Uma prática curiosa vem ganhando espaço na Coreia do Sul: o chamado “tarô para animais de estimação”, serviço que promete auxiliar tutores a interpretar sentimentos e comportamentos de cães e outros animais por meio das cartas.
Em uma casa de adivinhação no bairro de Gangnam, em Seul, a cachorrinha E-seul participou de uma dessas sessões. Sobre a mesa, a taróloga Hwang Soo-kyung espalhou as cartas e permitiu que o animal se aproximasse delas.
E-seul cheirou o baralho e, na sequência, tocou algumas cartas com uma das patas. Hwang recolheu as cartas escolhidas e passou a interpretar os desenhos como possíveis indicativos sobre o estado emocional do animal. A cena integra um nicho que vem despertando a curiosidade de donos de pets no país.
Tutores buscam compreender melhor os animais
A dona de E-seul, Ryu Su-mi, levou a cadela para a consulta porque queria entender melhor alguns comportamentos do animal, que foi resgatado e passou por situações traumáticas.
Segundo Ryu, a cachorra apresenta determinados comportamentos que geram dúvidas e preocupações. A leitura, para ela, funcionou como uma forma de tentar compreender o que poderia estar por trás dessas reações.
Em entrevista à Reuters, a tutora explicou que a cadela ficou especialmente assustada com pessoas vestidas como paramédicos depois de Ryu ter passado por uma emergência médica em casa e precisado ser hospitalizada. A taróloga interpretou uma das cartas escolhidas pelo animal como um sinal de que o trauma ainda estaria presente, embora em processo de recuperação.
A prática, porém, deve ser encarada como uma forma de entretenimento ou espiritualidade e não substitui avaliação veterinária, diagnóstico médico ou acompanhamento comportamental profissional.
Taróloga afirma que os animais escolhem as cartas
Hwang Soo-kyung administra a Ace Sophia, uma casa de adivinhação localizada em Gangnam. Ela abriu o estabelecimento em 2014 e afirma que a procura pelo tarô para animais cresceu nos últimos anos.
Segundo Hwang, os animais podem selecionar as cartas por meio do olfato ou do toque. A partir das cartas escolhidas, ela realiza uma interpretação voltada ao comportamento e ao estado emocional que o tutor deseja compreender.
A taróloga também desenvolveu um material próprio para auxiliar na interpretação das cartas durante consultas com animais. Cães são os clientes mais comuns, mas a prática também pode envolver outros pets, incluindo tartarugas e répteis.
Consulta custa cerca de 20 mil won
O serviço também começa a se consolidar como um pequeno negócio dentro do mercado de espiritualidade e bem-estar animal.
Segundo Hwang, uma sessão custa cerca de 20 mil won, aproximadamente US$ 14. A profissional afirma que muitos clientes acabam retornando para novas consultas após a primeira experiência.
A procura acompanha o crescimento do interesse pelos animais de estimação entre os sul-coreanos e a transformação da relação entre tutores e pets.
Quase 3 em cada 10 lares têm animais
Dados do Ministério da Agricultura, Alimentação e Assuntos Rurais da Coreia do Sul mostram que 29,2% dos lares do país tinham animais de estimação em 2025.
O percentual representa um crescimento importante em relação aos 17,4% registrados em 2010. Entre os lares com pets, os cães representam 80,5%, seguidos por gatos, com 14,4%, e peixes, com 4,1%.
O levantamento também indicou que o gasto médio mensal por animal chegou a aproximadamente 121 mil won, considerando despesas como alimentação, cuidados veterinários, higiene e outros serviços.
O aumento da população de animais domésticos ajudou a criar um mercado cada vez mais amplo de produtos e serviços voltados aos pets.
Animais são vistos como membros da família
Para Hwang, uma das razões para o crescimento do tarô para animais está na mudança da relação entre pessoas e pets.
Os animais passaram a ocupar um espaço cada vez mais relevante dentro das famílias e, para algumas pessoas, tornaram-se inclusive uma das principais formas de companhia no dia a dia.
Esse vínculo faz com que os tutores busquem maneiras diferentes de compreender comportamentos que não conseguem explicar facilmente.
A ideia de descobrir o que um cachorro ou outro animal estaria “pensando” acaba funcionando como um atrativo para esse tipo de consulta.
Novo nicho acompanha expansão do mercado pet
O surgimento do tarô para animais é mais um exemplo de como o crescimento da posse de pets está criando novos nichos de consumo na Coreia do Sul.
Além de alimentação, veterinários, hotéis, creches e serviços de estética, surgem atividades voltadas à experiência emocional dos tutores com seus animais.
No caso do tarô, a proposta combina uma prática tradicional de leitura de cartas com o desejo dos donos de compreender melhor seus companheiros.
Embora não exista comprovação científica de que cartas de tarô consigam revelar pensamentos ou sentimentos de animais, a prática vem atraindo pessoas interessadas em buscar novas formas de interpretar o comportamento de seus pets.
Em Seul, o que antes poderia parecer apenas uma curiosidade já se transformou em um nicho de mercado em expansão, impulsionado por uma mudança cada vez mais evidente: os animais deixaram de ser vistos apenas como bichos de estimação e passaram a ocupar um lugar central na vida de muitas famílias.







