“ser” ou “ter”? Eis a questão!

​A lógica do capital não quer apenas o seu dinheiro; ela quer o seu tempo, a sua força de trabalho e a sua capacidade de imaginar a vida fora da engrenagem.

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​Trata-se de um sistema alimentado por um processo constante de expropriação. E a conta, inevitavelmente, chega no nosso corpo e na nossa alma: quanto mais autossustentável você se torna, menos dependente da lógica do mercado você é. E isso, para o sistema, é um “desvio” que precisa ser corrigido.

​Se ter uma horta no quintal te desacelera e te faz comprar menos, o cotidiano conspira para que você desista dela. Se preparar uma refeição do zero, descascando ingredientes de verdade e sentindo o cheiro da panela, consome as horas que você “deveria” estar produzindo, a indústria prontamente te entrega o ultraprocessado que te mata lentamente, mas aumenta a sua quantidade de horas trabalhadas e “produtivas”. É a perversidade perfeita: vende-se a solução rápida para o desgaste que o próprio sistema provoca.

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​Até o nosso refúgio foi capturado. O espaço do morar, que deveria ser lugar de afeto, cuidado e construção de vínculos, vai dando lugar a “caixotes” sem identidade. Os mais pobres se espremem em casas precarizadas nas periferias, enquanto a classe média está cada vez mais distante do sonho da casa própria — afinal, ter um miniapartamento de 40 m² pode custar mais de 1 milhão, dependendo do bairro.

​Morar não existe mais; a casa virou lugar de passagem, e não de permanência. A TV que quase nunca é ligada, o sofá que só junta poeira e a cama acaba sendo o único refúgio para os corpos cansados de uma rotina que não permite ter objetos de decoração, plantas, pets e memórias no lar. Tudo isso dá um trabalho que o sistema não enxerga como trabalho, porque, para o capitalismo, só é trabalho se gerar dinheiro.

​Os cubículos de 20 m² que víamos em Tóquio ou Xangai agora estão chegando ao Brasil. São Paulo já está vivendo a era dos microapartamentos — com as bênçãos do sistema capitalista!
​O preço da terra é reflexo do controle absurdo do mercado imobiliário sobre o direito à habitação, garantido na Constituição Federal, mas “esquecido” convenientemente pelo poder público.
​Com essa tal vida moderna, a casa reduziu-se à cama, onde a gente só encosta a cabeça para recarregar a bateria para, no dia seguinte, voltar à produção.

​Vai-se o apreço pela casa, vai-se o tempo da convivência, vai-se a criatividade. O resultado não poderia ser outro: uma sociedade exausta, doente e amargurada.
​Vendem-nos essa rotina envelopada como “liberdade”. Mas que liberdade é essa em que a própria vida não nos pertence?

​O trabalho é extraordinário quando sobra tempo para o trabalho. Ou seja, o trabalho remunerado precisa garantir o nosso sustento, mas sem impedir que façamos os outros trabalhos vitais e não remunerados: cozinhar, lavar, criar, decorar a própria casa, ter um hobby, conviver e dar atenção aos amigos e familiares… Tudo isso é trabalho, e o valor dele é tão grande que não existe dinheiro que possa pagar. Porém, num sistema que nos resume a instrumentos para gerar riqueza, o trabalho que não gera dinheiro vira obstáculo.

​Deixamos de ser enxergados pela ética, pelo caráter ou pela delicadeza das nossas escolhas afetivas para sermos medidos unicamente pela nossa utilidade e pelo nosso poder de compra. Na sociedade onde o “ter” engoliu o “ser”, quem não produz ou não consome torna-se invisível. Somos reduzidos ao que colocamos no carrinho.

​Aqueles que tentam viver de forma alternativa, buscando novas possibilidades dentro de um sistema engessado e destrutivo, acabam enfrentando um mundo inteiro de barreiras.
​Na contemporaneidade, resgatar o simples virou uma batalha! Ter um pé de couve no quintal, reservar duas horas do dia para cozinhar com calma ou cuidar do próprio espaço com carinho já não são mais coisas “normais” como antigamente, mas gestos conscientes de resistência.

​Resistir, hoje, é reivindicar o direito de desacelerar. É lembrar que a vida de verdade acontece justamente naquilo que o mercado não consegue precificar.

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Fabrício Costa
Fabrício Costa
Geógrafo e mestre pela UFES, Fabrício é o coração d'A Oca, no Centro de Vitória. Entre mapas e afetos, trocou o rigor técnico pela potência da arte e gastronomia. Bruxo, poeta e múltiplo, faz do seu território um espaço de acolhida, resistência e evolução constante.

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