Partido de extrema direita vence eleição estadual histórica na Alemanha

O partido Alternativa para a Alemanha (AfD) alcançou a liderança nas eleições estaduais da Saxônia-Anhalt no último domingo (6), conforme indicaram as pesquisas de boca de urna. Com esse resultado, uma legenda de extrema direita fica próxima de assumir o poder em âmbito estadual pela primeira vez desde a Segunda Guerra Mundial.

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Ainda que não tenha conquistado a maioria absoluta, a AfD registrou 44% dos votos e impôs uma derrota contundente aos conservadores do chanceler Friedrich Merz. O cenário reflete a forte impopularidade da coalizão governista alemã em um contexto político cada vez mais fragmentado.

A legenda já é a mais popular da Alemanha em nível nacional e busca consolidar uma base para avançar com sua agenda, que prevê restrições severas à imigração, o restabelecimento de relações com a Rússia, o corte do apoio à Ucrânia e a saída do euro.

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No decorrer da apuração, ainda não estava definido se a AfD conseguiria formar governo. O significado político do pleito, porém, era evidente; segundo a emissora ZDF, a participação eleitoral foi expressiva, alcançando 77%.

“Fizemos história neste país”, afirmou Ulrich Siegmund, de 35 anos, candidato-líder da AfD na Saxônia-Anhalt. Ele atraiu milhares de pessoas aos seus comícios e repetidamente apresentou a vitória no estado como um primeiro passo para alcançar o poder nacional nas eleições federais previstas para 2029.

“O povo deixou absolutamente claro que finalmente deseja uma mudança política e, acima de tudo, mostrou que quer essa mudança conosco”, declarou Siegmund.

Quando os primeiros resultados de boca de urna foram divulgados, ele estava de braços dados com os dois líderes nacionais do partido, que riam com entusiasmo diante da dimensão da vitória. Comemorações eufóricas tomaram conta da reunião eleitoral da legenda em Magdeburg, onde apoiadores agitavam bandeiras alemãs e se abraçavam em clima de celebração.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, compartilhou uma captura de tela do resultado sem comentários em seu site Truth Social, enquanto líderes de extrema direita de outros países europeus saudaram a eleição como um mandato por mudanças.

Revés para Merz

O desfecho representa um revés considerável para Merz, cuja aprovação pessoal caiu a patamares historicamente baixos. Eleitores têm se afastado tanto das reformas planejadas para reanimar a economia estagnada da Alemanha quanto do estilo de comunicação do chanceler, marcado por gafes.

Uma sondagem da emissora ARD apontou que 87% dos eleitores do estado estavam insatisfeitos com o governo federal. Siegmund classificou Merz como o melhor cabo eleitoral da AfD, devido à sua impopularidade na região.

“Este resultado eleitoral é, acima de tudo, um voto de desconfiança no governo federal”, disse Marcel Fratzscher, presidente do Instituto Alemão de Pesquisa Econômica, à Reuters.

Merz prometeu revitalizar a maior economia europeia com reformas favoráveis às empresas e ampliação dos gastos, ao mesmo tempo em que alertou que uma vitória da AfD na Saxônia-Anhalt prejudicaria o estado e afastaria investidores estrangeiros da região.

Todas as principais legendas da Alemanha se recusaram a colaborar com a AfD, que foi classificada como extremista de direita pelo escritório local do serviço de inteligência interna do país.

Uma exceção é o pequeno partido Aliança de Sahra Wagenknecht (BSW), que parecia prestes a superar a cláusula de barreira para entrar no Parlamento. O BSW sugeriu que a Saxônia-Anhalt fosse governada por um primeiro-ministro estadual apartidário, com maiorias variáveis, inclusive com votos da AfD.

Siegmund, contudo, rejeitou a proposta do BSW como uma “confusão” e descartou qualquer acordo com outros partidos que impeça a AfD de cumprir sua promessa de mudança. “Se chegar ao ponto crítico, simplesmente haverá novas eleições”, afirmou.

Os conservadores de Merz disseram que buscarão negociações com outras legendas, embora isso possa exigir a união de partidos com agendas bastante distintas. Na vizinha Turíngia, no leste da Alemanha, os conservadores administram um governo minoritário com a tolerância passiva do Partido de Esquerda.

Embora a Saxônia-Anhalt, antiga região da Alemanha Oriental comunista, seja um dos menores estados alemães, com pouco mais de 2 milhões de habitantes, o resultado reforça o rápido avanço da AfD desde sua fundação, em 2013.

Atualmente, a AfD é a legenda mais popular da Alemanha no plano nacional, com 28% das intenções de voto segundo pesquisa recente do INSA, bem à frente dos conservadores, que somam 20%.

Linha dura em relação à migração

Embora partidos de extrema direita tenham avançado em outras regiões da Europa, o passado nazista da Alemanha contribui para a relutância das forças tradicionais em cooperar com a AfD.

A legenda rechaça as acusações de extremismo, tratando-as como alarmismo e insulto aos milhões de apoiadores que conquistou.

Durante a campanha, a AfD explorou a crescente desilusão com os partidos tradicionais, que classifica como esgotados e desconectados da realidade. Em contrapartida, ofereceu uma plataforma de políticas duras e uma visão nostálgica de retorno a ruas mais limpas e seguras, além de estimular o orgulho de ser alemão.

“É claro que precisamos de mudanças na Alemanha e na Europa Ocidental. E acredito que um sinal de partida está partindo daqui, quer você goste ou não”, disse Antony Lee, participante da festa eleitoral da AfD. “Sou pai, sou empresário e sei que as coisas não podem continuar assim na Alemanha.”

O programa da AfD inclui planos para direcionar escolas e instituições culturais ao que considera valores mais tradicionais, restringir a imigração e reformular a radiodifusão pública. A legenda defende que filhos de refugiados sejam ensinados em turmas segregadas.

O partido também pede a proibição de bandeiras arco-íris nas escolas e o hasteamento diário da bandeira nacional alemã. O hino nacional seria entoado por alunos e funcionários em comemorações escolares. Outras propostas envolvem patrulhas de cidadãos, ampliação do ensino de russo nas escolas e a suspensão da construção de novos parques eólicos.

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