BRICS entra em nova fase e busca ordem mundial mais representativa

O BRICS chega às duas décadas de existência em um ponto de inflexão decisivo. O que nasceu como uma aproximação entre grandes economias emergentes tornou-se uma plataforma de articulação do Sul Global e enfrenta o desafio de converter expansão e heterogeneidade em influência concreta sobre uma ordem internacional mais representativa. A análise é das pesquisadoras associadas da Observer Research Foundation (ORF), Heena Makhija e Jhanvi Tripathi, que estudam a evolução do agrupamento e suas perspectivas em um contexto global atravessado por disputas geopolíticas, crise energética, mudanças tecnológicas e rupturas nas cadeias internacionais de suprimentos. Em 2026, com a presidência da Índia, o BRICS procura responder a esse ambiente com uma agenda sintetizada no tema “Construindo resiliência, inovação, cooperação e sustentabilidade”. Mais do que um lema diplomático, essas quatro dimensões buscam traduzir as dificuldades de um grupo que cresceu, incorporou novos integrantes e passou a reunir países com interesses, estruturas econômicas e prioridades diferentes, mas que compartilham a demanda por mais participação das economias emergentes na governança mundial.

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Duas décadas de transformação

Ao longo de 20 anos, o BRICS percorreu diferentes fases da economia e da política internacional. O agrupamento enfrentou crises financeiras, conflitos regionais, mudanças profundas na distribuição do poder econômico mundial e, mais recentemente, a pandemia de Covid-19 e seus impactos econômicos e sociais. Essa trajetória ajudou a amadurecer os mecanismos de cooperação entre os sócios. O BRICS também deixou de ser apenas um fórum de coordenação entre algumas das maiores economias emergentes e ganhou uma dimensão institucional e geopolítica muito maior. Sua ampliação aumentou a diversidade interna e, consequentemente, tornou mais complexa a construção de consensos. Para Makhija e Tripathi, essa pluralidade não elimina a possibilidade de cooperar. Ao contrário, reforça a importância do diálogo permanente como caminho para administrar divergências e identificar interesses comuns.

Índia assume presidência em momento crítico

A presidência indiana do BRICS ocorre em uma conjuntura internacional especialmente delicada. Tensões geopolíticas, conflitos, custos elevados de energia e interrupções nas cadeias de suprimentos pressionam as economias e colocam em dúvida a capacidade das estruturas tradicionais de governança internacional de oferecer respostas adequadas. As consequências da pandemia também seguem moldando decisões econômicas e políticas. É nesse cenário que a Índia organiza a agenda do BRICS em torno de quatro pilares: resiliência, inovação, cooperação e sustentabilidade. A ideia de resiliência ganhou força depois dos sucessivos choques que atingiram a economia mundial. As nações emergentes perceberam a necessidade de reforçar sua capacidade de responder a crises externas, diversificar relações econômicas e criar instrumentos próprios ou complementares de financiamento e cooperação.

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BRICS busca uma ordem mundial mais representativa

Uma das questões centrais levantadas pelas pesquisadoras da ORF é o papel normativo que o BRICS pode exercer na transformação da governança global. O agrupamento reúne países que defendem uma representação internacional mais compatível com a distribuição contemporânea da população, da produção e do poder econômico. Isso exige diálogo. Existem diferenças relevantes entre os próprios integrantes do BRICS, inclusive em questões geopolíticas. O desafio é justamente impedir que essas divergências inviabilizem a cooperação nas áreas em que há convergência. O diálogo contínuo passa a ser, portanto, uma marca essencial do agrupamento. Em vez de cobrar uniformidade política de seus membros, o BRICS pode atuar como um espaço no qual diferentes países buscam construir consensos possíveis em torno da reforma e do aperfeiçoamento da governança internacional.

Um grupo maior exige soluções mais flexíveis

A expansão do BRICS evidencia que não existe uma solução única para os problemas enfrentados pelas economias emergentes. Os países têm estruturas produtivas diferentes, níveis de renda diversos, necessidades de infraestrutura e prioridades nacionais próprias. Essa diversidade exige políticas capazes de levar em conta circunstâncias específicas. Um dos exemplos é o financiamento do desenvolvimento. Grandes projetos de infraestrutura, transição energética e modernização produtiva demandam volumes expressivos de capital. Para muitas economias emergentes, entretanto, o custo do financiamento e a percepção de risco são obstáculos importantes. A criação de mecanismos capazes de reduzir riscos e ampliar investimentos aparece, assim, como uma das áreas em que a cooperação entre os integrantes do BRICS pode gerar resultados concretos.

Inovação passa ao centro da agenda

Outro eixo fundamental é a inovação. O avanço tecnológico está transformando sistemas produtivos, mercados de trabalho e relações econômicas em ritmo acelerado. Para as pesquisadoras, essa transformação não afeta apenas as grandes empresas. Pequenas e médias empresas também precisam de acesso a inovação, tecnologia e instrumentos financeiros que permitam sua adaptação à nova economia. Essa questão é ainda mais relevante em países em desenvolvimento, onde as pequenas e médias empresas respondem por parcela significativa do emprego e da atividade econômica. Uma agenda de inovação do BRICS, portanto, precisa aliar avanços tecnológicos à inclusão produtiva.

Inteligência artificial e moedas digitais entram no debate

As tecnologias emergentes também acrescentam novos temas à agenda do agrupamento. Inteligência artificial, moedas digitais e governança tecnológica estão entre os assuntos capazes de definir a posição das economias do BRICS na próxima etapa da transformação mundial. A inteligência artificial já altera indústrias inteiras, enquanto as moedas digitais abrem novas possibilidades para os sistemas financeiros e para as transações internacionais. Ao mesmo tempo, essas tecnologias impõem desafios ligados à regulação, à segurança, à soberania, à concentração econômica e à governança de dados. A capacidade de formular posições e mecanismos de cooperação nessas áreas poderá determinar se os países emergentes serão apenas consumidores das tecnologias criadas nos grandes centros econômicos ou se participarão diretamente da definição das regras da nova economia digital.

Sustentabilidade será determinante

A transição energética é outra dimensão decisiva para o futuro do BRICS. Os integrantes do agrupamento possuem matrizes energéticas, recursos naturais e necessidades de desenvolvimento bastante distintos. Alguns são grandes produtores de petróleo e gás. Outros têm vantagens expressivas em fontes renováveis. Ao mesmo tempo, todos enfrentam o desafio de conciliar crescimento econômico, segurança energética e sustentabilidade. Por isso, a migração para fontes renováveis precisa considerar as circunstâncias específicas de cada economia. A cooperação entre os países pode envolver financiamento, intercâmbio tecnológico, investimentos e desenvolvimento conjunto de soluções adaptadas às necessidades do Sul Global.

Novos membros ampliam horizontes do BRICS

A expansão do agrupamento incorporou novas perspectivas ao debate. Os novos integrantes chegam com interesses, capacidades e experiências próprias e passam a participar da construção da agenda futura. O desafio é assimilar essas contribuições sem perder os mecanismos de cooperação já desenvolvidos nas duas primeiras décadas do BRICS. Essa ampliação pode aumentar consideravelmente o alcance internacional do grupo, desde que a diversidade seja convertida em complementaridade. Quanto maior o BRICS, maior também será a necessidade de instrumentos eficazes de coordenação e de formação de consensos.

Resiliência construída nas crises

Uma das conclusões da análise das pesquisadoras é que a própria história do BRICS demonstra sua capacidade de adaptação. O grupo atravessou crises econômicas internacionais, disputas geopolíticas, conflitos regionais e uma pandemia de escala mundial. Ainda assim, seus canais de diálogo permaneceram ativos e o agrupamento se expandiu. Essa continuidade sugere um grau crescente de maturidade institucional. Ao mesmo tempo, a experiência acumulada mostra que a relevância futura do BRICS dependerá menos de declarações políticas e mais da capacidade de produzir cooperação concreta.

Um laboratório para o mundo multipolar

Aos 20 anos, o BRICS pode ser compreendido também como um grande laboratório da multipolaridade. Dentro do mesmo agrupamento convivem grandes potências, economias emergentes, produtores de energia, países altamente industrializados e sociedades com diferentes modelos políticos e prioridades nacionais. Essa diversidade torna a construção de consensos mais difícil, mas também faz do BRICS uma experiência singular de governança internacional. Em vez de uma estrutura baseada na uniformidade, o agrupamento procura desenvolver cooperação a partir da coexistência de interesses diferentes. É justamente essa característica que pode fazer sua experiência ser relevante para uma ordem internacional em transformação.

Dos primeiros 20 anos para as próximas décadas

O aniversário de duas décadas representa, portanto, menos um ponto de chegada do que o começo de uma nova etapa. Sob a presidência indiana, o BRICS precisará demonstrar que sua ampliação pode vir acompanhada de maior capacidade de ação. Resiliência econômica, inovação tecnológica, financiamento do desenvolvimento, inteligência artificial, moedas digitais, transição energética e sustentabilidade estão entre os temas que vão determinar não apenas o futuro do agrupamento, mas também a posição das economias emergentes na ordem mundial das próximas décadas. O compêndio apresentado por Heena Makhija e Jhanvi Tripathi, da Observer Research Foundation, reúne justamente perspectivas de especialistas dos países integrantes, procurando refletir essa diversidade de experiências e propostas. Depois de 20 anos, o principal desafio do BRICS será converter seu crescente peso econômico, demográfico e político em mecanismos cada vez mais eficazes de cooperação. Em um mundo fragmentado por conflitos e disputas de poder, a aposta no diálogo entre países diferentes talvez seja uma de suas contribuições mais importantes. Se conseguir combinar diversidade, inovação e desenvolvimento com uma cooperação pragmática, o BRICS poderá se consolidar como um dos principais pilares de uma ordem internacional mais multipolar e representativa nas próximas décadas.

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