Afetos em código: a linguagem dos relacionamentos nas redes

Outro dia, ouvi uma psicóloga falando sobre como as redes sociais estão interferindo nos relacionamentos. Não apenas porque aproximam pessoas, facilitam encontros ou criam novas possibilidades de flerte, mas porque também criaram uma nova linguagem para os afetos. Fiquei pensando nisso. Até porque eu mesma já vivi esse tipo de situação. Quem nunca?

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Já me peguei tentando interpretar, inúmeras vezes, intenções a partir de comportamentos nas redes sociais. Fato é que a linguagem dos relacionamentos mudou. E talvez a gente ainda não tenha aprendido a ler direito esse novo idioma.

No Instagram, quase nada é apenas o que parece. Uma curtida pode ser só uma curtida. Uma visualização de story pode ser apenas alguém passando o dedo pela tela. Um emoji pode ser apenas um emoji, mas também pode não ser.

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Porque, nas redes sociais, criamos uma espécie de gramática dos afetos. Um sistema de signos, códigos e pequenos gestos que, isoladamente, parecem insignificantes, mas que, juntos, podem construir uma mensagem bastante clara.

O flerte migrou para o feed. Começa com uma curtida aqui, outra ali. Depois, a pessoa passa a curtir fotos antigas. E aí já existe uma diferença importante. Afinal, para chegar naquela foto de 2019, foi preciso entrar no perfil, descer, procurar. Não foi exatamente um acidente de percurso. Depois vêm os stories. Visualizar todos. Quase imediatamente. Às vezes, curtir. Às vezes, responder com uma carinha, um foguinho, um coração, uma risada. Às vezes, não dizer absolutamente nada, mas permanecer ali, acompanhando.
E existe ainda aquela mensagem aparentemente inocente: “Você está linda.”

A linguagem digital é cheia dessas pequenas insinuações. Não há necessariamente uma declaração explícita de interesse, mas existe uma sucessão de sinais que nós aprendemos a interpretar. O problema é que essa linguagem não tem dicionário. Um coração pode significar carinho, amizade, educação, desejo ou simplesmente hábito. Um foguinho pode ser elogio, flerte ou falta de criatividade. Uma visualização pode não significar absolutamente nada, mas também pode significar muito.

É por isso que discutir redes sociais e relacionamentos não é discutir futilidade. É discutir comportamento. Porque os relacionamentos contemporâneos também acontecem nesse território virtual. E aquilo que fazemos ali, ou deixamos de fazer, pode produzir efeitos concretos na vida afetiva. Inclusive aquilo que não postamos.

Há uma discussão interessante sobre a escolha de não publicar nenhuma fotografia com o parceiro ou a parceira. É claro que ninguém é obrigado a transformar relacionamento em conteúdo. Privacidade é legítima. Existem pessoas que simplesmente não gostam de expor a vida amorosa. E não dá para transformar a ausência de postagem em prova automática de desinteresse, traição ou falta de compromisso. Mas existe uma diferença entre preservar a intimidade e administrar a própria disponibilidade simbólica. Porque, em alguns casos, não postar também pode ser uma escolha estratégica.

A pessoa namora, mas o Instagram continua parecendo o perfil de alguém solteiro. Nenhuma fotografia. Nenhuma legenda. Nenhuma marca pública de que existe alguém ocupando aquele lugar. Talvez isso não seja relevante para a família, para os amigos próximos ou para quem já sabe do relacionamento. Mas pode ser bastante relevante para quem está olhando de fora: o/a antigo/a ficante, o/a ex-flertante, aquela pessoa com quem houve alguma coisa e que continua acompanhando os stories e os contatinhos que, eventualmente, ainda estão ali, orbitando.

Mas existe também o movimento contrário. A pessoa mal começou a ficar com alguém e já está postando como se tivesse encontrado o amor da vida. Foto juntos. Story no restaurante. Música romântica. Marcação. Coraçãozinho. Legenda enigmática. Às vezes, nem existe relacionamento definido ainda, mas o Instagram já recebeu o comunicado oficial. E aí também aparece o julgamento: “Nossa, mas já está postando? Quanta emoção!” É curioso. Quando a pessoa não posta, suspeitamos que esteja escondendo. Quando posta demais, dizemos que está emocionada. Como se demonstrar entusiasmo fosse, por si só, um problema.

No meio desse cabo de guerra surgiu o famoso soft launch. A pessoa quer comunicar que existe alguém, mas não exatamente quem. Aparece uma mão segurando outra. Dois copos na mesa. Um pedaço de ombro. Uma sombra. Um tênis ao lado do outro. Talvez uma silhueta no espelho. Nunca o rosto inteiro. É o relacionamento em modo teaser. Um jeito de dizer: “Sim, tem alguém”, sem precisar dizer quem. Talvez seja uma maneira legítima de preservar a intimidade. Talvez seja medo de anunciar algo que ainda pode não dar certo. Talvez seja simplesmente uma pessoa que não gosta de exposição. Mas também pode existir outra razão, menos romântica: não querer fechar completamente a porta para os contatinhos. Porque, enquanto ninguém sabe exatamente quem é aquela pessoa misteriosa, a disponibilidade permanece um pouco mais ambígua. As justificativas são quase sempre as mesmas:

“Quero me preservar da inveja alheia.”

“Eu não sou de postar.”

“Rede social não tem importância para mim.”

Tudo perfeitamente possível. Mas aí surge uma pergunta incômoda: se a rede social realmente não tem importância, qual seria o problema em repostar um story em que o/a parceiro(a) o/a marcou? Não é sobre transformar o relacionamento em vitrine. É sobre coerência. Porque uma coisa é não publicar nada porque você, de fato, não publica nada. Outra é publicar viagens, amigos, comida, academia, trabalho, cachorro, aniversário, pôr do sol, café e até a unha recém-feita, mas, quando aparece o parceiro, a discrição subitamente vira princípio.

É aí que a linguagem das redes começa a ficar interessante. Não porque uma foto seja prova de amor. Não porque a ausência dela seja prova de desamor. Mas porque escolhas também comunicam.

Publicar uma fotografia com o parceiro não significa apenas apresentar alguém para a família ou anunciar formalmente um relacionamento. Também significa produzir um signo público: “Existe alguém ocupando este lugar.”

E isso modifica a leitura de quem observa. É claro que uma foto no feed não impede ninguém de flertar. Não transforma uma pessoa em propriedade de outra. Não é contrato de fidelidade, mas comunica uma situação. Talvez seja justamente aí que esteja uma das questões mais interessantes dos relacionamentos na era das redes: o que estamos comunicando quando escolhemos mostrar? E o que estamos comunicando quando escolhemos esconder? Talvez o problema não esteja na curtida. Nem no emoji. Nem no story. Nem na fotografia que não foi publicada. Nem sequer no soft launch. O problema está no conjunto. Na repetição. Na intenção. Naquilo que uma pessoa faz questão de manter visível para alguns e invisível para outros. Porque relacionamento também é linguagem. E, nas redes sociais, estamos todos falando o tempo inteiro, inclusive quando não escrevemos uma única palavra.

A questão é saber se estamos dizendo exatamente aquilo que pensamos estar dizendo. E, principalmente, para quem.

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Caroline Pignaton
Caroline Pignaton
É formada pela Universidade Federal do Espírito Santo e mestre em Comunicação e Territorialidades pela mesma instituição. Assina o Diário da Feminista Depilada, um espaço de crônicas afiadas, sinceras e atravessadas pela experiência de uma mulher 40+, jornalista, feminista e mãe. Na coluna, episódios de machismo — dos mais sutis aos mais escancarados — ganham forma e linguagem, revelando como essas violências se intensificam e se tornam ainda mais cruéis a partir da maternidade. Um diário conduzido por ironia, crítica e afeto, para quem já se cansou de fingir que não vê.

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