior à de outros gêneros.
Pressão Comercial: É preciso cativar as crianças e, simultaneamente, convencer os pais a levarem seus filhos, o que gera uma dupla exigência de conteúdo e viabilidade.
Impacto Limitado: Em comparação com o terror ou a comédia — gêneros que geram debates e grandes audiências rápidas —, as produções infantis enfrentam dificuldades para criar um impacto comercial imediato.Aposta na Cultura Local como Diferencial
Movido pelo desejo de preencher esse vazio, Trịnh Lâm Tùng lançou A Pequena Trang Quynh: A Lenda do Touro Dourado. O projeto nasce de um questionamento fundamental: por que as crianças vietnamitas crescem identificando-se com Mickey Mouse ou Doraemon, e não com personagens que personificam o espírito, a história e o folclore do Vietnã?
O filme não é apenas uma obra artística; é um experimento. Ao mesclar elementos tradicionais — como cantigas de ninar e melodias folclóricas — com uma linguagem moderna e elementos de rap, o diretor busca testar a receptividade do público a narrativas locais contadas com técnica contemporânea.
“A vantagem singular do cinema vietnamita é seu rico acervo de folclore e história. Devemos explorar histórias que filmes estrangeiros têm dificuldade em recriar, como lendas locais e emoções que ressoam com a realidade das crianças em nosso país”, afirma o diretor.
O Caminho para a Sustentabilidade
Para competir com os gigantes internacionais que dominam o mercado durante o verão, Trịnh Lâm Tùng defende que a indústria vietnamita precisa de:
Inovação Criativa: Narrativas mais ágeis e visuais envolventes que acompanhem o ritmo do público atual.
Perseverança e Confiança: A construção de uma marca de entretenimento infantil é um processo de longo prazo. O foco em ganhos imediatos deve dar lugar a investimentos contínuos e ecossistemas de conteúdo robustos.
Qualidade Artística: O diretor enfatiza que a falta de interesse do público não é o problema, mas sim a falta de obras que realmente toquem as emoções. Quando a qualidade é alta, as famílias demonstram plena disposição para ocupar as salas de cinema.
Uma Visão para a Próxima Década
Ao olhar para os próximos dez anos, o cineasta projeta um cenário otimista, porém realista. Ele espera que o cinema infantil no Vietnã deixe de ser um evento sazonal — limitado apenas ao Dia Internacional da Criança — para se tornar uma fonte regular de entretenimento.
O objetivo final é a criação de Propriedades Intelectuais (PIs) sustentáveis: personagens memoráveis que acompanhem diferentes gerações e que possuam, inclusive, potencial de exportação. Embora o Vietnã ainda esteja nos passos iniciais, a convicção de Trịnh Lâm Tùng é clara: com investimento sistemático e criatividade, é possível não apenas alcançar o público interno, mas projetar a identidade vietnamita nas telas de todo o mundo.








