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Globo de Ouro 2023: Steven Spielberg é mestre do cinema

“Os Fabelmans” é um raro caso, senão único, de autobiografia declarada feita por um diretor surgido na Nova Hollywood. Nem mesmo Martin Scorsese, marcante por, desde “Caminhos Perigosos”, de 1973, falar sobre a autenticidade das ruas e sua experiência de vida transpostas para a tela, ousou fazer um filme sobre si próprio.

Steven Spielberg não o fez por arrogância, inclusive porque ele expõe algo de seu passado íntimo, deixa uma fina e dura pátina de melancolia e vazio existencial nessa fábula de cores que remetem a uma sessão da tarde.

Recriar passagens e os personagens terem outro nome não muda a referência, que inclusive está dada em “Spielberg”, de 2017, documentário de reverência e também de descoberta sobre quem é o cineasta.

Spielberg é um caso único. Um Midas, que transforma em ouro o que toca, seja na direção, na produção (Joe Dante e Robert Zemeckis são exemplos) e em empreitadas industriais, como a DreamWorks.

Mas sua trajetória é mais reluzente. Chama a atenção como um cineasta quase experimental em “Encurralado”, de 1971, e logo depois faz “Louca Escapada”, de 1973, um filme bem no espírito da Nova Hollywood, de rebeldia ao sistema.

Inaugura o blockbuster com “Tubarão”, faz uma espécie de obra de arte em “Contatos Imediatos do Terceiro Grau” e vai migrando para o cinema de entretenimento —mas sempre ostentando princípios estéticos, precisão e uma declarada afinidade com a emoção.

Depois, vai tingindo sua filmografia com obras consideradas mais sérias como “A Lista de Schindler”. Mais à frente, já nos anos 1990 e 2000, aí sim radicaliza a experimentação tecnológica ao mesmo passo que visita as sombras e a violência do mundo, algo presente no devastador “Munique” e na ficção científica “Guerra dos Mundos”.

Em síntese, um cinema que conseguiu dar alguma dignidade e elevação ao que poderia ter descambado para o mero piloto automático pelo retorno financeiro, algo aliás perceptível nas franquias e que, salve, o Spielberg diretor nunca quis se sujar.

Elevar a história de si próprio aos alpes da mitologia não parece uma operação consciente, nem mesmo com essa linhagem de filmes. Spielberg, entre seus colegas, é o único hoje que poderia ser coroado como mestre.

Termo movediço que sugere um status que, por exemplo, a denominação de gênio não possui. Orson Welles e Jean-Luc Godard, por exemplo, são gênios absolutos, mas ninguém os chamou de mestres. John Ford e Akira Kurosawa são mestres. Alfred Hitchcock, por sua vez, já teve os dois termos relacionados às suas pessoas, mas Clint Eastwood, que de certa forma é, pela idade e legado, um mestre, jamais ganhou esse apelido.

E por que Spielberg e não seus amigos geracionais? Porque Scorsese está, há 20 anos e bastante encantado, experimentando o cinema mainstream, de certo modo fazendo o que Spielberg fizera lá atrás.

Às voltas com um projeto impossível, “Megalópolis”, Coppola tem preferido retocar sua Capela Sistina, mais conhecida como “Apocalypse Now” e a trilogia “O Poderoso Chefão”. George Lucas é um homem do cinema, mas não um cineasta. E Brian De Palma vem sendo escanteado há tempos, tal ocorre com as virtuoses.

Exceto Lucas, um empresário, os demais mereciam ganhar o cetro que, por acaso, parece estar mesmo nas mãos de Spielberg. O que não é injustificado. O próprio De Palma diz, no filme de 2017, que “Steven é o diretor mais famoso do mundo”.

Dá para ir além e sacar que Steven Spielberg é o grande cinema de Hollywood, do espetáculo e da criação artística mais distinta e pura em diálogo quase nunca amigável com a fria tecnologia e o nefasto capital.

Cabelos e barba grisalhos, os 76 anos, os 33 longas de cinema que dirigiu e alguns outros feitos na arte cinematográfica fazem de Spielberg a imagem icônica de um mestre e detentor de uma sabedoria ancestral —a do cinema do século 20.

O mestrado de Spielberg é, antes, uma situação simbólica que indica o fim de um certo cinema —e de toda uma geração. Não por inatividade, pois ele e colegas continuam fazendo filmes, um punhado ótimo, como este “Os Fabelmans”. Mas porque a imagem hoje de Steven Spielberg (o cineasta, os filmes, o homem) é a da lenda, que é sempre algo remoto e eterno.

Não deixa de ser significativo que seu próximo projeto retome o célebre policial do clássico “Bullitt”, de 1968, agora Bradley Cooper no papel que foi de Steve McQueen. Sediado aqui e olhando acolá no século 20, um velho sábio como Spielberg poderá dar alguma dignidade na onda de refilmagens, reboots e afins a que a indústria tem recorrido ora bastante desastrada.

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