O Brasil não cabe no quintal de ninguém?
Durante seu pronunciamento na ONU, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva declarou: “O Brasil não cabe no quintal de ninguém!” e foi interrompido por uma salva de palmas. O autor destas linhas sentiu-se honrado por ele ter recorrido ao título de um livro publicado em 2019. A expressão parece estar se transformando em um slogan de campanha eleitoral. O autor quase desmaiou, cravejado de brilhantes, como diria Nelson Rodrigues.
Contudo, a frase é muito mais do que um slogan. Ela remete, em primeiro lugar, às dimensões do Brasil, um dos gigantes mundiais. O país possui o quinto maior território do planeta, a sétima maior população e a oitava maior economia do mundo. Integra um seleto grupo de apenas cinco nações — ao lado de China, Índia, Rússia e Estados Unidos — que figuram simultaneamente entre as dez maiores em extensão territorial, população e economia.
O Brasil também dispõe de imensas reservas de terras raras e minerais críticos, urânio, petróleo, minério de ferro, entre outros. Concentra a maior biodiversidade do planeta. Soma-se a isso uma belíssima tradição cultural nacional, que desperta a admiração de outros países. E, como se não bastasse, há o povo brasileiro, admirável em muitos aspectos, como humanidade, simpatia, cordialidade, criatividade e capacidade de trabalho.
Soberania sob ameaça
Ainda assim, o leitor ou a leitora terá notado que o título deste artigo traz um ponto de interrogação. Por quê? A soberania e a integridade nacionais estão ameaçadas como nunca, por dois motivos interligados. O primeiro é o fato de concorrer à Presidência da República um Flávio Bolsonaro, que cabe no quintal de qualquer um. E disputa com chances de vitória, a julgar pelas pesquisas.
Trata-se de um político que, entre muitos defeitos graves, apresenta-se sem qualquer constrangimento como candidato a vassalo dos Estados Unidos de Trump. Basta recordar que ele se ofereceu, generosamente, para criar, em caso de vitória eleitoral, “uma equipe de transição à disposição do governo americano”. Por incrível que pareça, essas foram as palavras exatas de uma carta de agradecimento de Marco Rubio, secretário de Estado de Trump.
Há um agravante — e este é o segundo motivo do ponto de interrogação. A fase vivida pelos Estados Unidos, marcada por um imperialismo agressivo e intervencionista, tem sido classificada por alguns analistas, como Vijay Prashad, de hiperimperialismo. Basta lembrar o ocorrido na Venezuela, transformada em protetorado estadunidense.
O governo Trump não esconde — ao contrário, proclama — suas intenções. Em documentos oficiais e em diversos pronunciamentos do presidente e de seus ministros, afirmou que o Hemisfério Ocidental, da Groenlândia à Patagônia, é sua área de influência exclusiva. Essa hegemonia sobre o hemisfério não estará completa sem a submissão do Brasil, o maior país da América Latina.
A maneira mais fácil de atingir esse objetivo é eleger um Flávio Bolsonaro. O Brasil será conquistado sem que seja necessário disparar um único tiro.
O desafio da defesa nacional
Caso Lula seja eleito, o problema não estará resolvido. A verdade é que o país não está bem preparado para enfrentamentos militares. Trata-se de uma questão antiga. O autor abordou o tema em um dos capítulos de “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, intitulado “Um país desarmado”.
Supõe-se que Lula e sua equipe estejam plenamente cientes da urgência de fortalecer a defesa nacional. Imagina-se que o esforço já tenha começado, ao menos em 2026, após os episódios na Venezuela, em Cuba e no Irã. Com base nos próprios recursos do país, reforçados por cooperação militar e tecnológica com nações como França, Turquia, Irã, Rússia e China, e com um esforço concentrado do governo e da sociedade, haverá condições de superar essa vulnerabilidade estratégica.
E, assim, retirar o ponto de interrogação da frase.
Paulo Nogueira Batista Jr. é autor, economista e escritor. Foi vice-presidente e fundador do Novo Banco de Desenvolvimento, estabelecido pelos BRICS em Xangai, de 2015 a 2017, e diretor executivo no FMI pelo Brasil e mais dez países em Washington, de 2007 a 2015. Publicou em 2019, pela editora LeYa, o livro “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”.






