Pragmatismo, a verdadeira solução para o Centro Histórico de Vitória

Empreender no Centro de Vitória é um desafio diário de manter-se de pé sem perder a serenidade e sanidade mental!

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Segunda capital mais antiga do Brasil, a nossa cidade guarda em suas ladeiras, escadarias e ruas as marcas de sucessivas eras: o colonial, o barroco, o neocolonial, o eclético e o moderno. No entanto, o que deveria ser um mosaico harmônico da nossa identidade transformou-se em uma verdadeira colcha de retalhos desarticulada.

Enquanto lutamos para preservar o patrimônio que ainda permanece de pé, cresce a pressão para desfigurar o bairro sob o discurso manso, mas perigoso que esconde uma ideia de “modernização”.

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O Centro não suporta mais intervenções estéreis e desprovidas de memória. Tampouco podemos achar normal palavras como “revitalizar” e “requalificar”, afinal, o bairro não está morto para ser revivido ou desqualificado para dar qualificação.

Esse malabarismo semântico nada mais é que a personificação do desrespeito pelos séculos de história que o Centro onde nasceu a capital carrega. Um bairro que deve ser RESTAURADO, pois somente o restauro recupera a qualidade daquilo que é bom, mas foi esquecido, bem como da brilho ao que já está vivo!

​Historicamente estruturado em torno da atividade portuária, comercial e administrativa e, na década de 1960 à meados da década 1990, tornou-se o epicentro de uma explosão varejista e imobiliária completamente anacrônica e insustentável, culminando num colapso que hoje sabemos que seria inevital, ao final da década de 1990 quando o bairro teve a sua dinâmica drasticamente alterada.

A expansão comercial impulsionou a verticalização onde o espaço territorial já não permitia o crescimento horizontal. Contudo, a partir da década de 1990, com a transferência de órgãos públicos e a migração das grandes redes de varejo para áreas mais novas da capital e o surgimento de um grande shopping center, o Centro enfrentou um esvaziamento profundo. Hoje, parte considerável de suas edificações permanece de portas fechadas ou relegada ao descaso.

​Esse cenário gerou um espaço plural e fragmentado que congrega diferentes tribos, trajetórias, propósitos e visões ideológicas que, apesar de enriquecer a sua vida cultural, também dificulta a convergência de um propósito de transformação pautado na coletividade!

O bairro nos últimos anos virou tema constante de palanques e redes sociais, perceberam que falar sobre seus problemas não requer conhecimento técnico, conhecimento de causa ou apontamento de soluções, afinal, o negativo engaja! O Centro se tornou um lugar disputado na pauta de políticos oportunistas das mais variadas vertentes ideológicas.

Também tornou-se comum ver críticas ácidas partindo de pessoas que não frequentam o Centro há dez ou quinze anos, alimentando narrativas superficiais que ignoram a realidade de quem vive, produz e investe aqui diariamente.

​Em agosto de 2019, escolhi o Centro de Vitória para morar e trabalhar. Ao longo desses anos, à frente da Oca, que completará sete anos neste 14 de setembro, vivenciei tanto a hostilidade de perseguições, preconceitos e ataques infundados quanto a solidariedade genuína de clientes, vizinhos e parceiros que compreendem o valor dessa resistência. Nesse percurso, aprendi que apontar as fragilidades do Centro tendo intenções reais de vê-lo melhor e apontando caminhos possíveis para restaurá-lo, não é rejeitá-lo, mas exigir o aprimoramento que ele merece!

​Meu constrangimento com o descaso que o bairro foi delegado é evidente! Mesmo quando eu era frequentador assíduo, mas, não morava e trabalhava por aqui, a inquietação já existia. Inúmeras vezes, ao receber turistas estrangeiros, me deparei com olhares decepcionados. Certa vez, ao receber uma morte americana que estava cursando pós doutorado na Universidade de Michigan e sua pesquisa era sobre José de Anchieta ao ver a igreja do Rosário fechada e em péssimas condições, ainda na gestão de Luciano Resende, disse: um gestor que permite isso deveria ser deposto do cargo e responder criminalmente. Infelizmente, de lá pra cá não mudou muita coisa e a história se repetiu, com gente do mundo todo e muitos brasileiros de outros estados a frustração é sempre a mesma: monumentos fechados e um entorno descaracterizado.

As casas históricas que outrora abrigaram médicos, engenheiros, artistas e figuras ilustres da cena capixaba foram demolidas ou mascaradas por placas de ACM, madeira e revestimentos de estética muito duvidosa como os porcelanatos e afins.

Raras são as exceções, como a Casa de Bamba, por exemplo, que está em imóvel tombado pelo patrimônio municipal e é devidamente sinalizada com seu memorial histórico. Tal feito deveria ser a regra mínima para todo imóvel que ainda possui características históricas no bairro, uma vez que sem elementos históricos não há centro histórico, mas apenas um bairro como outro qualquer.

​Enquanto o debate público se perde em disputas de ego, rivalidades retóricas e ideologias de ocasião, uma ameaça muito mais concreta avança silenciosamente: a pressão predatória da especulação imobiliária!

Com a saturação e os preços recordes do metro quadrado em outras regiões de Vitória, o Centro entra na mira de intervenções que desconsideram sua identidade em nome da padronização e da gentrificação. O mercado não tem compromisso com a memória, com o patrimônio material ou com a escala humana do bairro.
​O acervo histórico do Centro reúne desde edificações dos séculos XVI a XVIII até uma marcante arquitetura eclética e modernista do século XIX, com grande acervo de edificações especialmente na Av Jerônimo Monteiro, no Parque Moscoso e em ruas como a Nestor Gomes e a Rua Duque de Caxias e, por isso, exige instrumentos sérios de tombamento, restauração e retrofit feitos com consciência e com base no debate coletivo.

Além disso, o Centro concentra uma das maiores populações idosas da capital, o que impõe urgência em acessibilidade, arborização adequada, segurança nas calçadas e mobilidade voltada ao pedestre.

​Consensos básicos existem: todos concordam com a necessidade do aterramento da fiação aérea, com a padronização e redução da poluição visual, com a recuperação das fachadas e com o respeito aos marcos tradicionais, como o calçamento em pedraria portuguesa. Contudo, promessas firmadas em audiências públicas continuam sendo ignoradas pelo poder público, resultando em intervenções pontuais de qualidade questionável que são anunciadas como grandes feitos para uma população carente de investimentos estruturais.

​O Centro de Vitória não precisa de mais demagogia nem de salvadores de ocasião. O que este bairro exige é pragmatismo, união entre seus atores reais e um planejamento robusto que culmine em uma ampla política de investimentos públicos e privados valorizando quem aqui gera emprego, cultura e vida!

Só o respeito à história e o compromisso prático com a cidade podem garantir um futuro digno ao coração de Vitória. O centro vive porque tem história, tradição e memória, sem isso ele morre e seu legado de quase 500 anos desaparece!

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Fabrício Costa
Fabrício Costa
Geógrafo e mestre pela UFES, Fabrício é o coração d'A Oca, no Centro de Vitória. Entre mapas e afetos, trocou o rigor técnico pela potência da arte e gastronomia. Bruxo, poeta e múltiplo, faz do seu território um espaço de acolhida, resistência e evolução constante.

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