Durante os intensos debates da semana de alto nível da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, o chanceler da Índia, Subrahmanyam Jaishankar, apresentou uma defesa firme da reforma da governança multilateral global, do papel de destaque dos BRICS e da importância central das reivindicações do Sul Global. Ao participar de um painel organizado pelo think tank Observer Research Foundation (ORF), Jaishankar refutou a ideia de que questionar a atual paralisia da ONU equivaleria a debilitar a instituição: para o diplomata indiano, são exatamente as potências que bloqueiam a abertura do sistema as responsáveis por empurrá-lo para o anacronismo e para a irrelevância.
“Aqueles que defendem a reforma da ONU são os que verdadeiramente se preocupam com ela. Eu lhes digo: os que se opõem à reforma são os que não dão importância à ONU. Eles apenas utilizam a organização, sem se importar com seu futuro”, declarou Jaishankar perante uma plateia internacional composta por ministros, diplomatas e analistas.
A declaração estabeleceu o tom de um debate que revelou a crescente insatisfação das nações em desenvolvimento com uma estrutura concebida em 1945, controlada por membros permanentes com poder de veto, ao mesmo tempo em que tragédias humanitárias, como o massacre em Gaza, e crises econômicas mundiais evidenciam a inação do Conselho de Segurança.
Negociações baseadas em texto e a superação do veto: o caminho para a reforma da ONU
Ultrapassando os discursos diplomáticos habituais, o chefe da diplomacia de Nova Délhi sustentou que a reforma da ONU deve ingressar imediatamente em uma etapa técnica e executiva, por intermédio de negociações fundamentadas em um texto formal (text-based negotiations).
“Se levamos as reformas a sério, precisamos negociar um texto formal. Sem um texto, não há negociação — apenas se ganha tempo. Todas as propostas devem constar nesse documento para que possamos alcançar uma decisão democrática”, explicou.
Jaishankar também criticou a exigência de uma “unanimidade ilusória”, empregada por potências tradicionais como pretexto para impedir transformações profundas:
“Reformas não se alcançam por unanimidade. Em uma democracia, as decisões são tomadas pela maioria, por meio do voto. Esse é o caminho: todos apresentam suas perspectivas e os países deliberam.”
O BRICS como contraponto não ocidental ao G7
Ao responder a provocações sobre um suposto choque de sobrevivência entre blocos emergentes e a própria ONU, Jaishankar descartou qualquer interpretação de soma zero e posicionou o BRICS como o motor que revitaliza e democratiza a ordem internacional de baixo para cima.
“Essa é uma falsa alternativa. O próprio documento dos BRICS reafirma que a ONU é fundamental para o sistema internacional. O que os BRICS oferecem é uma plataforma para o pensamento alternativo. Na essência, trata-se de uma plataforma não ocidental — da mesma forma que o G7 representa o Ocidente”, argumentou.
O chanceler recordou que a força do bloco reside no reflexo direto da redistribuição de poder no mundo contemporâneo:
“A verdadeira prova dos BRICS foi sua recente expansão. Dobramos o número de integrantes, mas a demanda era tão grande que poderíamos facilmente ter quadruplicado. Há uma fila de países desejando ingressar porque o BRICS reúne visões, crenças e contribuições não ocidentais cujo peso no debate global não para de crescer.”
Sul Global e a nova diplomacia: confiança em contraposição à retórica
Questionado sobre as diretrizes que devem conduzir a política externa contemporânea — dividida entre interesses pragmáticos, valores declarados e confiança recíproca —, Jaishankar desmistificou o apelo a “valores” abstratos frequentemente instrumentalizados pelas potências hegemônicas.
“Valores são frequentemente pregados, porém não praticados. A confiança, por outro lado, é empírica e se baseia no histórico concreto de ações. Se você fez algo bom e contribuiu, as pessoas se recordam. Se agiu com deslealdade, as pessoas tampouco esquecem”, sustentou.
Para o chanceler, essa lógica valoriza a estatura moral das nações em desenvolvimento:
“A confiança é um conceito democrático: um país não necessita ser um gigante militar ou financeiro para ser digno de confiança. Nações pequenas que agem com integridade e decência conquistam enorme confiança.”
Inteligência Artificial e hegemonia tecnológica: o protagonismo das pessoas
Ante o risco de a corrida tecnológica por capacidade de processamento, supercondutores e infraestrutura energética para a Inteligência Artificial criar uma bipolaridade estrita entre Washington e Pequim, Jaishankar rejeitou visões deterministas e recolocou o Sul Global no centro da disputa:
“Faltou uma palavra na lista de chips, energia e capital: pessoas. A tecnologia precisa ser desenvolvida por pessoas e para pessoas. De onde surgirão as aplicações práticas e os casos de uso reais da IA? Do mundo real, da maioria da população global.”
Para o diplomata indiano, os países do Sul não serão simples espectadores passivos:
“Reconhecemos a liderança técnica inicial de certas potências, mas o mundo de hoje é muito mais democrático e articulado. O restante do planeta não aceitará simplesmente ser governado pelo avanço tecnológico alheio. O peso demográfico e as necessidades concretas de nossas sociedades ditarão os rumos da aplicação dessa tecnologia.”
Unidade contra o colonialismo e a imobilidade
As considerações de Jaishankar tiveram forte repercussão entre as demais autoridades presentes à mesa, incluindo a chanceler da Jamaica, Kamina Johnson Smith, o ministro do Suriname, Albert Ramdin, e o representante de Gana, Samuel Okudzeto Ablakwa.
Ablakwa elogiou a atuação da diplomacia indiana por viabilizar a entrada definitiva da União Africana no G20 e criticou com veemência a ausência permanente do continente africano no Conselho de Segurança da ONU: “Não faz sentido que um continente de 1,4 bilhão de pessoas permaneça excluído, submetido a um mecanismo de veto que paralisa o mundo diante de horrores como o de Gaza. A ONU precisa aprender com a iniciativa da Índia e romper com essa estrutura anacrônica”.
Em Nova York, a fala de S. Jaishankar consolidou a percepção de que a reconfiguração da governança multilateral não é mais uma concessão negociável pelas antigas potências coloniais, e sim uma exigência obrigatória da maioria global para assegurar que o sistema internacional sobreviva aos desafios do século XXI.







